Introdução
A osteoartrite (OA) é a artrite crônica mais prevalente e está entre as doenças que mais geram anos de vida vividos com incapacidade. No Brasil, segundo dados do Instituto Nacional do Seguro Social, é uma das principais causas de auxílio-doença e de aposentadoria por invalidez. O joelho é a articulação mais acometida na clínica, e o tratamento combina estratégias farmacológicas e não farmacológicas para aliviar a dor e melhorar a função articular.
Ainda não existem medicamentos capazes de modificar a doença na OA de joelho: as opções farmacológicas atuais não alcançam alívio de dor clinicamente relevante e podem se associar a eventos adversos. As estratégias não farmacológicas seguem como base do tratamento, ao oferecer analgesia segura e melhora da função e da qualidade de vida. Na pandemia de COVID, restrições de acesso a exercício e fisioterapia podem ter piorado a saúde musculoesquelética desses pacientes. A SBR publicou recomendações para a OA de joelho em 2002 e agora apresenta esta atualização, mais de duas décadas depois do primeiro consenso nacional, focada inicialmente nas estratégias não farmacológicas; os resultados foram votados entre julho e agosto de 2025 e apresentados no Encontro Anual da SBR, em setembro de 2025.
Métodos
A atualização partiu de uma revisão sistemática da literatura (RSL) conforme o protocolo PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyzes), que orienta a checagem de 27 itens e um fluxograma de 4 fases. Em outubro de 2024, o grupo votou 12 questões de pesquisa organizadas pela estratégia PICO (população, intervenção, comparador e desfecho). As modalidades avaliadas foram: acupuntura, exercícios aquáticos, terapia cognitivo-comportamental, mudanças na dieta, programas de exercício, fisioterapia em solo, laser, adesivos locais de calor ou frio, massoterapia (manipulação, mobilização), técnicas mente-corpo, órteses (palmilhas, calçados), bandagem (taping), ultrassom terapêutico, estimulação elétrica nervosa transcutânea (TENS) e dispositivos auxiliares de marcha.
O grupo de trabalho reuniu 21 membros: 19 reumatologistas, um clínico geral e um farmacêutico. Dois membros fizeram buscas, seleção e extração de dados de forma independente, com um terceiro revisor decidindo as divergências; os 19 reumatologistas participaram das rodadas de votação Delphi. Não houve participação de pacientes ou representantes de pacientes: suas visões e preferências não foram captadas formalmente e entraram apenas pela experiência clínica do painel, o que os autores reconhecem como limitação.
Eram elegíveis ensaios clínicos randomizados que comparassem tratamentos não farmacológicos a placebo ou a lista de espera em adultos com OA de joelho, preferencialmente pelos critérios do American College of Rheumatology (ACR), com seguimento mínimo de 12 semanas, pelo menos 15 indivíduos por grupo e grupo placebo (sem tratamento) claramente identificado. Cada estudo avaliou uma única intervenção; foram excluídos procedimentos combinados, braços farmacológicos ou cirúrgicos, outras artrites, OA de outras articulações, cirurgia prévia, revisões, relatos e séries de casos e resumos de eventos, e, segundo a seção de critérios, não houve busca em registros de ensaios, listas de referências, rastreamento de citações ou literatura cinzenta; em outro trecho, porém, o texto relata que as referências e citações dos artigos incluídos foram revisadas para achar estudos que tivessem ficado de fora. Os desfechos foram dor e função física, por escala visual analógica ou numérica e pelo domínio funcional do Western Ontario and McMaster Universities Osteoarthritis Index (WOMAC).
A busca foi feita em dezembro de 2024 no Embase, no Medline (PubMed), no Lilacs e no Cochrane CENTRAL, cobrindo os últimos 15 anos (maio de 2009 a outubro de 2024) em inglês e português, com Rayyan e RevMan5. A votação ocorreu online entre julho e agosto de 2025, com o Comitê de OA da SBR e sete reumatologistas convidados (19 com título no total). Quando a concordância ficava abaixo de 70%, a favor ou contra, a recomendação era reformulada e revotada até superar 70%. As recomendações foram classificadas como fortes ou condicionais conforme o sistema GRADE, em que a força reflete até que ponto os efeitos desejáveis superam os indesejáveis. Na estatística, a heterogeneidade foi verificada pelo teste I² e, diante da alta heterogeneidade encontrada, usou-se o modelo de efeitos aleatórios; limitações metodológicas dos estudos (protocolos não padronizados, seleção heterogênea, variabilidade de desfechos, amostras pequenas) foram consideradas na votação. Assim, a força de cada recomendação reflete o consenso do painel informado pela metanálise, pela consistência dos efeitos e pela experiência clínica, e não uma graduação formal da certeza da evidência, limitação reconhecida pelos autores.
Resultados
A RSL retornou 10.205 resumos potencialmente elegíveis; após a remoção de 2.926 duplicatas, 7.279 tiveram título e resumo avaliados, com exclusão de 2.635. Foram lidos na íntegra 291 artigos, com exclusão de 252, restando 39 para avaliação final e metanálise.
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