Introdução
Trata-se de um relatório clínico (clinical report) da AAP, produzido pelo Conselho de Medicina do Esporte e Aptidão Física (Council on Sports Medicine and Fitness), que substitui o relatório anterior de mesmo tema, “Organized Sports for Children and Preadolescents”, e complementa os relatórios “Physical Activity Assessment and Counseling in Pediatric Clinical Settings” (em desenvolvimento à época) e “Sports Specialization and Intensive Training in Young Athletes”. O documento revisa benefícios e riscos dos esportes organizados e os papéis de escolas, organizações comunitárias, pais e treinadores, oferecendo também orientação ao pediatra para aconselhar famílias.
Neste relatório, esporte organizado é definido como atividade física dirigida por líderes adultos ou jovens, com regras, prática formal e competição; esportes escolares e de clubes estão incluídos, enquanto aulas de educação física em geral não se enquadram nessa definição.
A participação em esportes organizados por crianças, pré-adolescentes e adolescentes segue em crescimento, e o documento lista benefícios potenciais já associados na literatura: melhor saúde mental geral em adolescentes jovens, maior densidade mineral óssea em mulheres adultas que praticavam mais esporte aos 12 anos e redução de risco cardiovascular, sobrepeso e obesidade em escolares. A prática na adolescência associa-se a mais atividade física e melhor saúde subjetiva na vida adulta jovem; em veteranos homens da Segunda Guerra, ter jogado na equipe esportiva principal da escola (varsity sport) no ensino médio foi o preditor mais forte de atividade física e saúde na vida adulta.
Em populações especiais, mulheres jovens com condição crônica de saúde tiveram taxas de participação semelhantes aos controles, mas homens jovens com condição crônica participaram significativamente menos, com tempo e lesão/limitação física como principais barreiras. A participação prolongada nas Olimpíadas Especiais (Special Olympics) melhorou função psicossocial e aptidão física em jovens com deficiências do desenvolvimento, e crianças com deficiências neurológicas (paralisia cerebral, lesão medular, mielomeningocele) em esportes organizados apresentam mais atividade física, apoio social, autopercepção de aparência e autoestima. Ainda assim, as taxas globais de atividade física são menores em crianças com deficiências do desenvolvimento do que na população geral.
Sinal de alerta do próprio documento: o United States Report Card on Physical Activity for Children and Youth relatou notas baixas para atividade física geral e para a participação em esportes do ensino médio, e há dados mostrando baixos níveis de aptidão cardiorrespiratória em crianças com deficiência intelectual.
Métodos
É um relatório clínico de revisão narrativa da literatura, sem metodologia sistemática declarada e sem graduação formal de força ou nível de evidência das recomendações; as orientações aparecem no texto corrido e numa lista numerada de 15 conclusões. O próprio documento adverte que grande parte da pesquisa sobre benefícios do esporte organizado é observacional: correlações estatisticamente significativas não estabelecem necessariamente causalidade nem sua direção. As orientações do relatório não indicam curso exclusivo de tratamento nem padrão de cuidado médico, admitindo variações conforme circunstâncias individuais, e os relatórios clínicos da AAP expiram automaticamente 5 anos após a publicação, salvo reafirmação, revisão ou retirada. O trabalho não recebeu financiamento externo e os autores declararam ausência de relações financeiras relevantes e de conflitos de interesse. Ao longo do texto são usadas as abreviaturas AFMV (MVPA, moderate to vigorous physical activity), NSE (SES, socioeconomic status) e CYD (community youth development).
Resultados
Papel do brincar livre e da prontidão
As crianças aprendem as habilidades necessárias ao esporte organizado por meio de brincadeiras ativas, divertidas e adequadas ao desenvolvimento (como correr, saltar e escalar), especialmente nos anos pré-escolares e do ensino fundamental, quando as habilidades básicas são desenvolvidas e combinadas. Um programa que incorporou desenvolvimento de habilidades ao brincar livre em crianças de jardim de infância e 1º ano associou-se a melhora significativa em testes de habilidades motoras, mantida em seguimento de 4 meses. A coordenação motora é significativamente maior em crianças de 6 a 9 anos com participação consistente em esportes organizados, e crianças que se sentem competentes nas habilidades do seu esporte se divertem mais e tendem a permanecer nele. Os aspectos de prontidão a considerar são aquisição de habilidades motoras, capacidade de combiná-las e atenção sustentada; menores de 6 anos podem não ter habilidades e atenção suficientes nem para esportes organizados simples.
