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Parecer de Consenso do COI: Recomendações e Regulamentos para Eventos Esportivos em Calor

Sobre este resumo

Este texto é um resumo do IOC consensus statement on recommendations and regulations for sport events in the heat, publicado pelo Comitê Olímpico Internacional (IOC) em 2023, no periódico Br J Sports Med.

Introdução

O documento é um posicionamento de consenso desenvolvido pela Comissão Médica e Científica do IOC junto a várias federações internacionais (IF), reunindo recomendações para proteger atletas que competem no calor. Foi publicado no Br J Sports Med em 2023 (volume 57, páginas 8–25), aceito em 4 de setembro de 2022 e publicado online em 23 de setembro de 2022. O artigo é de acesso aberto sob licença Creative Commons Attribution Non Commercial (CC BY-NC 4.0), que permite distribuir, remixar, adaptar e desenvolver a obra sem fins comerciais.

Durante o exercício, as contrações musculares produzem grande quantidade de calor; se o ambiente permitir dissipação pela superfície da pele (convecção, radiação e evaporação do suor) que contrabalanceie a produção metabólica, a temperatura central atinge um platô, frequentemente em torno de ~38,5–39°C, dependendo da intensidade do exercício. Quando a dissipação é limitada por calor/umidade ambiental ou por vestimenta e equipamento de proteção, o estresse térmico adiciona sobrecarga cardiovascular, com redução da intensidade de exercício absoluto autosselecionada. Atletas bem treinados podem atingir transientemente temperaturas centrais acima de 40°C (e até 41°C) competindo intensamente no calor e, na maioria, permanecem saudáveis e assintomáticos. Ainda assim, o calor é responsável por mais mortes do que todos os outros desastres naturais combinados, e a doença grave induzida pelo exercício — o golpe de calor por esforço (exertional heat stroke, EHS) — é uma das duas principais causas de morte em atletas. O nível de estresse térmico ambiental vivido por atletas de elite tende a aumentar pelas ondas de calor associadas à mudança climática e pela globalização do esporte, que leva a mais competições em climas extremamente quentes.

Métodos

As recomendações foram estabelecidas pelo método Delphi, com contribuições de várias IF e de especialistas clínicos e acadêmicos, e incorporam a experiência dos Jogos Olímpicos de Verão de 2020 em Tóquio e do Mundial de Atletismo de 2019. O IOC criou em agosto de 2018 o “IOC Adverse Weather Impact Expert Working Group for the Olympic Games Tokyo 2020”, com 11 membros, que trabalhou por 3 anos antes dos Jogos; sete IF foram convidadas à reunião de consenso final em setembro de 2021.

No processo Delphi, cada recomendação foi primeiro revisada por ao menos dois membros e depois avaliada online (Qualtrics) por todo o grupo quanto a validade, viabilidade e clareza, em escala Likert de 1–9; recomendações com média <4 foram descartadas, as com escore ≥7 foram retidas e as intermediárias revisadas antes da segunda rodada. Após a primeira rodada, 12 recomendações receberam escore entre 5,9 e 7 em ao menos uma categoria; dessas, oito passaram a pontuar acima de 7 em todas as categorias após emenda e quatro atingiram 6,8 ou 6,9 em uma categoria, sendo posteriormente emendadas e validadas pelos dois autores principais. Uma recomendação foi adicionada após o Delphi para cobrir uma lacuna identificada na escrita. As recomendações foram agrupadas em três categorias por população-alvo: (1) organizadores do evento, (2) atleta e sua equipe de apoio (entourage) e (3) serviços médicos; a Seção 4, sobre desenvolvimento de políticas de calor pelas IF, é informada por especialistas e não baseada em literatura. O documento ressalva que algumas recomendações exigem logística disponível apenas em eventos internacionais/elite, mas aconselha que todos os atletas e organizadores apliquem o máximo possível.

