
A pergunta “natação faz bem para artrose?” parece simples, mas a resposta clínica é um pouco mais interessante do que um simples “sim”.
Para o paciente com osteoartrite, a natação pode representar uma estratégia de exercício particularmente atraente porque a água modifica as demandas mecânicas sobre o sistema musculoesquelético. Ao mesmo tempo, isso não significa que a natação seja automaticamente superior a exercícios realizados em solo, nem que qualquer estilo, intensidade ou volume seja adequado para qualquer pessoa.
A diferença entre uma orientação genérica e uma orientação de Medicina do Esporte está justamente aí: entender por que determinado exercício pode ser útil, para quem, em qual contexto e com quais limitações.
Esse raciocínio clínico é uma das competências que o médico precisa desenvolver para lidar melhor com pacientes fisicamente ativos, inclusive aqueles que chegam ao consultório perguntando se podem continuar praticando determinado esporte apesar de uma doença musculoesquelética.
É justamente essa abordagem que está por trás do curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Precisa Saber. A proposta é transformar conceitos de fisiologia, avaliação clínica e exercício em ferramentas aplicáveis ao consultório, sem transformar Medicina do Esporte em uma coleção de regras prontas.
Natação e artrose: por que essa combinação faz sentido?
A osteoartrite não deve ser entendida simplesmente como “desgaste da cartilagem”.
Trata-se de uma doença articular complexa, envolvendo cartilagem, osso subcondral, sinóvia, estruturas periarticulares, músculos e todo o contexto biomecânico e funcional do paciente.
Na prática, dois indivíduos com alterações radiográficas semelhantes podem apresentar níveis completamente diferentes de dor e incapacidade.
Isso é importante porque o objetivo do exercício não é simplesmente “reconstruir a cartilagem”.
O objetivo clínico é melhorar a capacidade funcional, reduzir sintomas quando possível, preservar força e mobilidade e permitir que o paciente permaneça fisicamente ativo.
É nesse ponto que a natação pode entrar.
Quando o corpo está imerso na água, a flutuação reduz a carga gravitacional efetiva sobre as articulações. Ao mesmo tempo, a água oferece resistência ao movimento.
Isso cria uma situação interessante: o paciente consegue movimentar-se com menor demanda mecânica relacionada ao peso corporal, mas ainda encontra resistência para produzir movimento.
A evidência disponível sustenta o uso de exercícios aquáticos como uma das opções para pessoas com osteoartrite. Diretrizes do American College of Rheumatology e da Arthritis Foundation incluem o exercício aquático entre as possibilidades de exercício para osteoartrite de joelho e quadril, sem estabelecer uma hierarquia que torne a modalidade superior às demais.
Portanto, a pergunta correta no consultório não é:
“A natação cura a artrose?”
A pergunta mais útil é:
“A natação é uma forma viável de exercício para este paciente, considerando sintomas, função, preferências, condicionamento e objetivos?”
Essa mudança de raciocínio é fundamental.
O que a água modifica do ponto de vista fisiológico?
Para entender por que exercícios aquáticos podem ser bem tolerados, é necessário pensar em três propriedades da água: flutuação, resistência e pressão hidrostática.
1. Flutuação
A flutuação reduz a carga efetiva sustentada pelo sistema musculoesquelético durante movimentos realizados dentro da água.
Isso pode ser particularmente interessante para pacientes com osteoartrite de joelho, quadril ou outras articulações dos membros inferiores que apresentam dor durante caminhada, agachamento ou outras atividades em solo.
O paciente pode conseguir realizar movimentos que seriam desconfortáveis fora da piscina.
Isso não significa ausência de carga.
Significa uma mudança na natureza da carga.
Essa diferença é clinicamente relevante.
Uma pessoa que sente dor ao caminhar pode tolerar melhor exercícios aquáticos e, com isso, manter uma rotina de atividade física que talvez não conseguisse sustentar em terra.
2. Resistência da água
A água não apenas “tira peso”.
Ela também oferece resistência ao movimento.
Quanto maior a velocidade do movimento e maior a área de superfície que se desloca contra a água, maior tende a ser a resistência encontrada.
Isso permite trabalhar movimentos de membros superiores e inferiores de maneira progressiva.
