Introdução
Algumas doenças cardiovasculares relativamente incomuns, mas importantes, associam-se a risco aumentado de eventos cardíacos agudos durante o exercício, incluindo morte súbita: cardiomiopatia hipertrófica (HCM), cardiomiopatia dilatada (DCM), cardiomiopatia arritmogênica do ventrículo direito (ARVC) e mio-pericardite. O documento trata de um paradoxo que o médico enfrenta: o exercício regular é considerado terapêutico em várias doenças cardiovasculares, mas pode aumentar o risco nesses pacientes.
Métodos
Trata-se de um position paper promovido pela Seção de Cardiologia do Esporte da European Association of Cardiovascular Prevention and Rehabilitation. Seu objetivo é orientar médicos e cardiologistas consultores na avaliação e nas recomendações de treinamento e de participação esportiva segura em pacientes com doença cardiovascular. O documento segue recomendações previamente publicadas para hipertensão sistêmica e doença isquêmica do coração.
As recomendações baseiam-se em evidência científica publicada, quando disponível, e em experiência pessoal e consenso de especialistas. O próprio painel reconhece a escassez de investigações científicas sobre o efeito do exercício e do esporte na fisiopatologia e no curso clínico das cardiomiopatias e pede cautela na aplicação do documento, com aconselhamento individualizado.
Resultados
Avaliação diagnóstica na HCM: a maioria dos pacientes (75–95%) apresenta ECG anormal, e as alterações eletrocardiográficas costumam preceder a hipertrofia. Classicamente, a HCM é diagnosticada quando a espessura da parede do VE é ≥13 mm, podendo haver espessamento >30 mm. Entre os critérios adicionais, VO2max >50 ml/kg/min é mais compatível com coração de atleta, e o rastreamento familiar é obrigatório nos casos limítrofes. A ressonância magnética cardíaca é a melhor técnica de imagem para avaliar a extensão e a distribuição da hipertrofia, mas exige expertise e tem custo alto.
No diagnóstico diferencial com o coração de atleta, o documento compara pontos de corte morfológicos: a espessura máxima da parede do VE não excede 15–16 mm no atleta (não costuma exceder 12 mm em mulheres), enquanto o diagnóstico clássico de HCM usa ≥13 mm; a cavidade do VE alcança ≥55 mm no atleta, contra ≤45 mm na HCM; e a regressão da hipertrofia com o destreinamento está presente no atleta e ausente ou marginal na HCM.
Recomendações para esporte competitivo (Tabela 2 do documento): atletas com diagnóstico definitivo de HCM devem ser excluídos da maioria dos esportes competitivos. A possível exceção são os esportes de baixa intensidade (classe IA, ver Tabela 6 de classificação dos esportes) em casos individuais de baixo risco — pacientes assintomáticos, com hipertrofia apenas leve, sem arritmias complexas, resposta pressórica normal e sem morte súbita em familiares — após avaliação cardiovascular especializada e com seguimento anual. A recomendação independe de idade, sexo e fenótipo, e não difere para pacientes assintomáticos, sem obstrução de via de saída, ou já tratados com fármacos, cirurgia, ablação septal, marcapasso ou CDI. O implante de CDI não muda a recomendação. Para atletas genótipo-positivo/fenótipo-negativo, apenas atividades recreativas não competitivas, com seguimento anual. Atletas assintomáticos com alterações eletrocardiográficas isoladas sugestivas de HCM, mas sem anormalidade morfológica nem história familiar da doença, não devem ser restringidos do esporte competitivo, embora exijam controles clínicos e de imagem seriados.
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