Medicina esportiva, com método.
Sobre nósEntrar

Guideline

Parecer de Posição da Sociedade Brasileira de Cardiologia: Emergências Cardiovasculares em Eventos Esportivos

Sobre este resumo

Resumo do Position Statement on Cardiovascular Emergencies at Sporting Events – 2026, da Sociedade Brasileira de Cardiologia (DERC/SBC), publicado no Arq Bras Cardiol: define avaliação pré-participação, equipamentos, equipes, logística e protocolos de suporte de vida para emergências cardiovasculares em eventos esportivos.

Introdução

O documento é um posicionamento do Departamento de Ergometria, Reabilitação, Cardiologia do Esporte e Cardiologia Nuclear da Sociedade Brasileira de Cardiologia (DERC/SBC), publicado no Arq Bras Cardiol em 2026 (volume 123, número 4), sobre emergências cardiovasculares em eventos esportivos. A morte súbita é definida como evento fatal inesperado, testemunhado ou não, que ocorre em até 1 hora do início dos sintomas ou em até 24 horas desde que o indivíduo foi visto pela última vez em boa saúde; no contexto esportivo, considera-se relacionada à atividade física quando ocorre em até 1 hora de exercício de intensidade moderada a alta.

Em indivíduos com menos de 35 anos predominam cardiopatias estruturais genéticas e canalopatias, junto com miocardite viral; nos atletas com 35 anos ou mais, a doença arterial coronariana responde por mais de 80% dos casos de morte súbita cardíaca. Quando a autópsia revela coração estruturalmente normal, configura-se a síndrome da morte arrítmica súbita (SADS), que registros dos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália apontam como causa frequente em atletas jovens, embora cardiomiopatia hipertrófica e cardiomiopatia arritmogênica ventricular continuem entre as principais etiologias. Entre as causas adquiridas, destaca-se a miocardite viral, cada vez mais prevalente em jovens atletas e associada a vírus comuns como influenza, coxsackievirus e parvovírus, com preocupação adicional pela miocardite induzida por SARS-CoV-2 em quem pratica atividade de alta intensidade. Nem toda morte súbita em atletas é cardíaca: anabolizantes, estimulantes (anfetaminas, energéticos), hormônios peptídicos e drogas ilícitas como cocaína associam-se a risco aumentado de doença cardiovascular adquirida, e causas não cardíacas incluem hipertermia, distúrbios hidroeletrolíticos, trauma torácico, concussão, afogamento e síncope específica do esporte.

A incidência real é incerta, mas estima-se que 56% a 80% das mortes súbitas em atletas jovens ocorram durante a prática esportiva, com incidências relatadas de 1:1.000.000 a 1:5.000 atletas-ano. Homens têm risco relativo maior que mulheres (3:1 a 9:1), e atletas de ascendência africana têm risco cerca de 3,2 vezes maior que brancos; no basquete, a incidência anual chega a 1:9.000 em homens brancos e 1:5.300 em homens de ascendência africana.

A avaliação pré-participação (PPE) é a base da prevenção da morte súbita no esporte, e protocolos de emergência com resposta rápida ao colapso são determinantes de desfechos favoráveis. Cada minuto de atraso no início da RCP reduz a sobrevida em aproximadamente 6% a 10%, e cada 5 minutos de atraso no retorno da circulação espontânea (ROSC) na parada extra-hospitalar associa-se a aumento de 38% no risco de mortalidade. A janela ótima são os primeiros minutos, quando predominam ritmos desfibriláveis (TV e FV); depois, há progressão para assistolia ou atividade elétrica sem pulso, de prognóstico muito pior. Análise em vídeo de paradas no esporte mostrou sobrevida de 100% nos atletas desfibrilados dentro de 3 minutos. Em arenas com DEA disponível e resposta em até 3 minutos, a sobrevida chega a 60%–70%, com recuperação neurológica completa na maioria; sem DEA ou plano estruturado, raramente excede 5%. Um estudo francês (Marijon et al.) encontrou sobrevida de 22,8% em instalações esportivas contra 8% fora delas, e o estádio do AZ Alkmaar (Holanda) registrou 100% de sobrevida em 4 paradas consecutivas revertidas com DEA e transporte rápido. Nos Estados Unidos, embora o risco de parada em maratonas tenha permanecido estável, a mortalidade caiu quase pela metade desde 2010.

A diretriz da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte (SBME) de 2005 já trazia recomendações sólidas, mas quase 2 décadas depois persiste grande distância entre recomendação e implementação nos eventos esportivos brasileiros. A Tabela 1 do documento quantifica essa lacuna: PPE padronizada em 30%–40%, desfibriladores no local em 50%–60%, treinamento em RCP em 25%–35%, protocolos em 40%–50%, integração com serviços de emergência em 20%–30%, registro centralizado em 10%–15% e legislação implementada em 35%–45%. As falhas mais críticas concentram-se em três pilares: prevenção primária por PPE adequada, infraestrutura de resposta rápida com desfibriladores e equipes treinadas, e protocolos padronizados integrados aos sistemas de emergência.