Entretanto, não devemos assumir que qualquer exercício aquático produz automaticamente estímulo suficiente para ganho de força.
Uma revisão sistemática encontrou melhora da função física com exercícios aquáticos, mas mostrou resultados menos consistentes quando o desfecho analisado era força muscular. Os protocolos eram muito diferentes entre si em relação a frequência, duração, intensidade e progressão.
Essa observação é importante para evitar um erro comum: considerar que “estar na piscina” equivale a realizar um programa de fortalecimento adequadamente estruturado.
Não equivale.
Natação ou exercício aquático?
Aqui está uma distinção que pode melhorar bastante a orientação médica.
Natação e exercício aquático não são exatamente sinônimos.
A natação envolve deslocamento na água por meio de técnicas específicas, geralmente com predomínio de movimentos coordenados de membros superiores, membros inferiores e tronco.
Já os programas de exercício aquático podem incluir caminhada dentro da piscina, exercícios resistidos, movimentos de mobilidade, equilíbrio, exercícios aeróbios e atividades funcionais.
Isso significa que um paciente com artrose pode se beneficiar do ambiente aquático mesmo que não saiba nadar.
Essa distinção é clinicamente relevante.
A própria Mayo Clinic descreve exercícios aquáticos como uma alternativa de baixo impacto e ressalta que eles podem ser realizados inclusive por pessoas que não sabem nadar.
Portanto, quando um paciente pergunta se deve fazer natação, vale perguntar:
- Ele sabe nadar?
- Tem segurança dentro da água?
- Qual articulação apresenta sintomas?
- Qual movimento desencadeia dor?
- O objetivo é condicionamento cardiovascular?
- O objetivo é reduzir sedentarismo?
- Precisa melhorar força?
- Tem medo de cair?
- Tolera exercícios em solo?
- Existe alguma contraindicação clínica ao exercício?
Essa conversa é muito mais útil do que simplesmente entregar a recomendação “faça natação”.
A evidência mostra que natação é melhor do que exercício em solo?
Não.
E esse é provavelmente um dos pontos mais importantes deste artigo.
Uma meta-análise publicada em 2023 avaliou 22 estudos randomizados, envolvendo 1.394 participantes com osteoartrite do joelho. Em comparação com ausência de exercício, o exercício aquático produziu melhora significativa em dor, rigidez e função física. Entretanto, quando comparado com exercícios realizados em solo, não foram encontradas diferenças significativas para esses mesmos desfechos.
Isso muda a interpretação.
O argumento não deve ser:
“A natação é melhor porque não tem impacto.”
O raciocínio mais adequado seria:
“O exercício aquático é uma opção efetiva e potencialmente bem tolerada, mas não demonstrou ser universalmente superior ao exercício em solo.”
Uma revisão mais recente, publicada em 2025 e focada em pessoas idosas com osteoartrite, chegou a uma conclusão semelhante: exercícios aquáticos podem melhorar dor, rigidez, equilíbrio e capacidade de caminhar quando comparados à ausência de exercício, mas não apresentam benefício claramente superior ao exercício realizado em solo. A adesão e a viabilidade prática aparecem como características importantes da modalidade.
Isso é Medicina Baseada em Evidências aplicada ao consultório.
A melhor modalidade não é necessariamente aquela que produz o maior efeito em uma meta-análise.
É aquela que o paciente consegue realizar, tolerar e manter.
Então por que alguns pacientes melhoram tanto na piscina?
Porque o efeito clínico do exercício é multifatorial.
A redução da carga mecânica pode facilitar o movimento.
A resistência da água permite produzir trabalho muscular.
A temperatura da água pode influenciar a sensação de conforto e facilitar movimentos em determinados contextos.
A própria experiência de conseguir movimentar uma articulação com menos dor pode modificar a percepção do paciente sobre sua capacidade funcional.
Além disso, existe um componente comportamental importante.
Um paciente que sente dor ao caminhar pode evitar atividade física.
Com menos atividade, perde condicionamento.
Com menor condicionamento, determinadas tarefas passam a exigir maior esforço.
A incapacidade aumenta.
O paciente passa a se movimentar ainda menos.
Forma-se um ciclo de descondicionamento.
O ambiente aquático pode interromper esse ciclo em alguns indivíduos.
