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Exercício e Atividade Física na Prevenção e Tratamento de Aterosclerose Cardiovascular

Sobre este resumo

Este texto é um resumo da declaração científica Exercise and Physical Activity in the Prevention and Treatment of Atherosclerotic Cardiovascular Disease, publicada pela American Heart Association (AHA) em junho de 2003, no periódico Circulation.

Introdução

A atividade física regular que usa grandes grupos musculares, como caminhar, correr ou nadar, produz adaptações cardiovasculares que aumentam a capacidade de exercício, a resistência e a força da musculatura esquelética. A atividade física habitual também previne o desenvolvimento de doença arterial coronariana (DAC) e reduz sintomas em pacientes com doença cardiovascular estabelecida. Há ainda evidência de que o exercício reduz o risco de outras doenças crônicas, incluindo diabetes tipo 2, osteoporose, obesidade, depressão e câncer de mama e de cólon.

Esta declaração científica da American Heart Association (AHA), endossada pelo American College of Sports Medicine, resume para profissionais de saúde a evidência dos benefícios da atividade física na prevenção e no tratamento da doença cardiovascular, oferece sugestões para implementar programas de atividade física e identifica áreas para investigação futura. O documento concentra-se na atividade física aeróbica e não avalia diretamente exercícios resistidos, como a musculação, porque a maior parte da pesquisa que relaciona atividade física e doença cardiovascular avaliou atividade aeróbica.

O documento define atividade física como qualquer movimento corporal produzido pelos músculos esqueléticos que resulta em gasto energético acima do repouso. Exercício é um subconjunto da atividade física: planejado, estruturado, repetitivo e com o objetivo de melhorar ou manter a aptidão física, que inclui aptidão cardiorrespiratória, força muscular, composição corporal e flexibilidade.

Ao quantificar atividade física, o documento distingue dose (quantidade total de energia gasta) e intensidade (taxa de gasto energético). A intensidade absoluta é expressa em equivalentes metabólicos (METs), em que 1 MET corresponde à taxa metabólica de repouso; a intensidade relativa é expressa como porcentagem da frequência cardíaca máxima ou do VO2máx. Atividades de intensidade moderada são as realizadas a 40% a 60% do VO2máx (ou 4 a 6 METs absolutos); as vigorosas, a ≥60% do VO2máx (ou ≥6 METs). Como referência, uma caminhada rápida a 4,8 km/h (3 milhas/h) tem intensidade absoluta de cerca de 4 METs: leve para uma pessoa saudável de 20 anos, mas vigorosa para uma de 80.

Métodos

Trata-se de uma declaração científica (scientific statement) da AHA, produzida pelos Conselhos de Cardiologia Clínica e de Nutrição, Atividade Física e Metabolismo. Sempre que possível, o grupo redator citou artigos de revisão ou metanálises para sustentar conclusões e recomendações. A declaração foi aprovada pelo Comitê Consultivo e de Coordenação Científica da AHA em fevereiro de 2003 e recebeu endosso do American College of Sports Medicine.

Resultados

Prevenção da doença vascular aterosclerótica. Estudos epidemiológicos prospectivos de atividade física ocupacional e de lazer documentaram de forma consistente menor incidência de eventos de DAC nos indivíduos mais ativos e mais aptos. Os sujeitos mais ativos apresentaram, em geral, taxas de DAC pela metade das do grupo mais sedentário, com relação graduada de redução dos eventos conforme aumenta o nível de atividade. Combinados à plausibilidade biológica, os autores consideram a evidência conclusiva de que a atividade física reduz a incidência de DAC. O Harvard Alumni Study sugere que a atividade atlética universitária não protege nos anos seguintes sem atividade física ao longo da vida.

Fatores de risco ateroscleróticos. A atividade física previne e ajuda a tratar pressão arterial elevada, resistência insulínica e intolerância à glicose, triglicerídeos elevados, HDL-C baixo e obesidade. Associada à redução de peso, pode diminuir o LDL-C e limitar a queda de HDL-C que costuma acompanhar a redução de gordura saturada na dieta. Em geral, o efeito do exercício sobre os fatores de risco é substancialmente menor que o das terapias farmacológicas, mas pode ser ampliado por outras mudanças de estilo de vida.

