Introdução
Este relatório clínico do Conselho de Medicina do Esporte e Condicionamento Físico (Council on Sports Medicine and Fitness) da American Academy of Pediatrics (AAP), de autoria de Chris G. Koutures e Andrew J. M. Gregory, foi publicado online em 25 de janeiro de 2010 no periódico Pediatrics (edição impressa: Pediatrics 2010;125:410–414). O documento orienta o pediatra na avaliação e prevenção de lesões no futebol infantojuvenil e declara, já na primeira página do artigo, que sua orientação não indica curso exclusivo de tratamento nem padrão de cuidado, admitindo variações conforme as circunstâncias individuais. No resumo, os autores destacam que as taxas de lesão no futebol juvenil são maiores que em muitos outros esportes de contato/colisão, com números relativos maiores em jogadores mais jovens e pré-adolescentes, e que as concussões são bastante prevalentes no futebol como resultado de contato/colisão, e não de tentativas intencionais de cabeceio. O relatório se propõe a servir de base para encorajar a participação segura de crianças e adolescentes no futebol.
O futebol é um dos esportes coletivos mais populares do mundo: nos Estados Unidos, estimava-se 15,5 milhões de praticantes, com duas organizações nacionais de base somando 650 mil e 3,2 milhões de registrados menores de 19 anos, e mais de 700 mil meninas e meninos jogando no ensino médio em 2008–2009; entre 2001 e 2007 houve aumento de 7% nas jogadoras adolescentes. Com o crescimento da participação veio maior número de lesões e aumento da prevalência de casos relacionados ao futebol no consultório pediátrico.
Métodos
Trata-se de um relatório clínico de síntese narrativa da literatura, sem metodologia explícita de busca sistemática nem graduação formal de força/certeza das recomendações. As orientações finais aparecem na seção "Conclusions and guidance for clinicians", em sete itens numerados, todos sem grau de recomendação declarado; o próprio documento informa que a orientação sobre cabeceio se baseia em consenso de opinião do comitê executivo, por ausência — à época — de evidência válida. O relatório usa dados de vigilância da US Consumer Product Safety Commission (CPSC), por meio do National Electronic Injury Surveillance System, e reconhece grande variação na incidência reportada entre estudos, por diferenças de nível de competição, intensidade de exposição, definição, classificação e notificação das lesões — tendo sido propostas definições e metodologia padronizadas para resultados comparáveis no futuro.
Resultados
Risco de lesão e epidemiologia
O futebol juvenil apresenta taxa de lesões maior que a de muitos esportes de contato/colisão, como hóquei em campo, rúgbi, basquete e futebol americano — embora um estudo comunitário em jogadores de 7 a 13 anos tenha encontrado no futebol americano maior percentual de lesões graves e maior frequência por equipe por temporada. A CPSC estimou 186.544 lesões relacionadas ao futebol em 2006; cerca de 80% ocorreram em participantes menores de 24 anos e aproximadamente 44% em menores de 15 anos. Participantes menores de 15 anos tendem a ter maior risco relativo de lesão e maior prevalência em comparação aos mais velhos; segundo o National Electronic Injury Surveillance System, as lesões por futebol entre jovens atletas nos Estados Unidos ocorrem em pico de 2 lesões por 1.000 participantes e, para jogadores acima de 12 anos, foram reportadas taxas de 4 a 7,6 lesões por 1.000 jogador-horas. Ao longo de uma temporada, equipes femininas e masculinas podem esperar 4,0 e 3,5 lesões por temporada, respectivamente, e o risco de lesão é maior durante competições do que em treinos. Ter sofrido lesão no ano anterior confere risco relativo de 1,74 para nova lesão, mas não há achados consistentes que vinculem maior risco a alguma posição em campo. A literatura diverge sobre a prevalência geral entre os sexos: alguns autores reportaram taxas gerais semelhantes entre meninos e meninas, enquanto outros encontraram maior prevalência em jogadoras — com maior risco de ruptura do ligamento cruzado anterior (LCA) e de concussões nas meninas e maior probabilidade de se lesionarem em treinos, ao passo que os meninos apresentam maior risco relativo de lesão durante competições.
Ambiente, campo e calçado
Ambientes de futebol de quadra e de campo têm risco relativo de lesão semelhante, mas lesões de joelho são mais prevalentes no futebol de campo. O monitoramento apropriado das condições do campo — em especial buracos e irregularidades — pode reduzir lesões de membros inferiores: superfícies irregulares causam sobrecarga de ligamentos e músculos e contribuem para aterrissagens inadequadas, e calçados impróprios podem gerar força de atrito excessiva ou insuficiente. A apofisite calcânea (doença de Sever) é lesão de sobrecarga comum em jogadores com esqueleto imaturo, sobretudo no pico de velocidade de crescimento, atribuída em parte ao jogo em campos duros com chuteiras de apoio insuficiente de calcanhar/arco.
Tipos de lesões
O futebol é classificado como esporte de contato/colisão de intensidade alta a moderada; a maioria das lesões decorre de contato jogador-jogador ou jogador-solo/bola/trave, e não de sobrecarga — os contatos ocorrem principalmente ao disputar a bola, ser desarmado ou cabecear com adversários bloqueando a jogada; os mecanismos sem contato incluem correr, girar, chutar e aterrissar. Na sequência, o mesmo trecho afirma que as lesões dos membros inferiores são as mais comuns, com a maioria resultante de contato não corporal (nonbody contact) — ambiguidade interna comentada na seção de limitações. A maioria das lesões é classificada como leve, exigindo apenas primeiros socorros básicos ou ausência máxima de 1 semana do futebol. Tornozelo responde por 16% a 29% das lesões (mais frequente em meninos) e joelho por 7% a 36% dos jogadores lesionados (mais frequente em meninas); perna (5%–6%), coxa (9%–22%) e virilha/tronco (5%) são menos afetados. Contusões e entorses/distensões dos membros inferiores são os tipos de lesão mais comuns; no pronto-socorro, entorses e distensões são mais vistas que contusões/abrasões ou fraturas, e fraturas representam menos de 10% das lesões.
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