Medicina esportiva, com método.
Sobre nósEntrar

Guideline

Parecer de Posição da ISSN: Creatina, Exercício, Esporte e Medicina

Sobre este resumo

Este texto é um resumo do International Society of Sports Nutrition position stand: safety and efficacy of creatine supplementation in exercise, sport, and medicine, publicado pela International Society of Sports Nutrition (ISSN) em 2017, no periódico Journal of the International Society of Sports Nutrition.

Introdução

A creatina é um dos auxílios ergogênicos nutricionais mais populares entre atletas. Estudos mostram de forma consistente que a suplementação aumenta as concentrações intramusculares de creatina, o que pode explicar as melhorias observadas no desempenho de exercícios de alta intensidade e as maiores adaptações ao treinamento. Além do efeito ergogênico, a literatura aponta possíveis benefícios na recuperação pós-exercício, na prevenção de lesões, na termorregulação, na reabilitação e na neuroproteção em concussões e/ou lesões medulares. Também foram estudadas aplicações clínicas em doenças neurodegenerativas (distrofia muscular, Parkinson, Huntington), diabetes, osteoartrite, fibromialgia, envelhecimento, isquemia cerebral e cardíaca, depressão em adolescentes e gestação.

Segundo o resumo do documento, a suplementação de curto e longo prazo (até 30 g/dia por 5 anos) é segura e bem tolerada em indivíduos saudáveis e em diversas populações de pacientes, de lactentes a idosos, e a ingestão habitual baixa de creatina na dieta (cerca de 3 g/dia) ao longo da vida pode trazer benefícios significativos à saúde. O objetivo declarado da revisão é atualizar a literatura sobre o papel e a segurança da suplementação de creatina no exercício, no esporte e na medicina e atualizar o posicionamento oficial da ISSN.

Métodos

Trata-se de uma revisão da literatura científica e médica que culmina no posicionamento oficial da sociedade: o documento foi revisado pelo Comitê de Pesquisa da International Society of Sports Nutrition e representa a posição oficial da Sociedade, tendo sido preparado como position stand com aprovação dos editores-chefes, fundadores e membros do comitê de pesquisa.

O documento não adota graduação formal de força de recomendação ou nível de evidência: as conclusões da ISSN são apresentadas como uma lista numerada de nove pontos (aqui tratados como recomendações não graduadas). As Tabelas 1 e 2, que resumem os benefícios ergogênicos potenciais e os eventos esportivos que podem ser beneficiados, foram adaptadas de publicações anteriores (Kreider e Jung; Williams, Kreider e Branch).

Resultados

Papel metabólico da creatina

A creatina é um composto aminoácido não proteico de ocorrência natural, encontrado principalmente em carne vermelha e frutos do mar; cerca de 95% está no músculo esquelético e aproximadamente 5% no cérebro e nos testículos. O pool total de creatina muscular (PCr+Cr) é em média de cerca de 120 mmol/kg de músculo seco em um indivíduo de 70 kg, com limite superior de armazenamento em torno de 160 mmol/kg. Cerca de 1–2% da creatina intramuscular degrada-se em creatinina e é excretada na urina, de modo que o corpo precisa repor cerca de 1–3 g/dia; aproximadamente metade da necessidade diária vem da dieta (uma libra de carne bovina ou salmão crus fornece cerca de 1–2 g de creatina).

O restante é sintetizado principalmente no fígado e nos rins a partir de arginina e glicina, pelas enzimas AGAT e GAMT. Indivíduos com erros inatos de AGAT, GAMT ou do transportador de creatina (CRTR) dependem da ingestão dietética; vegetarianos apresentam estoques intramusculares menores (90–110 mmol/kg de músculo seco) e podem ter maiores ganhos com a suplementação. Atletas maiores em treinamento intenso podem precisar de 5–10 g/dia para manter estoques corporais ótimos, e populações clínicas podem precisar de 10–30 g/dia ao longo da vida. O sistema creatina quinase/fosfocreatina (CK/PCr) conecta os sítios de produção de ATP aos de utilização e ainda reduz a formação de espécies reativas de oxigênio, podendo atuar como antioxidante direto e/ou indireto.

Protocolos de suplementação e biodisponibilidade

Em uma dieta normal contendo 1–2 g/dia de creatina, os estoques musculares ficam cerca de 60–80% saturados; a suplementação aumenta a creatina e a PCr musculares em 20–40%. A forma mais eficaz de elevar os estoques é ingerir 5 g de creatina monohidratada quatro vezes ao dia por 5–7 dias (≈0,3 g/kg/dia no total, conforme a posição oficial da ISSN no item 7; a seção de protocolos apresenta a equivalência como "5 g ou aproximadamente 0,3 g/kg de peso corporal, quatro vezes ao dia"). Após a saturação, os estoques em geral são mantidos com 3–5 g/dia, embora atletas maiores possam precisar de 5–10 g/dia. Ingerir creatina com carboidrato ou com carboidrato e proteína promove retenção maior de forma mais consistente. Um protocolo alternativo é 3 g/dia de creatina monohidratada por 28 dias, com elevação mais gradual. Uma vez elevados, os estoques levam em geral 4–6 semanas para retornar ao basal, e não há evidência de supressão da síntese endógena após a interrupção.