Papel das escolas
A atividade física melhora o desempenho cognitivo na escola, e a participação em esportes organizados fora dela também se associa a melhor desempenho cognitivo. Diante dessa associação, pode ser prudente que as escolas explorem esportes organizados para os alunos, seja na própria escola ou em parcerias escola-organização esportiva. Um estudo amplo com jovens urbanos canadenses de baixo nível socioeconômico mostrou baixo envolvimento global em esportes escolares organizados, com aumento da participação dos meninos ao longo do tempo e estabilidade entre as meninas, enquanto a participação fora da escola caiu. Essa queda pode representar uma oportunidade de as escolas ampliarem as opções de esporte organizado à medida que os adolescentes crescem, em vez de reduzi-las como na tendência atual, embora apenas aumentar a oferta não tenha se mostrado, de forma definitiva, capaz de aumentar a atividade física. Em “escolas de esporte” (sports schools: apenas mais tempo de educação física padrão, ao menos 4,5 horas semanais), os alunos tiveram mais atividade física no horário escolar que alunos de “escolas normais” (90 minutos semanais), mas não mais atividade física total, porque reduziram o esporte organizado no lazer. Menos de 70% das escolas relataram atingir a meta de “competência em habilidades motoras e padrões de movimento”, e um programa pós-escola de futebol, redação criativa e aprendizado-serviço aumentou discretamente a AFMV em jovens com sobrepeso e obesidade. A Figura 1 do documento resume a mensagem: “Kids and sports: let the fun win!” (Crianças e esportes: deixem a diversão vencer).
Papel das organizações comunitárias
Quando o nível competitivo das ligas sobe, quem não deseja competir em nível mais alto pode simplesmente abandonar o esporte; meninas que não se envolvem em idade jovem (antes dos 8 anos) provavelmente não se envolverão mais tarde, ao passo que meninos podem entrar no esporte já na adolescência. O modelo de negócio da maioria das organizações comunitárias migrou para níveis cada vez mais altos (“elite”), e expandir a oferta para todos os níveis e idades criaria oportunidades para mais atletas. Como benefícios à saúde ocorrem com qualquer participação em esporte organizado, ofertas comunitárias para meninas e meninos em múltiplos níveis de competição poderiam ampliar a participação. Da pré-adolescência à adolescência observa-se queda acentuada da atividade física nas meninas (mais intensa em meninas afro-americanas do que em brancas), culminando em pouca atividade física ao fim da adolescência fora do exigido pela escola. Organizações comunitárias que gerenciam esportes organizados, em parceria com escolas, poderiam focar em melhorar a atividade física das meninas, sobretudo se começarem em idade jovem. A participação aumenta com o nível socioeconômico em ambos os sexos, e barreiras concretas incluem custo e transporte de volta para casa após atividades pós-escolares; organizações com opções de baixo custo ou gratuitas podem atrair mais jovens de baixo NSE. Entre as estratégias para reduzir barreiras em famílias de baixo NSE: informar os pais sobre fontes de financiamento existentes, ampliar financiamentos/subsídios e oferecer voluntariado em troca de mensalidades menores. Como a idade média de entrada nos esportes organizados vem caindo, as organizações precisam adequar calendários, conteúdo de jogos e treinos ao nível de desenvolvimento da criança. O modelo community youth development (CYD, desenvolvimento comunitário de jovens, centrado em pertencimento, maestria e generosidade) foi proposto para ampliar os benefícios; o programa Play it Smart, que transfere habilidades do esporte para vida acadêmica, relacionamentos e prontidão para o trabalho, mostrou efeito acadêmico positivo.
Benefícios — aquisição de habilidades e desempenho acadêmico
Muitas crianças não aprendem naturalmente as habilidades motoras fundamentais, e estudantes de minorias de baixa renda podem correr risco particular de iniciar o pré-escolar com essas habilidades atrasadas. Meninos em esportes organizados demonstraram melhor coordenação óculo-manual que não participantes (correlação mais fraca nas meninas), e a atividade física organizada parece ter efeito maior sobre a proficiência em habilidades motoras fundamentais do que a atividade não organizada. Jovens de 12 a 15 anos em treino de futebol tiveram ganhos associados de força no leg press e velocidade no shuttle run.
No campo acadêmico, atletas de elite tendem a ter alto desempenho escolar; a prática esportiva associou-se a melhor desempenho em matemática, e atividade física extracurricular organizada correlaciona-se positivamente com desempenho cognitivo nos domínios verbal, numérico e de raciocínio. Atletas de elite relatam maior uso de habilidades autorregulatórias (planejamento, automonitoramento, avaliação, reflexão e esforço); e atletas podem usar o tempo livre com mais eficiência que o adolescente típico e dedicam mais tempo às tarefas de casa. Esses atributos plausivelmente contribuem para o sucesso acadêmico e as maiores taxas de graduação relatadas em atletas, além da associação com planos de cursar faculdade e maior percentual de ingresso no ensino superior.
Benefícios — habilidades de vida e dimensão social
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