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Especialização e Treinamento Intensivo em Atletas Jovens

Sobre este resumo

Este texto é um resumo do Sports Specialization and Intensive Training in Young Athletes, publicado pela American Academy of Pediatrics (AAP) em 2016, no periódico Pediatrics.

Introdução

O documento é um relatório clínico (clinical report) da AAP, produzido pelo Council on Sports Medicine and Fitness com Joel S. Brenner como autor principal, publicado na Pediatrics, volume 138, número 3, setembro de 2016, com o identificador e20162148 e DOI 10.1542/peds.2016-2148. O relatório foi reafirmado com atualizações de referências e dados em fevereiro de 2021, sem outras alterações no texto ou conteúdo. Ele substitui uma declaração de política anterior da AAP intitulada "Intensive Training and Sports Specialization in Young Athletes" e complementa o relatório clínico "Overuse Injuries, Overtraining, and Burnout in Child and Adolescent Athletes".

O objetivo declarado é auxiliar pediatras a aconselhar jovens atletas e seus pais sobre especialização esportiva e treinamento intensivo, já que a especialização precoce pode trazer efeitos deletérios físicos e psicológicos, enquanto que, no tempo certo e sob condições corretas, o atleta pode alcançar objetivos específicos. A cultura do esporte juvenil mudou nos últimos 40 anos: tornou-se norma a participação em esportes organizados dirigidos por treinadores e pais, com pressão crescente para competir em alto nível, especializar-se cedo em um único esporte e jogar o ano todo, frequentemente em várias equipes; segundo o documento, essa ênfase levou ao aumento de lesões por sobrecarga, overtraining e burnout.

Métodos

Trata-se de um relatório clínico de orientação, não de uma diretriz com gradação formal de evidências; as orientações ao pediatra aparecem como uma lista numerada de nove pontos que o documento apresenta como potencialmente úteis ao atleta, aos pais e aos treinadores, sem classe de recomendação nem nível de evidência declarados. O documento revisa a epidemiologia do esporte juvenil e o histórico da especialização, destaca preocupações fisiológicas do treinamento intensivo, responde a perguntas específicas sobre especialização em atletas com menos de 18 anos e oferece orientação ao pediatra na forma da Figura 1 e da lista de orientações. O próprio documento informa que a orientação não indica um curso exclusivo de tratamento nem serve como padrão de cuidado médico, e que os relatórios clínicos da AAP expiram automaticamente 5 anos após a publicação, salvo reafirmação, revisão ou retirada.

Resultados

Epidemiologia e definições

Segundo o relatório de 2008 do National Council of Youth Sports, 60 milhões de jovens de 6 a 18 anos participavam de esportes organizados, contra 45 milhões em 1997; a proporção por sexo manteve-se em 66% do sexo masculino e 34% do feminino, 27% participavam de apenas 1 esporte e a participação de crianças com 6 anos ou menos subiu de 6% em 1997 para 12% em 2008. Apesar disso, 70% das crianças abandonam os esportes organizados até os 13 anos de idade. Na pesquisa de 2013-2014 da National Federation of High School Sports, 7,8 milhões de estudantes do ensino médio participavam de esportes, número que subestima a participação real.

A incidência real de lesões por sobrecarga e overtraining é difícil de avaliar pela falta de uniformidade nas definições; segundo alguns relatos, lesões por sobrecarga representam 46% a 50% de todas as lesões atléticas e, apenas em atletas do ensino médio, 7,7% de todas as lesões, e as taxas reais de lesão variam por idade, sexo e esporte. Não há dados disponíveis sobre quantos jovens atletas jogam o ano todo ou em múltiplas equipes ao mesmo tempo. O documento define especialização esportiva como o atleta focar em apenas 1 esporte, usualmente com exclusão de qualquer outro e frequentemente o ano todo; a especialização aumentou e começa mais cedo, com ligas seletivas ou de viagem iniciando já aos 7 anos, e pode ser dividida em especialização precoce (antes da puberdade) e tardia, com diversificação precoce (sampling).

As aspirações por trás da especialização contrastam com as probabilidades: apenas 3,3% a 11,3% dos atletas do ensino médio competem em nível NCAA, somente 1% recebe bolsa atlética e apenas 0,03% a 0,5% chegam ao nível profissional. Atletas que participam de variedade de esportes têm menos lesões e jogam por mais tempo do que os que se especializam antes da puberdade. Estudos mostraram que os pais foram a influência mais forte no início de um esporte e os treinadores influenciaram a decisão de treinar intensamente e especializar-se.

Modelos de desenvolvimento do atleta

Os programas de desenvolvimento de longo prazo do atleta (long-term athlete development, LTAD), iniciados nos anos 1990 nos Estados Unidos, Canadá e outros países industrializados, buscaram contrapor os efeitos deletérios da especialização precoce e do esporte o ano todo, oferecendo arcabouço para desenvolver alfabetização física (definida como o domínio das habilidades fundamentais de movimento e de esporte) e atletas de elite; os ABCs (agilidade, equilíbrio, coordenação e velocidade; em inglês agility, balance, coordination, speed) são as habilidades básicas dessa alfabetização. A fragilidade dos programas LTAD é basearem-se majoritariamente em evidência empírica e não serem planos individualizados; muitos países os usaram para desenvolver talento de elite, nutrindo a minoria rara em vez de promover atividade física para a maioria.

O modelo de especialização tardia do LTAD descreve cinco estágios: FUNdamental (6 a 10 anos, aprender habilidades fundamentais de movimento e os ABCs, com abordagem positiva e lúdica); Training to Train (10 a 14 anos, aprender a treinar e as habilidades básicas do esporte, com razão de 75% treinamento para 25% competição); Training to Compete (13 a 18 anos, 50% do tempo em habilidades técnicas e táticas e 50% em treinamento específico de competição); Training to Win (17 anos ou mais, foco em otimizar performance com 75% do tempo em competição, seja em atividades de treinamento específico de competição ou nas competições em si); e Retirement/Retraining, quando o atleta para de competir. O burnout físico e mental é prevenido por pausas "profiláticas" no treinamento, e atletas que não seguem no esporte competitivo ainda se beneficiam das conquistas do estágio FUNdamental em atividades recreativas.

O US Olympic Committee, com os National Governing Bodies, usou os princípios do LTAD para criar o American Development Model em 2014, com cinco estágios: Discover, Learn, and Play (0 a 12 anos); Develop and Challenge (10 a 16 anos); Train and Compete (13 a 19 anos); Excel for High Performance or Participate and Succeed (15 anos ou mais); e Mentor and Thrive (for Life). Outro modelo proposto é o Developmental Model of Sport Participation, com dois caminhos: diversificação precoce (sampling) ou especialização precoce; a diversificação precoce inclui múltiplos esportes e "deliberate play" (definido como a natureza intencional e voluntária de jogos esportivos informais desenhados para maximizar o prazer inerente) e tem maior potencial de minimizar abandono, maximizar participação sustentada, fomentar relações positivas entre pares e habilidades de liderança e criar motivação intrínseca. Em contraste, a especialização precoce envolve foco em 1 esporte com ênfase em "deliberate practice" (definido como "atividade altamente estruturada que requer esforço, não gera recompensas imediatas e é motivada pela meta de melhorar performance em vez do prazer inerente") e muito pouco deliberate play, com foco em performance já aos 6 anos; programas de especialização precoce são desenhados para produzir atletas de elite.

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