Resultados

Seção 1 — Recomendações para os organizadores

Monitoramento ambiental. Para que IF/IOC aceitem uma candidatura e para que atletas se preparem, deve-se ter acesso ao histórico meteorológico do local; as medições devem ser representativas do campo de jogo (field of play, FoP), a aproximadamente 1,2–1,5 m acima da superfície (ou a 40 cm de profundidade para temperatura da água), com instrumentos em posição fixa (ex.: tripé, não de mão — handheld). Recomendações formais (não graduadas): os dados históricos de clima da cidade/região (ao menos temperatura e umidade) devem ser fornecidos na candidatura cobrindo ao menos os 10 anos anteriores; e, se o histórico sugerir risco de calor extremo, os parâmetros ambientais usados pelas IF (ex.: WBGT) devem ser monitorados continuamente no FoP (ex.: ao menos um valor por hora) todos os anos do período da competição, desde o sucesso da candidatura até e durante toda a competição; como a viabilidade dessa recomendação depende de vários fatores, ela pode ser adaptada mantendo-se a sua essência (ex.: se o FoP ainda não foi construído, as medições podem ser feitas em local próximo ou de entorno semelhante). Para o WBGT, a fonte detalha que são necessários medida real de temperatura de bulbo úmido natural, termômetro de bulbo seco sombreado com ar ambiente aspirado mecanicamente e globo negro de 15 cm de diâmetro; embora a maioria dos aparelhos portáteis não atenda a essas especificações (sem ar aspirado, globo menor), recomenda-se aparelho classificado em categoria 1 (globo negro + sensor de temperatura de bulbo úmido natural) ou categoria 2 (globo negro + sensor de umidade) pelo instituto japonês de segurança e saúde ocupacional, com acurácia de ±2°C. Dispositivos portáteis guardados à sombra entre medições geraram erro de 2°C em relação ao aparelho estacionário. Não há limite/regulamento comum baseado em WBGT entre as IF, embora decisões de modificação de evento baseadas em WBGT tenham se mostrado eficazes para reduzir o risco de doença por calor.

Suprimento de gelo. O gelo é usado em vários momentos e formatos (imersão em água fria — cold water immersion, CWI; toalhas e meias de gelo; gelo triturado e em cubos); um único banho de gelo médico requer 30–35 kg de gelo inicialmente, mais reposição contínua para manter a água entre 5°C e 15°C. Em Tóquio 2020, foram >22 toneladas de gelo nas arenas, até 2.200 kg/dia só para a policlínica da Vila Olímpica, com cada máquina de gelo produzindo 1.200 kg de gelo em cubos por 24 h, e 42 toneladas de gelo em cubos na abertura da Vila. Recomendações (não graduadas): reconhecer e contabilizar a demanda de gelo de todos os envolvidos para evitar falta em caso de problemas por calor; e pré-planejar fornecedor, transporte em cadeia fria e mobilização de recursos, com o coordenador da arena autorizado (inclusive financeiramente e em segurança) a acionar o plano a pedido do médico da arena.

Remoção de barreiras à hidratação e ao resfriamento em competição. Várias IF já alteraram regras (“políticas de calor”): a FIFA permite pausa de hidratação/resfriamento após 30 min de jogo em cada tempo; a Federação Internacional de Tênis permite 30 s adicionais em cada troca de lado e pausa de 10 min após o segundo set; a UCI permite um abastecimento por carro no contrarrelógio; a World Athletics permite mesa de refrescos na pista nas provas de 5.000 m e 10 000 m; e o World Triathlon aumentou o número de postos de hidratação com distância máxima de 1,25 km entre eles. Embora se possa argumentar que o atleta não precise de acesso a mais de ~1 L/hora de fluidos, dado o esvaziamento gástrico limitado, os postos também sustentam estratégias de resfriamento durante o evento — no Mundial de Atletismo de 2019, 93% dos atletas usaram alguma estratégia de resfriamento durante a prova, principalmente duchamento de cabeça/rosto (65%) e ingestão de água fria (52%). Nesse bloco a fonte também recomenda (não graduada) planejar espaço, energia, suprimento de gelo e autorização de segurança para instalação de dispositivos de resfriamento (ex.: freezer, máquina de slushy de gelo): atletas costumam usar coletes de gelo no pré-resfriamento, tecnologia que exige material de mudança de fase mantido congelado, e medidas de segurança podem impedir uma equipe de instalar um freezer na zona segura de competição após a varredura — daí ser essencial que equipes nacionais e IF acordem previamente com o comitê organizador local (LOC) as mudanças estruturais necessárias; já preferências pessoais (ex.: produtos específicos de hidratação e resfriamento) não são responsabilidade do LOC. Recomendações (não graduadas): considerar adaptar o FoP e/ou as regras para permitir acesso a fluidos em competição e a intervenções de resfriamento, como tempo adicional de pausa em esportes coletivos/de raquete e sombra em áreas de espera e aquecimento.