Lipídeos. Uma metanálise de 52 estudos de treinamento físico com pelo menos 12 semanas e 4.700 participantes mostrou aumento médio de 4,6% no HDL-C e reduções de 3,7% nos triglicerídeos e de 5,0% no LDL-C. No estudo HERITAGE (675 indivíduos normolipidêmicos, 5 meses de treinamento), o HDL-C aumentou 1,1 mg/dL (3%) nos 299 homens e 1,4 mg/dL (3%) nas 376 mulheres; nos homens, triglicerídeos e LDL-C caíram 5,9 e 0,9 mg/dL (2,7% e 0,8%), e nas mulheres 0,6 e 4,4 mg/dL (0,6% e 4%). Aumentos maiores de HDL-C podem ocorrer em indivíduos com hipertrigliceridemia basal.

Pressão arterial. Ao menos 44 ensaios randomizados com 2.674 participantes avaliaram treinamento físico e pressão arterial de repouso: redução média de 3,4 mmHg na sistólica e 2,4 mmHg na diastólica. Em normotensos, a queda foi de 2,6 e 1,8 mmHg; em hipertensos, de 7,4 e 5,8 mmHg, sugerindo que o exercício pode ser a única terapia necessária em alguns hipertensos leves. Não houve relação entre frequência semanal, tempo por sessão ou intensidade e a magnitude da redução, o que sugere curva dose-resposta plana para pressão arterial.

Diabetes e peso. Revisão de 9 estudos em 337 pacientes com diabetes tipo II mostrou redução média de 0,5% a 1% na HbA1c. No Diabetes Prevention Program, a intervenção de estilo de vida (perda média de 4 kg e aumento de 8 MET-h/semana de atividade, equivalente a cerca de 593 kcal semanais) reduziu em 58% o início do diabetes tipo II em 2,8 anos versus cuidado habitual, em indivíduos de alto risco para essa doença; efeito significativamente maior que o da metformina (850 mg 2x/dia), que reduziu 31%.

Manutenção de peso e tabagismo. No National Weight Control Registry (3.000 pessoas que perderam pelo menos 10% do peso e mantiveram por pelo menos 1 ano), a perda média de 30 kg foi mantida por 5,5 anos; oitenta e um por cento dos inscritos relataram aumento de atividade física, com gasto médio de 2.445 kcal/semana nas mulheres e 3.298 kcal/semana nos homens. Em um ensaio com 281 mulheres saudáveis, o programa de modificação comportamental com exercício vigoroso supervisionado obteve abstinência contínua de tabaco por pelo menos 2 meses em 19,4% versus 10,2% no controle; aos 12 meses, 11,9% versus 5,4%; resultados preliminares que sugerem que a atividade física facilita a cessação de tabagismo a longo prazo.

Parte do efeito sobre os fatores de risco é aguda: exercício vigoroso reduz triglicerídeos por até 72 horas, aumenta HDL-C transitariamente e reduz a pressão sistólica por até 12 horas, além de efeitos agudos favoráveis na homeostase da glicose.

Reabilitação cardíaca após evento coronariano. A metanálise mais recente reuniu 51 ensaios randomizados de reabilitação cardíaca baseada em exercício, todos publicados antes de 1º de janeiro de 1999, com 8.440 pacientes, predominantemente homens de meia-idade e baixo risco (infarto prévio, revascularização cirúrgica ou angioplastia, angina ou DAC angiográfica), com treinamento supervisionado de 2 a 6 meses e seguimento médio de 2,4 anos. A mortalidade total caiu 27% (P<0,05) com a intervenção de apenas exercício e 13% (não significativo) com a reabilitação abrangente; a mortalidade cardíaca caiu 31% e 26%, respectivamente, ambos significativos. Nenhuma das duas estratégias reduziu significativamente o infarto não fatal, e as taxas de morte súbita não foram reduzidas, embora apenas 4 ensaios de exercício isolado e 14 de reabilitação abrangente tenham analisado esse desfecho. Diferentemente das análises anteriores, esses resultados sugerem que o componente exercício é um aspecto crítico do processo de reabilitação. Os autores levantam a hipótese de que o exercício melhore a estabilidade elétrica e reduza a fibrilação ventricular ou o dano miocárdico via pré-condicionamento isquêmico.

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