Introdução
Em outubro de 2020, o International Olympic Committee (IOC) publicou uma declaração de consenso com recomendações atualizadas sobre métodos de registro e relato de dados epidemiológicos de lesões e doenças no esporte, aplicáveis a diferentes esportes e contextos. Como os autores da declaração reconheceram que aspectos adicionais precisam ser considerados em esportes específicos, já haviam sido publicadas extensões para tênis, ciclismo, golfe, artes circenses e futebol, além de três suplementos sobre saúde da atleta feminina, saúde mental e esporte paralímpico.
A Federação Internacional de Esqui e Snowboard (FIS) governa seis disciplinas olímpicas (esqui alpino, esqui cross-country, salto de esqui, combinado nórdico, esqui freestyle e snowboard) e também administra as disciplinas Para Alpine, Para Cross-Country e Para Snowboard, sendo reconhecida pelo Comitê Paralímpico Internacional; biatlo e esqui de montanha são regidos por outras federações (IBU e ISMF, respectivamente).
O objetivo do documento foi desenvolver uma extensão específica para esportes de neve (snow sports) da declaração do IOC, promovendo a harmonização dos métodos de registro de lesões e doenças entre atletas de todos os níveis e categorias nas disciplinas governadas pela FIS. Embora não tratados diretamente, espera-se que a extensão seja ao menos parcialmente aplicável a esportes de neve relacionados, como biatlo, esqui de montanha e paraesportes de neve.
A definição ampla de problema de saúde adotada justifica-se pelas taxas notavelmente altas de lesões leves de início súbito e de início gradual em algumas disciplinas de neve e pela ocorrência frequente de infecções respiratórias leves e de doenças respiratórias não infecciosas, como disfunção de vias aéreas inferiores, no esqui cross-country. Os autores destacam que isso é especialmente importante porque as lesões graves de início súbito têm sido o foco principal dos programas de vigilância de associações nacionais e internacionais de esqui alpino e snowboard.
Métodos
Trata-se de uma declaração de consenso. A Athlete Health Unit (AHU) da FIS encarregou o primeiro autor de conduzir a padronização internacional dos métodos de registro de lesões e doenças e de presidir o processo; o último autor (membro central da declaração do IOC e coautor de duas extensões esporte-específicas e de seu suplemento de saúde da atleta feminina) atuou como investigador sênior e supervisor do projeto. Foi selecionado um painel de consenso de 28 membros, composto por pesquisadores, funcionários de associações nacionais de esqui/snowboard, médicos e fisioterapeutas de equipe e ex-atletas de elite com experiência em vigilância de lesões e doenças na neve.
O painel foi descrito como equilibrado em sexo (12 mulheres e 15 homens), formação e nacionalidades líderes em esportes de neve. Os autores reconhecem que pessoas da Europa Central e Oriental, da Ásia, da Commonwealth e de países da América do Sul podem estar sub-representadas, mas atribuem isso à ausência desses países dos esportes de neve em geral, e não a viés de seleção do painel; entre as nações asiáticas líderes, Japão e China não foram representados, e não havia treinadores ativos no painel.
Para envolver a perspectiva do atleta, uma ex-atleta de nível mundial e representante da Comissão de Atletas do IOC, hoje médica, integrou o painel.
A revisão de evidências baseou-se na declaração do IOC, nas extensões esporte-específicas publicadas até então e nos três suplementos (saúde da atleta feminina, saúde mental e esporte paralímpico), além de revisões de literatura e publicações originais dos últimos 5 anos identificadas por busca no PubMed em 18 de agosto de 2022, com os termos alpine ski, cross-country ski, ski jump, freestyle ski e snowboard*, restritas a estudos do contexto esportivo competitivo. Seis referências adicionais foram fornecidas durante o processo (busca de 12 de julho de 2023) e outras quatro na etapa final (busca de 16 de maio de 2024). Dado o pequeno número de artigos relevantes, os autores decidiram não resumir sistematicamente a evidência.
O processo de consenso envolveu subgrupos temáticos (especificidades de contexto de aplicação, S-ACS; de nível, S-LS; tópicos abrangentes, S-OT; especificidades de disciplina, S-SDS; e de sexo, S-SS), que se reuniram em workshops virtuais. Após a síntese das contribuições, não houve mudanças substanciais no conteúdo das recomendações previamente acordadas; três rodadas de revisão (revisão dos líderes de subgrupo, revisão do painel 1 e revisão do painel 2) consistiram principalmente de feedback sobre a apresentação do conteúdo e a ilustração dos exemplos, além de correções formais, até que todos os autores aprovassem a versão final, aceita em 5 de outubro de 2024.
Resultados
Definição e classificação dos problemas de saúde
Para definir e classificar lesões e doenças, os autores consideram a declaração do IOC e seus suplementos de atleta feminina, saúde mental e esporte paralímpico integralmente aplicáveis ao contexto dos esportes de neve. Problema de saúde é qualquer condição que reduza o estado normal de saúde plena do atleta, independentemente de consequências para a participação ou o desempenho esportivo ou de busca por atendimento médico. Para as áreas de relação com a atividade esportiva, “múltiplos eventos e problemas de saúde” e “problemas subsequentes, recorrentes ou exacerbados”, não há necessidade de recomendações específicas para esportes de neve.
A vigilância deve abandonar a dicotomia simples agudo versus overuse e adotar um sistema mais refinado que descreva a apresentação (início súbito ou gradual) e o mecanismo subjacente (agudo ou repetitivo). A Tabela 2 traz exemplos por disciplina: lesão aguda de início súbito (ruptura do LCA em esquiador alpino após a borda do esqui prender na neve), lesão por mecanismo repetitivo com início súbito (fratura por estresse de fíbula em saltador; “shin-bang” em esquiador alpino) e início gradual repetitivo (dor lombar progressiva com alterações degenerativas em atleta de aerials; joelho do saltador; síndrome compartimental crônica por esforço em esquiador cross-country jovem). Entre as doenças, os exemplos são problemas gastrointestinais agudos (vômitos e diarreia após refeição em restaurante com higiene inadequada), broncoconstrição induzida por exercício em atleta de combinado nórdico e alergia a pólen conhecida, com olhos irritados, coriza e espirros episódicos de instalação gradual.
Para descrever a ocorrência da lesão, a Tabela 3 propõe descritores padronizados por disciplina (esqui alpino/snowboard e cross, freestyle, cross-country e salto de esqui), organizados em: gatilho inicial presumido (erros técnicos/táticos, condições de neve, equipamento, dificuldade do percurso, clima, velocidade, fadiga), dados gerais do acidente (data/local, condições ambientais, treino ou competição, subdisciplina, terreno, seção do percurso, número de dias consecutivos e de descidas no dia), situação de esqui/condução, comportamento do atleta (em equilíbrio, desequilibrado, queda, colisão), liberação adequada de fixação/airbag, uso de capacete/protetor e mecanismo classificado como contato direto, contato indireto ou sem contato. Essas sugestões representam uma compilação de “melhores práticas” para um cenário ideal.
Dados autorrelatados pelo atleta e coletados pela equipe devem ser capturados separadamente e combinados para maximizar a qualidade. Quando o objetivo for análise etiológica dos mecanismos de lesão, recomenda-se compilar dados complementares (gravações em vídeo, dados de sensores vestíveis e depoimentos de atletas/treinadores) para análises post hoc por especialistas. Em contextos de recursos limitados (categorias de base, recreação), deve-se ao menos indicar se o mecanismo foi contato direto, indireto ou sem contato.
Classificação dos diagnósticos
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