A meta-análise publicada em 2022, envolvendo 20 estudos, encontrou redução de dor e melhora da qualidade de vida e da função articular com exercícios aquáticos em pessoas com osteoartrite.
Isso não significa que a água tenha um efeito “regenerador”.
Significa que ela pode ser um meio interessante para permitir que o paciente volte a se exercitar.
Natação pode piorar a artrose?
A pergunta também precisa ser respondida com cuidado.
Não existe uma regra geral segundo a qual a natação pioraria a osteoartrite.
Por outro lado, também não devemos interpretar “baixo impacto” como “baixo risco em qualquer situação”.
A técnica, o volume, a intensidade, o nível de condicionamento e a condição clínica do paciente importam.
Um indivíduo com dor importante no ombro, por exemplo, pode apresentar limitações relacionadas ao movimento repetitivo dos membros superiores.
Outro paciente pode tolerar melhor a caminhada aquática do que a natação contínua.
Um terceiro pode não apresentar nenhuma limitação relevante e utilizar a piscina principalmente como estratégia aeróbia.
O médico não precisa escolher uma modalidade abstrata.
Precisa escolher uma estratégia que faça sentido para aquele paciente.
Como orientar a natação para pacientes com artrose?
Não existe uma única prescrição que possa ser aplicada a todos.
Os estudos utilizam protocolos bastante diferentes, e isso limita a possibilidade de transformar a literatura em uma receita universal. Uma revisão sistemática mostrou justamente essa heterogeneidade entre duração, frequência, intensidade, tipo de exercício e progressão.
Por isso, uma abordagem clínica razoável começa pelo nível funcional.
Paciente sedentário e com dor ao caminhar
Nesse perfil, o ambiente aquático pode ser uma porta de entrada para o exercício.
Não necessariamente é preciso começar nadando.
Caminhada na água, movimentos ativos e exercícios aquáticos orientados podem ser mais acessíveis.
Paciente já condicionado
Se o paciente já nada regularmente, a questão muda.
Talvez o problema não seja “pode nadar?”.
Pode ser necessário discutir volume, intensidade, recuperação e sintomas durante e após o treino.
Paciente com artrose e obesidade
Aqui, a piscina pode ter uma vantagem prática adicional.
A carga corporal elevada pode dificultar determinados exercícios em solo. O ambiente aquático pode facilitar o movimento e melhorar a tolerância à atividade.
Uma meta-análise publicada em 2026, com 12 ensaios randomizados e 1.057 participantes com sobrepeso ou obesidade e osteoartrite de membros inferiores, encontrou associação entre exercício aquático e redução da dor e melhora da função física. Os autores, entretanto, destacam que análises de subgrupos relacionadas à “dose ideal” devem ser consideradas exploratórias.
O paciente precisa parar de caminhar e fazer apenas natação?
Não.
Esse é outro erro frequente.
Se o paciente consegue caminhar, realizar fortalecimento e manter outras formas de atividade física sem exacerbação clinicamente relevante dos sintomas, não há razão para substituir automaticamente todas essas modalidades pela piscina.
O exercício deve ser individualizado.
A diretriz do American College of Rheumatology/Arthritis Foundation considera caminhada, fortalecimento, treinamento neuromuscular e exercício aquático como possibilidades para osteoartrite de joelho e quadril. Não existe uma hierarquia absoluta entre essas estratégias.
Portanto:
natação pode ser uma opção. Não precisa ser a única opção.
E, para alguns pacientes, nem precisa ser a principal.
Natação e fortalecimento: um ponto que merece atenção
Existe uma tendência de considerar que exercícios aquáticos resolvem automaticamente a necessidade de fortalecimento muscular.
A evidência não sustenta uma afirmação tão simples.
Os estudos mostram resultados variáveis sobre força muscular. A revisão de de Mattos e colaboradores encontrou efeitos positivos na funcionalidade, mas resultados inconsistentes para força.
Isso tem implicações práticas.
Um paciente com osteoartrite de joelho que apresenta fraqueza significativa de quadríceps pode precisar de um programa de fortalecimento específico.
A piscina pode fazer parte do programa.
Mas não devemos confundir:
atividade física na água
com
programa completo de fortalecimento progressivo.
Essa diferenciação é especialmente importante para o médico que acompanha pacientes que desejam retornar ao esporte.
