Introdução
O atletismo (track and field) reúne provas de corrida, marcha, saltos e arremessos, nas quais o sucesso depende de atributos fisiológicos, psicológicos e biomecânicos diversos. A IAAF reconhece disciplinas distintas: velocidade, meio-fundo/fundo, barreiras e revezamentos na pista; arremessos e saltos no campo; provas combinadas de heptatlo e decatlo; corridas de rua; marcha atlética; cross-country; e corridas de montanha e ultradistância. Neste documento, os termos Athletics e Athletes (com "A" maiúsculo) designam as disciplinas sob o guarda-chuva da IAAF e seus participantes.
A IAAF realizou o primeiro encontro sobre nutrição para o atletismo em Mônaco em 1995, com atualização em 2007, e ambos geraram declarações de consenso. Como o conhecimento e a prática da nutrição evoluem, a federação encomendou uma nova revisão do estado atual do conhecimento, das atitudes, das práticas e das oportunidades da nutrição esportiva aplicada às provas do atletismo. Este consenso resume os princípios contemporâneos da nutrição esportiva, com foco em atletas de alto rendimento, mas reconhecendo populações especiais (adolescentes, mulheres, masters) e a possibilidade de que competidores não elite, como maratonistas recreacionais, se beneficiem da tradução desses princípios.
Apesar da heterogeneidade das provas, os atletas de alto rendimento compartilham metas comuns — treinar forte com adaptação e recuperação ótimas, manter-se saudáveis e sem lesões, alcançar o físico adequado à prova e performar no melhor nível nos dias de competição —, desafios comuns, como equilibrar a ingestão com a vontade de manipular a composição corporal sem adoecer nem se lesionar, e cenários comuns, como viagens para longe do ambiente alimentar habitual.
Métodos
Trata-se de uma declaração de consenso (consensus statement) construída a partir de revisões encomendadas pela IAAF. Para fins deste resumo, as disciplinas foram divididas em cinco grupos de provas para revisão individual: velocidade; saltos/arremessos/provas combinadas; meio-fundo; fundo; e ultradistância/corrida de montanha — estratégia que busca equilíbrio pragmático entre eficiência e especificidade, reconhecendo a heterogeneidade dentro de cada grupo. Os achados dessas revisões estão sintetizados na Tabela 1 do documento.
As questões de cada grupo são expandidas por meio de 12 temas que compõem o arcabouço da nutrição para o atletismo, cada tema respaldado por uma revisão publicada no número especial do International Journal of Sport Nutrition and Exercise Metabolism. O consenso não gradua recomendações por classe ou nível de evidência: as orientações aparecem como recomendações narrativas e em cinco tabelas de estratégias. Um modelo teórico (Figura 1) ilustra considerações de periodização para três intervenções nutricionais comuns — carboidrato (CHO), proteína (PRO) e ferro — em relação aos determinantes de desempenho das provas; o texto do documento, porém, descreve a mesma figura em relação a quatro conceitos (combustível de CHO, proteína, suporte de micronutrientes e papéis dos suplementos), divergência registrada nas limitações.
Resultados
Tema 1 — Periodização das estratégias nutricionais no plano anual de treino
Periodização é conceito central do treinamento no atletismo: a carga de exercício (modo, frequência, intensidade e duração) é manipulada estrategicamente em sequência de ciclos para alcançar os atributos necessários ao sucesso nas competições escolhidas. A filosofia da nutrição periodizada é que cada sessão e cada micro, meso e macrociclo sejam analisados quanto às lacunas do atleta em relação aos atributos de sucesso da prova, com ingestão de nutrientes e estratégias dietéticas organizadas em torno disso; a diversidade de necessidades entre as provas torna possíveis muitos modelos de nutrição periodizada.
Um sub-tema em evolução é que estratégias usadas para um objetivo podem contradizer outro: o suporte proativo de nutrientes é importante para competições e sessões focadas em desempenho, mas a exposição deliberada ou acidental à ausência de suporte nutricional pode acentuar respostas adaptativas — exercício feito com baixa disponibilidade de CHO (em particular com estoques baixos de glicogênio muscular) amplifica vias de sinalização de adaptações, enquanto alta disponibilidade de CHO melhora o desempenho de exercício sustentado abaixo do chamado limiar anaeróbio. Integrar e sequenciar estratégias de adaptação e de desempenho é tarefa altamente individualizada, que deve envolver atleta, treinador e cientistas de nutrição, com ajustes contínuos conforme o retorno e a experiência.
Tabela 1 — Características, desafios e estratégias por grupo de provas
Velocidade (100 m, 100/110 m com barreiras, 200 m, 400 m, 400 m com barreiras, revezamentos 4×100 e 4×400): as demandas metabólicas do treinamento (múltiplas sessões diárias) superam muito as da competição, e a relação potência-peso deve ser otimizada, não maximizada — o documento observa que faltam dados morfológicos para orientação detalhada. Comparada a outras provas, a ingestão relativa de energia e macronutrientes é menor que em atletas de meio-fundo e fundo. As estratégias incluem foco na nutrição de treino, tempo estratégico de nutrientes antes, durante e depois do exercício, e alguma evidência para poucos suplementos (cafeína e creatina, mais beta-alanina e bicarbonato nas provas mais longas).
Saltos/arremessos/provas combinadas (salto em distância, triplo, em altura, com vara, arremesso de peso, martelo, dardo, disco; heptatlo e decatlo): os desafios incluem recuperação de treinos que causam dano muscular e fadiga neuromuscular substanciais, exigências energéticas muito variáveis entre fases de treino e competição e, nos combinados, o "trade-off" entre físico mais potente para velocidade/arremessos e massa corporal menor para saltos e meio-fundo. As estratégias incluem periodização de energia e macronutrientes ao longo do plano anual, uso apropriado de recursos ergogênicos como creatina, beta-alanina e/ou cafeína conforme prova e fase da temporada, composição corporal periodizada até o pico de relação potência-peso nas competições-chave e planejamento de nutrição e hidratação para dias de competição prolongados, muitas vezes sob sol e calor intensos.
