Introdução
A pesquisa biomédica historicamente tratou o homem como padrão e negligenciou as diferenças de sexo: o documento cita um estudo sobre prevenção de doença cardiovascular que recrutou 8341 homens e nenhuma mulher, e o MRFIT, que investigou dieta e exercício com 13000 homens, também sem mulheres. O estudo do ciclo menstrual ligado ao desempenho esportivo começou de fato em 1953 e, desde então, cerca de 400 estudos foram publicados, mas os resultados obtidos em homens continuam sendo generalizados para mulheres. O objetivo deste position stand é revisar essa pesquisa e oferecer recomendações práticas de nutrição esportiva específicas para mulheres, baseadas em evidência.
O documento distingue os conceitos de sexo e gênero: sexo refere-se à distinção entre mulheres e homens com base em diferenças cromossômicas, características sexuais primárias e secundárias e perfis hormonais endógenos, e é a esse recorte que a discussão sobre nutrição se restringe. Os principais hormônios sexuais femininos são o 17β-estradiol (E2) e a progesterona; a progesterona tem ação catabólica, aumentando a oxidação de aminoácidos e diminuindo a síntese de proteína muscular.
Os perfis hormonais de uma atleta em idade reprodutiva variam de amenorreia (ausência de ciclo menstrual) a oligomenorreia (ciclo maior que 40 dias, ou seja, menos de 9 ciclos por ano) e ciclos naturais de 21 a 40 dias, que podem ser ovulatórios (eumenorreia) ou anovulatórios. Na mulher eumenorréica, o ciclo é dividido nas fases folicular inicial, folicular média, folicular tardia, ovulação, lútea inicial, lútea média e lútea tardia.
Os contraceptivos hormonais (HC) contêm derivados de estrogênio e progestogênio que suprimem a atividade cíclica do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, com respostas fisiológicas diferentes das dos hormônios ovarianos endógenos. No contraceptivo oral combinado (COC), o ciclo de 28 dias consiste em 21 dias de ingestão de doses constantes seguidos de pausa de 7 dias que induz um sangramento de privação, muitas vezes confundido com menstruação verdadeira; existem formulações monofásicas e multifásicas, e a geração, o tipo e a dose do progestogênio determinam sua potência e androgenicidade. Já os dispositivos intrauterinos (DIU) de progestina e de cobre não inibem a ovulação, e a progestina local do DIU tem efeitos metabólicos distintos da do COC, sem alterações de composição corporal. Na transição menopáusica, a maior parte das mudanças de composição corporal ocorre nos quatro a cinco anos que antecedem a menopausa (definida como 12 meses sem menstruação).
Métodos
Os position stands da ISSN são artigos convidados sobre temas de interesse dos leitores do JISSN. Um autor principal ou equipe realiza uma revisão ampla da literatura; neste documento, o desenho científico dos estudos foi examinado quanto à validade científica como parte dos critérios de inclusão. O rascunho foi enviado a pesquisadores de destaque da área para revisão detalhada, revisado pela equipe de autores, aprovado pelo Comitê de Pesquisa da ISSN e pelos editores do JISSN e publicado como consenso e posição oficial da sociedade, em acesso aberto sob a licença Creative Commons Attribution-NonCommercial. Os autores declararam não haver conflito de interesses nem financiamento associado ao trabalho.
Resultados
Energia e disponibilidade energética
A disponibilidade energética (EA) é definida como a ingestão energética (EI) menos o gasto energético com exercício (EEE), corrigida pela massa livre de gordura (FFM) em relação à massa corporal total. Hormônios sexuais modulam a ingestão: no final da fase folicular, com estrogênio alto e progesterona baixa, a taxa metabólica de repouso e a ingestão são mínimas; na fase lútea média ambas sobem, e estima-se que a ingestão energética livre aumente cerca de 300 kcal/dia na fase lútea em mulheres recreacionalmente ativas.
A baixa disponibilidade energética (LEA) é a etiologia subjacente da deficiência energética relativa no esporte (RED-S) e ocorre quando a ingestão é menor que o gasto com exercício; suas consequências incluem disfunção reprodutiva e prejuízos às funções esquelética, cardiovascular, gastrointestinal, endócrina e neurológica. Em déficits energéticos induzidos por exercício sem compensação, mulheres com ciclo natural apresentam grelina acilada mais alta e insulina mais baixa (ambos estímulos à ingestão), padrão não observado em homens; quando o déficit é compensado, esse padrão é atenuado, mas persiste. O déficit energético também reprime o gene KISS1, com consequente repressão dos neurônios de GnRH e do eixo reprodutivo.
Como pontos de corte, o documento indica que uma EA de pelo menos 45 kcal·kg−1 FFM·dia−1 parece ser o limiar para funções fisiológicas e manutenção da massa corporal em atletas, e que valores acima de 45 permitem ganho de peso e hipertrofia; já a EA de 30 kcal·kg−1 FFM·dia−1 é o limiar em e abaixo do qual se observam supressão de hormônios metabólicos e redução da pulsatilidade do LH após apenas 5 dias em mulheres saudáveis. São os períodos intra-dia de baixa ingestão ao longo das 24 horas, e não apenas o valor diário total, que se associam a índices negativos de saúde e composição corporal, mesmo com EA diária ótima.
Nas recomendações-chave de energia (seção 4.3, força/certeza não graduadas): a consideração primária é manter uma EA que atenda às demandas individuais de treino e desempenho, independentemente do status hormonal; atletas eumenorréicas podem considerar aumentar a ingestão energética de 24 h na fase lútea; o uso de COC pode mascarar sinais precoces de LEA; a atenção ao timing de nutrientes em relação ao exercício pode reduzir o tempo em estado catabólico; déficits calóricos planejados exigem compreensão das repercussões neuroendócrinas da baixa densidade nutricional; e o monitoramento de biomarcadores entre blocos de treino e temporadas ajuda a avaliar o equilíbrio treino-recuperação-desempenho.
Carboidrato e metabolismo de substrato
O 17β-estradiol promove lipólise e aumenta a disponibilidade de ácidos graxos, reduzindo a gliconeogênese com poupa de glicogênio muscular e hepático; a progesterona regula a translocação de GLUT-4 e GLUT-1 para estocar glicogênio no tecido endometrial e aumenta o catabolismo proteico, sobretudo na fase lútea. Mulheres eumenorréicas oxidam proporcionalmente menos carboidrato, mais lipídios e menos leucina que homens, em repouso e em exercício de intensidade baixa a moderadamente alta. Na fase lútea, quando a demanda do exercício pressiona a produção endógena de glicose (acima de 50% do VO2max), observam-se menores taxas de aparecimento e desaparecimento de glicose e menor utilização total de glicogênio em comparação à fase folicular.
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