E quando o paciente sente dor durante a natação?
A presença de dor não deve ser interpretada de forma binária.
Dor não significa automaticamente lesão progressiva.
Por outro lado, dor também não deve ser simplesmente ignorada.
O contexto é fundamental.
Pergunte:
- Quando a dor começa?
- Qual movimento desencadeia?
- A intensidade está aumentando?
- A dor permanece após o exercício?
- Existe edema?
- Houve perda funcional?
- Há bloqueio articular?
- Existe instabilidade?
- O padrão é diferente do habitual?
Essa avaliação ajuda a diferenciar uma resposta transitória ao exercício de uma situação que exige reavaliação.
O mesmo princípio vale para qualquer modalidade esportiva.
Erros comuns ao orientar natação para artrose
1. Dizer que a natação “desgasta menos a articulação” e encerrar a consulta
A afirmação é incompleta.
É necessário entender qual exercício será realizado, qual articulação está sintomática e qual é o objetivo do paciente.
2. Prometer regeneração da cartilagem
Não há base para afirmar que natação regenera cartilagem articular de maneira clinicamente comprovada.
O benefício esperado está principalmente relacionado a sintomas, função, condicionamento e manutenção da atividade física.
3. Achar que piscina substitui fortalecimento
Nem sempre.
A resistência da água pode produzir estímulo muscular, mas a necessidade de força específica deve ser avaliada individualmente.
4. Prescrever a mesma rotina para todos
Os protocolos estudados variam muito.
Não existe uma fórmula universal de minutos, dias por semana e intensidade que possa ser aplicada indistintamente a todo paciente com artrose.
5. Proibir atividade física por causa do diagnóstico radiográfico
Outro extremo igualmente problemático.
A presença de osteoartrite em exame de imagem não determina, sozinha, a capacidade funcional do paciente.
O tratamento deve considerar sintomas e função.
Um detalhe que muda a consulta: preferência do paciente
Imagine dois pacientes com osteoartrite.
O primeiro odeia piscina e gosta de caminhar.
O segundo não tolera caminhada prolongada, mas adora nadar.
É provável que a melhor orientação seja diferente para os dois.
Isso parece óbvio, mas é frequentemente esquecido.
A adesão é parte da prescrição.
Uma intervenção teoricamente excelente, mas que o paciente não executa, tem pouco valor clínico.
A revisão de 2025 sobre exercício aquático em idosos reforça justamente esse aspecto: embora a modalidade não seja claramente superior a outras formas de exercício, sua viabilidade e adesão podem torná-la uma opção interessante.
Esse é um excelente exemplo de como a Medicina do Esporte exige mais do que decorar protocolos.
É necessário saber individualizar a recomendação.
Se esse tipo de raciocínio é justamente o que você quer levar para o seu consultório, vale conhecer o A Medicina do Esporte que Todo Médico Precisa Saber.
E a avaliação antes de começar?
Nem todo paciente com artrose precisa passar por uma bateria extensa de exames antes de começar a fazer atividade física.
A avaliação deve ser proporcional ao risco clínico.
História cardiovascular, sintomas durante o esforço, comorbidades, nível atual de atividade física e características do exercício planejado precisam ser considerados.
Em determinadas situações, questionários de prontidão podem ajudar a organizar a triagem inicial. O MedEsporte Papers também disponibiliza o PAR-Q — Questionário de Prontidão para Atividade Física como ferramenta complementar.
Mas um questionário não substitui avaliação médica quando existem sintomas ou fatores de risco que exigem investigação.
A mesma lógica utilizada na avaliação pré-participação esportiva deve ser aplicada aqui: não transformar uma ferramenta de triagem em diagnóstico.
Natação para artrose de joelho: existe alguma vantagem específica?
A osteoartrite de joelho é um dos cenários mais estudados quando falamos de exercício aquático.
A literatura mostra benefícios de curto prazo sobre dor, rigidez e função quando exercícios aquáticos são comparados com ausência de exercício.
Porém, novamente, a comparação com exercícios em solo não demonstra superioridade consistente.
Na prática, a vantagem pode estar na tolerabilidade.
Um paciente com dor durante caminhada pode conseguir realizar exercícios aeróbios na água.
Depois, à medida que sua capacidade funcional melhora, talvez seja possível ampliar gradualmente outras formas de exercício.