Meio-fundo (800/1.500 m, 3.000 m com obstáculos, 5.000 m): a acidose metabólica elevada limita o desempenho; a relação potência-peso excepcional importa para a performance mantendo a saúde em esporte estruturalmente exigente (risco de fraturas por estresse); e 2–3 sessões de treino por dia somadas a 2–3 corridas em vários dias nas grandes competições exigem recuperação nutricional otimizada. As estratégias incluem periodização da nutrição conforme volume e intensidade, abordagem periodizada da composição corporal ao longo do plano anual para otimizar a relação potência-peso na temporada-alvo, rotinas otimizadas de recuperação nutricional e hídrica durante dias intensos de treino e períodos de competição, e o uso potencial de abordagens de tamponamento exógeno (bicarbonato de sódio) e endógeno (beta-alanina levando à carnosina).
Fundo (10.000 m, meia-maratona/maratona, marcha 20/50 km, cross-country): os tempos de prova da elite variam de cerca de 26 min a mais de 4 h, e os atletas de elite tipicamente atingem o pico para duas corridas por ano. O alto volume de treino exige suporte de energia e CHO, sobretudo nos treinos de qualidade; a alta relação potência-peso (baixa massa/gordura) associa-se ao sucesso, mas é fator de risco para baixa disponibilidade energética; e provas mais longas permitem ingestão de CHO e líquidos durante o evento, equilibrada com o tempo perdido nos postos de abastecimento e o risco de desconforto gastrointestinal. As estratégias incluem periodização de energia e CHO, periodização da composição corporal para equilibrar saúde e desempenho, armazenamento adequado de glicogênio pré-prova, ingestão de CHO durante a prova conforme a oportunidade, plano de hidratação individualizado e uso bem treinado de suplementos de desempenho baseados em evidência (ex.: cafeína).
Ultradistância e corrida de montanha (>maratona; autossuficiente, semissuportada ou com suporte total): distâncias muito maiores (~50–250 km) que nas demais provas, em intensidades menores e terrenos variados; grande dependência de gordura endógena, mas com necessidade constante de CHO exógeno. São provas de alto risco para sobrecarga hídrica e hiponatremia associada ao exercício, com alta prevalência de sintomas gastrointestinais e intolerância progressiva a comida e líquidos ao longo da distância; desafios adicionais incluem estabelecer a relação potência-peso ideal para as características específicas da prova e, em alguns formatos, a carga extra de carregar mochila de dia ou de autossuficiência. As estratégias incluem ingestão de líquidos ad libitum para proteção contra desidratação e sobre-hidratação, avaliação da tolerância gastrointestinal e prática da nutrição de corrida antes da competição ("treinar o intestino").
Tema 2 — Disponibilidade energética: saúde, desempenho e físico
A disponibilidade energética examina a energia que sobra para as funções do corpo não ligadas ao exercício depois de descontado o gasto com treino e competição; quando o gasto do treino já está comprometido, um déficit inicial leva a ajuste nas funções corporais, com impacto potencial em saúde e desempenho. A baixa disponibilidade energética (LEA) sustenta a Tríade da Atleta Feminina, mas a última década mostrou sua ocorrência em homens e efeitos em vários sistemas, o que originou o conceito de deficiência energética relativa no esporte (RED-S), com sequelas como amenorreia hipotalâmica funcional (mulheres), testosterona e libido reduzidas (homens), saúde óssea prejudicada, mais doenças e lesões, distúrbios gastrointestinais, doença cardiovascular e comprometimento hematológico, da capacidade de treino e do desempenho.
A LEA ocorre no atletismo: embora a maior prevalência pareça estar nas provas sensíveis ao peso (endurance e saltos), todos os atletas podem estar em risco por transtornos alimentares, programas equivocados de perda de peso ou falha inadvertida em reconhecer o gasto energético aumentado. Programas educativos preventivos e rastreamento são importantes para intervenção precoce; o tratamento é, em primeiro lugar, aumentar a disponibilidade energética e muitas vezes exige equipe com médico do esporte, nutricionista esportivo, fisiologista e psicólogo.
Tema 3 — Necessidades proteicas para adaptação e manipulação do físico (Tabela 2)
As recomendações diárias de proteína para a população geral, de 0,8–1 g/kg na maioria dos países, foram alvo de controvérsia por décadas quanto à adequação para atletas de alto nível; hoje há concordância de que esses valores, pensados para populações sedentárias, não se aplicam a atletas competitivos. A Tabela 2 do consenso traz seis recomendações baseadas na evidência disponível (recomendações não graduadas): (1) a ingestão diária ótima para atletas com peso estável excede a RDA de 0,8–1,0 g/kg/dia da população adulta geral; (2) para manutenção ou ganho de peso, a faixa ótima é de 1,3 a 1,7 g/kg/dia; (3) para atletas com meta de manutenção ou ganho de peso, a faixa ótima por refeição/porção é de 0,3 a 0,4 g/kg; (4) ingestões muito altas, acima de 2,5 g/kg/dia, não oferecem vantagem adaptativa; (5) para perda de peso de qualidade, a ingestão ótima excede 1,6 g/kg/dia e pode chegar a 2,4 g/kg/dia; e (6) atletas que consomem dieta rica em proteína (ex.: 2,4 g/kg/dia) durante a perda de peso não têm risco aumentado de problemas renais ou de saúde óssea — "perda de peso de qualidade" é definida como perda de massa gorda preservando, ou até aumentando, massa magra.
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