Adaptar distâncias e durações. Encurtar o evento não necessariamente reduz o risco: em Tel Aviv 2013, a maratona foi cancelada por onda de calor, mas a meia-maratona foi mantida, resultando em uma morte e 20 hospitalizações; ciclistas de elite atingiram temperatura central maior num contrarrelógio de 40–45 min do que numa prova de estrada de horas; e a prova de rua de Falmouth, de apenas 7 milhas (11 km), é notória pela alta taxa de EHS. Recomendações (não graduadas): uma mudança precipitada do local da linha de chegada não é recomendada, salvo se integrada ao planejamento, testada (ex.: evento-teste) e aprovada pelo médico-chefe, comitê organizador e IF; a redução da duração pode ser considerada se reduzir substancialmente os riscos do calor sem aumentar o risco associado à intensidade do exercício nem alterar o nível de atendimento (o encurtamento é tecnicamente possível em alguns esportes — a corrida do evento-teste olímpico do triatlo feminino foi reduzida de 10 km para 5 km em 2019 — mas não em outros, como a linha de chegada do ciclismo, que exige tempo para ser projetada, protegida e instalada); e, em esportes que permitem pausas, os intervalos podem ser usados para resfriamento ativo, como toalhas de gelo. Pausas curtas isoladas (90–180 s) têm efeito de resfriamento limitado sem deslocamento a ambiente mais frio, mas permitem resfriamento ativo; no futebol (pausas de 3 min após 30 min de cada tempo) e no tênis (90 s após cada game ímpar e 120 s ao fim de cada set), estratégias nos intervalos atenuaram a elevação da temperatura central, e prolongar o intervalo em 5 min no futebol e 8 min no rugby permitiu maiores reduções.

Névoa (misting). Ventiladores com névoa podem reduzir a temperatura ambiente de 1°C a 12°C conforme desenho e condições; o resfriamento ótimo parece ocorrer com ar >30°C, umidade relativa <70% e vento <3 m/s. Recomendações (não graduadas): podem ser apropriados para produzir efeito de resfriamento em aglomerações e espectadores, especialmente em alta temperatura com baixa umidade e movimento de ar (ex.: filas de espera) — redação ambígua da fonte, já que vento forte dispersa as gotículas e reduz a eficácia — e podem servir em áreas de aquecimento ou de pausa durante o jogo em esportes de raquete/coletivos, posicionados de modo que o atleta escolha usá-los ou não. Em espaços fechados mal ventilados, a névoa pode aumentar a umidade ambiente e paradoxalmente piorar o estresse térmico.

Superfícies e sombreamento. A eficácia de materiais de superfície de alto albedo/refletivos para atletas em exercício é inconclusiva — os estudos focaram conforto térmico de pedestres (recomendação formal, não graduada); a fonte pede ainda considerar os efeitos da menor velocidade do vento causada por edifícios ao redor e arquibancadas de espectadores sobre a dissipação de calor. A radiação solar direta eleva muito o estresse térmico: a temperatura de globo negro costuma ficar 10–15°C acima da temperatura ambiente à sombra em dia claro de verão. A cobertura de sombra deve ser suficiente para o número de atletas no FoP da modalidade, permitir ventilação natural pelos ventos predominantes de qualquer direção para maximizar a convecção e, preferencialmente, ser construída com material refletivo. Recomendações (não graduadas): embora o sombreamento nem sempre seja possível no FoP, as áreas de preparação (ex.: área de armação na vela), recuperação (entre ou após eventos) e pós-evento (ex.: zona mista) devem oferecer sombra aos atletas; sombra também deve ser dada a oficiais, staff e voluntários no FoP — se impossível, organizar rodízio de turnos.

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