Portanto, a piscina pode funcionar como ponte para maior atividade física, e não necessariamente como destino final.
Natação para artrose de quadril
O mesmo princípio pode ser aplicado à osteoartrite do quadril.
A redução da carga efetiva durante a imersão pode facilitar movimentos em pacientes que apresentam dificuldade para caminhar ou realizar determinados exercícios em solo.
Mas o médico deve continuar avaliando amplitude de movimento, dor, força e funcionalidade.
A presença de artrose de quadril não significa automaticamente que qualquer movimento aquático seja confortável.
Novamente, individualização.
Quando a natação não deve ser a prioridade?
Existem situações nas quais o principal problema do paciente não é encontrar uma modalidade de exercício.
Pode ser necessário primeiro investigar:
- dor articular aguda de início recente;
- trauma;
- derrame articular importante;
- bloqueio articular;
- instabilidade relevante;
- déficit neurológico;
- sintomas sistêmicos;
- febre associada a sintomas articulares;
- incapacidade funcional desproporcional;
- sintomas cardiovasculares relacionados ao esforço.
Nesses casos, recomendar simplesmente “faça natação porque não tem impacto” pode atrasar uma avaliação necessária.
Medicina do Esporte não é simplesmente liberar exercício. É saber decidir com segurança. Conheça o curso e aprofunde esse raciocínio na prática.
É saber quando o exercício é adequado, quando precisa ser adaptado e quando deve ser precedido por investigação.
Limitações da evidência
A literatura sobre exercício aquático é relevante, mas não é perfeita.
Existem diferenças importantes entre os estudos quanto a:
- diagnóstico e gravidade da osteoartrite;
- idade dos participantes;
- articulação afetada;
- tipo de exercício;
- temperatura da água;
- duração das sessões;
- frequência semanal;
- intensidade;
- supervisão;
- duração total da intervenção;
- desfechos utilizados.
Além disso, muitos estudos avaliam exercício aquático, e não especificamente natação tradicional.
Isso é extremamente importante.
Quando uma meta-análise demonstra benefício de exercícios aquáticos, não podemos automaticamente concluir que o mesmo efeito foi demonstrado para todos os estilos de natação competitiva ou recreativa.
A extrapolação precisa respeitar o desenho dos estudos.
Essa é uma das principais razões pelas quais o médico precisa aprender a interpretar a literatura em vez de simplesmente repetir conclusões de redes sociais ou materiais promocionais.
Como agir no consultório? Um caso prático
Imagine o seguinte paciente:
Paciente de 58 anos, com osteoartrite de joelho, sobrepeso, sedentário, dor ao caminhar por períodos prolongados e desejo de voltar a praticar natação.
O que fazer?
Pergunta 1: qual é o objetivo?
Ele quer reduzir dor?
Quer emagrecer?
Quer melhorar condicionamento?
Quer voltar a nadar por lazer?
Provavelmente existe mais de um objetivo.
Pergunta 2: qual é a capacidade funcional atual?
Ele consegue caminhar?
Subir escadas?
Levantar-se de uma cadeira?
Entrar e sair da piscina com segurança?
Pergunta 3: qual é o padrão de sintomas?
A dor ocorre durante o exercício?
Depois?
No dia seguinte?
Existe derrame?
Existe sensação de falseio?
Pergunta 4: ele realmente precisa começar nadando?
Talvez não.
Pode começar com exercício aquático estruturado e progredir para natação.
Pergunta 5: existe espaço para fortalecimento?
Provavelmente deve ser considerado, especialmente se houver déficit de força.
Pergunta 6: como avaliar a resposta?
A evolução deve considerar não apenas dor, mas também função, capacidade de exercício e adesão.
Esse tipo de consulta deixa de ser uma resposta binária — “pode” ou “não pode” — e passa a ser uma prescrição baseada em raciocínio clínico.
Agora pense como médico do esporte
Antes de terminar a consulta, faça este pequeno exercício mental.
Seu paciente diz:
“Doutor, eu tenho artrose. Posso nadar?”