A creatina monohidratada é a forma mais estudada; os níveis plasmáticos tipicamente atingem pico cerca de 60 minutos após a ingestão oral. A creatina é estável em forma sólida, mas se degrada em creatinina em solução aquosa conforme pH e temperatura: após 3 dias a 25 °C, degradam-se 4% em pH 5,5, 12% em pH 4,5 e 21% em pH 3,5; no trato gastrointestinal a conversão é mínima e a absorção sanguínea é de quase 100%. Alegações de que outras formas (citrato, creatina sérica ["creatine serum"], etiléster, formas tamponadas ou nitrato de creatina) retêm mais creatina que a monohidratada são consideradas infundadas pela revisão.

Valor ergogênico e prevalência de uso

A Tabela 1 lista os benefícios ergogênicos potenciais: melhora de sprints únicos e repetidos, mais trabalho em séries de contrações máximas, maiores adaptações de massa muscular e força, maior síntese de glicogênio, aumento do limiar anaeróbico, possível melhora da capacidade aeróbica, maior capacidade de trabalho, recuperação aprimorada e maior tolerância ao treinamento. A Tabela 2 lista os eventos esportivos potencialmente beneficiados, agrupados por mecanismo: sprints de pista de 60–200 m, natação de 50 m e ciclismo de perseguição (aumento de PCr); basquete, hóquei em campo, futebol americano, hóquei no gelo, lacrosse e vôlei (ressíntese de PCr); esqui downhill, esportes aquáticos, provas de 100–200 m na natação e 400–800 m na pista e esportes de combate (redução da acidose muscular); basquete, futebol, handebol, tênis, vôlei e treinamento intervalado em atletas de endurance (metabolismo oxidativo); e futebol americano, fisiculturismo, esportes de combate, powerlifting, rúgbi, arremessos/lançamentos e levantamento olímpico (aumento de massa corporal/muscular).

Após a saturação por loading, o desempenho em exercício de alta intensidade e/ou repetitivo em geral aumenta 10–20%, dependendo da magnitude do aumento da PCr muscular. Benefícios foram relatados em homens e mulheres, embora a maioria dos estudos tenha sido feita em homens e alguns sugiram que mulheres podem ter menores ganhos de força e/ou massa muscular. A ISSN já havia concluído, em posicionamento anterior, que a creatina monohidratada é o suplemento nutricional ergogênico mais eficaz disponível para aumentar a capacidade de exercício de alta intensidade e a massa magra durante o treinamento, conclusão semelhante à de posicionamentos da American Dietetic Association, Dietitians of Canada e American College of Sports Medicine.

A creatina não é banida por nenhuma organização esportiva, embora algumas proíbam que equipes forneçam suplementos a atletas. A prevalência de uso entre atletas e militares em pesquisas é de cerca de 15–40%, mais comum em atletas homens de força/potência; atletas do ensino médio apresentaram prevalência semelhante, e os americanos consomem mais de quatro milhões de quilogramas de creatina por ano, com uso mundial ainda maior. Em 2014, a NCAA relatou uso entre atletas homens de 28,1% no beisebol, 14,6% no basquete, 27,5% no futebol americano, 13,0% no golfe, 29,4% no hóquei no gelo, 25,3% no lacrosse, 11,1% no futebol, 19,2% na natação, 12,9% no tênis, 16,1% no atletismo e 28,5% no wrestling, contra 0,2–3,8% entre mulheres; os mesmos atletas relataram 83% de uso de álcool, 10–16% de tabaco, 22% de maconha e 0,4% de esteroides anabólicos.

Recuperação, prevenção de lesões e tolerância ao calor

Na recuperação, a coingestão de 5 g de creatina com 95 g de glicose aumentou o armazenamento muscular de creatina e carboidrato; 5 g com 47–97 g de carboidrato e 50 g de proteína aumentaram a retenção de creatina; e o loading de creatina antes de exercício exaustivo seguido de loading de glicogênio promoveu maior restauração de glicogênio que carboidrato isolado. Demince e colaboradores relataram que a suplementação inibiu o aumento de marcadores inflamatórios (TNF-alfa e proteína C-reativa) em exercício intermitente de sprint anaeróbico, e o documento conclui haver evidência forte de que a creatina ajuda a potencializar o loading de glicogênio, a reduzir a inflamação e/ou o efluxo de enzimas musculares pós-exercício e a tolerar volumes altos de treinamento e/ou overreaching.

Você leu o início desta guideline. Entre na sua conta ou crie uma conta gratuita para ler o texto completo.