Introdução
A saúde mental (SM) do atleta vem recebendo atenção crescente na comunidade de medicina esportiva. Embora a participação no esporte traga muitos benefícios, a própria natureza da competição pode provocar, aumentar ou expor questões psicológicas em atletas. Certos traços de personalidade podem favorecer o sucesso atlético e, ao mesmo tempo, estar associados a transtornos de saúde mental; a cultura atlética pode impactar o desempenho e a saúde psicológica por meio de seu efeito sobre traços de personalidade e transtornos de SM existentes.
O médico da equipe é frequentemente o coordenador do cuidado global do atleta e pode supervisionar o rastreamento e o tratamento de saúde mental, a prescrição de medicação psiquiátrica e a consulta com membros da rede de cuidado em SM. O documento se concentra no atleta competitivo, do atleta juvenil e universitário ao olímpico e ao profissional, e em como médicos de equipe, treinadores atléticos e profissionais de saúde mental podem auxiliar na detecção e no tratamento de questões psicológicas.
O documento aborda fatores psicológicos em atletas, incluindo questões de personalidade e a resposta psicológica à lesão e à doença, além de cultura atlética e fatores ambientais que comumente impactam a SM, como sexualidade e questões de gênero, trote, bullying, conduta sexual indevida e transição para fora do esporte. São revisados transtornos específicos (transtornos alimentares/alimentação desordenada, depressão e suicídio, ansiedade e estresse, overtraining, distúrbios do sono e transtorno do déficit de atenção/hiperatividade), com foco em detecção, manejo, efeito no desempenho e prevenção. No escopo do statement são ainda revisados os sinais e sintomas singulares em atletas, a prevalência de transtornos de SM na população atlética e a utilização das ferramentas de rastreamento disponíveis.
Os critérios diagnósticos do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) e a fisiopatologia dos transtornos de SM não são discutidos. A discussão de manejo pode incluir abordagens psicossociais e tratamentos farmacológicos, com ênfase na seleção dos tratamentos mais eficazes e com menos efeitos colaterais de relevância para o desempenho atlético; o artigo também apresenta recomendações de prevenção, incluindo identificação e possível eliminação de fatores de risco no ambiente do atleta.
Este documento é um sumário executivo dos principais achados baseados em evidência; o position statement completo traz uma revisão extensa e está acessível como suplemento online. Embora direcionado a médicos de medicina esportiva, pode auxiliar outros médicos e profissionais de saúde no cuidado de atletas competitivos com questões psicológicas e transtornos de SM.
Métodos
O Conselho de Diretores da AMSSM nomeou co-presidentes para montar um grupo de redação cuidadosamente selecionado, com painel equilibrado de médicos de medicina esportiva e outros profissionais experientes no manejo de questões de SM em atletas, ativamente engajados em pesquisa e com liderança demonstrada no tema; membros importantes incluíram um treinador atlético, um psicólogo clínico e um psiquiatra do esporte.
Os co-presidentes geraram o esboço e o grupo de redação conduziu uma revisão aprofundada da literatura usando PubMed, SportDiscus e a base de dados Cochrane para cada tópico; o grupo se reuniu por chamadas em conferência e comunicações escritas para discutir as evidências e compilar o manuscrito.
O painel usou a Taxonomia de Força de Recomendação (Strength of Recommendation Taxonomy, SORT) para graduar o nível de evidência: SORT A corresponde a evidência consistente, orientada ao paciente e de boa qualidade; SORT B, a evidência orientada ao paciente inconsistente ou de qualidade limitada; e SORT C, a consenso, evidência orientada à doença, prática usual, opinião de especialistas ou séries de casos para estudos de diagnóstico, tratamento, prevenção ou rastreamento.
O documento se propõe inovador em três aspectos: abordar tópicos não plenamente explorados em publicações anteriores sobre SM em atletas (questões de personalidade, variáveis demográficas e culturais e condições ambientais); discutir a interação e o impacto dessas variáveis, positiva e negativamente, e como monitorar o ambiente atlético que pode precipitar ou exacerbar questões de SM; e definir o nível de evidência e as lacunas de conhecimento nesse campo em expansão.
Resultados
Questões de personalidade
Identidade atlética elevada está associada tanto a desfechos positivos quanto negativos de saúde e desempenho (SORT B). Traços e transtornos de personalidade considerados problemáticos para atletas podem ser melhor abordados por psicoterapia (SORT C).
Sexualidade e questões de gênero
A criação de um ambiente de forte apoio, acolhedor para minorias sexuais, é essencial para a SM do atleta e da equipe esportiva (SORT A). A redução do risco de consequências negativas de saúde para o atleta de minoria sexual começa com a educação de todos os envolvidos associados à participação atlética (SORT C).
Trote (hazing)
O trote leva a ramificações de saúde de curto e longo prazo que podem afetar o sucesso atlético do indivíduo e sua capacidade de participar do esporte (SORT C). A prevenção e o manejo do trote exigem investimento global de atletas, treinadores, administradores e profissionais de saúde, centrado em política de tolerância zero para qualquer forma de maus-tratos e foco em atividades positivas de construção de equipe que promovam dignidade e trabalho em equipe, em oposição à vitimização (SORT C).
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