Em vez de responder imediatamente, pergunte:
1. Qual articulação está acometida?
2. Qual é a intensidade dos sintomas?
3. Como está a função?
4. O paciente já pratica atividade física?
5. Ele sabe nadar com segurança?
6. Qual é o objetivo da atividade?
7. Existem outras modalidades que ele tolera melhor?
8. Há necessidade de fortalecimento específico?
9. Existem sinais de alerta que mudam a conduta?
10. Como será feita a progressão e o acompanhamento?
Se você consegue responder essas perguntas, sua orientação deixa de ser simplesmente “natação é boa para artrose”.
Ela passa a ser uma recomendação médica individualizada.
E é exatamente esse salto — sair da informação genérica e chegar ao raciocínio clínico — que diferencia uma abordagem superficial de uma verdadeira prática em Medicina do Esporte.
Resumo prático
- A natação pode ser uma excelente opção para pacientes com osteoartrite, especialmente quando exercícios em solo são mal tolerados.
- O exercício aquático pode reduzir sintomas e melhorar função quando comparado à ausência de exercício.
- A evidência atual não demonstra que a natação ou o exercício aquático sejam universalmente superiores ao exercício em solo.
- Flutuação, resistência da água e características do ambiente aquático podem facilitar o movimento.
- Natação e exercício aquático não são exatamente a mesma intervenção.
- Exercício aquático não deve ser confundido automaticamente com um programa completo de fortalecimento.
- A escolha da modalidade deve considerar sintomas, função, preferências e objetivos do paciente.
- Não há evidência para prometer regeneração da cartilagem por meio da natação.
- Protocolos de exercício aquático variam consideravelmente entre os estudos.
- A adesão pode ser uma das maiores vantagens práticas da modalidade.
- Diagnóstico radiográfico de osteoartrite não deve, isoladamente, determinar proibição de atividade física.
- Sinais de alerta ou sintomas desproporcionais exigem avaliação clínica adequada antes da simples recomendação de exercício.
Conclusão
A relação entre natação e artrose é um bom exemplo de como uma pergunta aparentemente simples pode exigir raciocínio clínico.
A evidência apoia o exercício aquático como uma estratégia útil para pessoas com osteoartrite, principalmente por seus efeitos sobre dor, função e capacidade de permanecer fisicamente ativo. Entretanto, não há fundamento para transformar a piscina em uma “terapia superior” a todas as outras formas de exercício.
O principal benefício pode estar justamente na possibilidade de oferecer ao paciente uma modalidade que ele consiga realizar com conforto suficiente para manter regularidade.
Para alguns, será a natação.
Para outros, será caminhada.
Para outros, fortalecimento.
E, para muitos, a melhor estratégia será uma combinação dessas possibilidades.
O papel do médico não é escolher uma modalidade por preferência pessoal ou por uma frase pronta retirada da internet.
É avaliar o paciente, entender o problema, interpretar a evidência e transformar conhecimento científico em uma orientação prática.
Se você quer desenvolver esse tipo de raciocínio e aprender a aplicar conceitos de Medicina do Esporte diretamente às situações que aparecem no consultório, conheça o curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Precisa Saber.
Para continuar estudando
A própria linha editorial do MedEsporte Papers mostra como o raciocínio clínico em Medicina do Esporte vai muito além da indicação de exercício. Um bom exemplo é o artigo “Miocardiopatia: Como Investigar Atletas com Histórico Familiar”, que utiliza uma abordagem baseada em anamnese, avaliação cardiovascular, interpretação de exames e acompanhamento longitudinal — exatamente o tipo de raciocínio que precisa estar presente quando o médico decide se determinado paciente está apto para uma prática esportiva. Miocardiopatia: Como Investigar Atletas com Histórico Familiar
Para o médico, a grande lição é simples:
não basta saber se o paciente pode fazer exercício. É preciso saber qual exercício faz sentido para aquele paciente, em qual momento e com qual estratégia de acompanhamento.
Referências
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LU, Meili et al. Effectiveness of aquatic exercise for treatment of knee osteoarthritis: systematic review and meta-analysis. Rheumatology International, v. 35, n. 8, p. 1333-1342, 2015. PubMed — Lu et al., 2015
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MAYO CLINIC. Aquatic exercises. 2023. Mayo Clinic — Aquatic exercises
COCHRANE. Exercícios aquáticos para o tratamento da osteoartrite do joelho e do quadril. Cochrane — Exercícios aquáticos para osteoartrite