Métodos

Trata-se de um position statement desenvolvido pelo DERC/SBC, que propõe um marco de referência integrando prevenção cardiovascular e resposta a emergências, sem graduação formal de classe/nível de evidência nas recomendações. As declarações de interesse dos especialistas foram reportadas à SBC no período de elaboração (2025/2026). O documento apoia-se em diretrizes nacionais e internacionais (AHA, ERC, ESC, EACPR), em recomendações da SBME e na experiência de programas de segurança cardiovascular em arenas europeias e norte-americanas. O modelo brasileiro de avaliação pré-participação combina o protocolo norte-americano (história e exame físico em 14 pontos) com o protocolo europeu, que inclui o ECG de repouso como exame obrigatório.

Resultados

Avaliação pré-participação (PPE)

O objetivo da PPE cardiovascular é identificar condições potencialmente fatais que aumentam o risco de morte súbita e arritmias malignas durante o esporte; é recomendada para atletas competitivos, praticantes recreacionais e indivíduos que iniciam treinamento de alta intensidade. No Brasil, a PPE é mais comum em clubes (como os de futebol) e em provas de endurance (corridas, trail running, triatlo) que exigem atestado médico obrigatório. O Conselho Federal de Medicina estabelece que a avaliação inclua história detalhada, exame físico completo e exames complementares quando indicados; SBC e SBME recomendam protocolos adaptados ao contexto nacional, considerando custo-efetividade, prevalência de doenças e infraestrutura. A PPE deve ser conduzida por médicos com expertise adequada, com abordagem de risco-benefício alinhada a diretrizes nacionais e internacionais, e devem ser seguidos os critérios internacionais de interpretação do ECG em atletas, para não confundir adaptações do treino com anormalidades.

A Tabela 2 reproduz a avaliação em 14 pontos: na história (8 pontos), dor/desconforto torácico ao exercício, síncope ou quase-síncope ao esforço, dispneia ou fadiga excessiva desproporcional, história de sopro cardíaco, hipertensão arterial diagnosticada, história familiar de morte súbita antes dos 50 anos e história familiar de cardiomiopatia, síndrome de Marfan ou arritmias graves, além de cardiopatia congênita em parentes de primeiro grau. No exame físico (6 pontos): sopros patológicos, pulsos femorais diminuídos (suspeita de coarctação aórtica), sinais de síndrome de Marfan (aumento do vão dos braços, deformidades da parede torácica), medida da pressão arterial, sons cardíacos anormais (S3, S4 ou ritmo de galope) e arritmias detectadas ao exame.

A avaliação inicial recomendada pela SBC inclui história pessoal e familiar detalhada, exame físico completo e ECG (essencial para identificar anormalidades elétricas suspeitas); os exames complementares, baseados no julgamento clínico, incluem teste ergométrico, ecocardiografia, exames laboratoriais (hemograma, glicose, perfil lipídico, função renal) e ressonância magnética cardíaca em casos selecionados. O padrão por perfil: menores de 35 anos sem comorbidades: consulta médica + ECG; 35 anos ou mais, ou com fatores de risco cardiovascular: consulta + ECG + laboratório + teste ergométrico ou outro teste funcional/anatômico conforme a probabilidade pré-teste de DAC; atletas de elite: avaliação completa com ECG, ecocardiografia e teste funcional (ergométrico ou cardiopulmonar).

Plano de ação de emergência e equipamentos

Um plano de ação de emergência (EAP) bem estruturado deve garantir resposta rápida, integração entre equipes médicas e equipamentos para atendimento imediato, consistindo em protocolos escritos testados periodicamente; é o pilar central da estratégia pré-hospitalar nesses cenários. As emergências em campo podem atingir não só atletas aparentemente saudáveis (por cardiomiopatias, anomalias coronarianas, síndrome do QT longo ou cardiomiopatia arritmogênica de VD ou VE), mas também comissão técnica e espectadores. A evidência atual recomenda que o intervalo entre o colapso e o primeiro choque não exceda 3 minutos.

O arsenal deve cobrir suporte básico de vida (SBV), suporte avançado de vida (SAV) e suporte logístico/trauma, organizado em kits modulares (vias aéreas, ventilação, circulação, medicamentos, trauma) com checklists pré-evento obrigatórios. No SBV (Tabela 3): DEA visível e acessível em até 3 minutos de qualquer ponto, com baterias carregadas e pás reserva; reanimador manual tipo Ambu em todos os postos; máscaras faciais e filtros HEPA; cânulas orofaríngeas e nasofaríngeas de vários tamanhos; tesoura, lâmina e toalhas descartáveis para exposição rápida do tórax; e oxímetro de pulso portátil.

Você leu o início desta guideline. Entre na sua conta ou crie uma conta gratuita para ler o texto completo.