Peptídeos de Colágeno para Tendinopatia: Funcionam na Recuperação de Lesões de Tendão?

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Cabeçalho de artigo científico com o título sobre os efeitos da suplementação de peptídeos específicos de colágeno associada ao treinamento resistido nas propriedades do tendão de Aquiles, seguido pela lista de autores em links azuis.


A lesão de tendão é uma daquelas queixas que todo profissional que trabalha com esporte conhece bem. Tendinopatia patelar, Aquiles (tendão calcâneo), epicondilite lateral, tendinopatia do manguito rotador — condições que frustram pacientes, travam atletas e frequentemente resistem aos tratamentos convencionais. Não é à toa que qualquer estratégia nova chama atenção.

Nos últimos anos, os peptídeos de colágeno entraram com força nessa conversa. A lógica é simples: fornecer os tijolos para o tendão se reconstruir. Mas plausibilidade fisiológica e eficácia clínica são coisas diferentes — e essa distinção importa muito na hora de decidir o que recomendar ao paciente.

O que são os peptídeos de colágeno?

Os peptídeos de colágeno são fragmentos proteicos obtidos por hidrólise enzimática do colágeno de origem bovina, suína ou marinha. Esse processo produz moléculas menores, ricas em prolina e hidroxiprolina, aminoácidos fundamentais para a estrutura dos tecidos conjuntivos.

Por apresentarem baixo peso molecular, esses peptídeos possuem elevada biodisponibilidade, sendo absorvidos e transportados com maior eficiência após a ingestão.

Qual a relação entre colágeno e tendões?

O tendão saudável é composto predominantemente por colágeno tipo I, organizado em fibras paralelas capazes de suportar grandes cargas de tração.

Em condições normais, existe um equilíbrio entre síntese e degradação da matriz extracelular. Nas tendinopatias, esse equilíbrio é perdido, levando à desorganização das fibras, alterações estruturais, neovascularização e redução da capacidade mecânica do tecido.

Por esse motivo, pesquisadores têm investigado se a suplementação com peptídeos de colágeno pode auxiliar a regeneração e remodelação tendínea.

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Como os peptídeos de colágeno podem ajudar na recuperação do tendão?

A hipótese mais simples é o fornecimento de aminoácidos necessários para a síntese de novas fibras de colágeno.

No entanto, os possíveis benefícios parecem ir além disso.

Estudos laboratoriais demonstraram que peptídeos de colágeno podem estimular tenócitos — as células responsáveis pela manutenção do tendão — a produzirem componentes importantes da matriz extracelular, incluindo colágeno tipos I e III e elastina.

Além disso, peptídeos bioativos específicos, como o prolil-hidroxiprolina, parecem favorecer a homeostase celular e a atividade dos tenócitos.

Outro mecanismo potencial envolve a interação entre suplementação e exercício terapêutico. A carga mecânica continua sendo o principal estímulo para remodelação do tendão, mas os peptídeos de colágeno podem fornecer suporte nutricional para otimizar essa resposta adaptativa.

O que os estudos científicos mostram?

1. Colágeno pode aumentar marcadores de síntese de colágeno

Um estudo clássico publicado por Shaw e colaboradores em 2017 mostrou que a ingestão de gelatina associada à vitamina C antes de exercícios específicos aumentou marcadores bioquímicos relacionados à síntese de colágeno.

Entretanto, o estudo não avaliou melhora clínica, dor ou função.

2. Tendinopatia do Aquiles

Estudos randomizados mais recentes demonstraram que pacientes com tendinopatia do tendão de Aquiles que utilizaram peptídeos de colágeno associados a programas de exercícios excêntricos apresentaram melhora significativa da dor e da função, incluindo melhores resultados no questionário VISA-A.

3. Aumento da espessura e resistência do tendão

Um ensaio clínico randomizado de 14 semanas demonstrou que a suplementação diária de 5 g de peptídeos de colágeno associada ao treinamento resistido promoveu aumento significativo da área de secção transversal do tendão de Aquiles.

O crescimento foi de aproximadamente 11% no grupo suplementado contra 4,7% no grupo placebo.

Esse resultado é relevante porque tendões com maior área de secção transversal podem sofrer menor estresse mecânico durante atividades esportivas.

4. Revisões sistemáticas e meta-análises

Uma revisão sistemática publicada em 2021 concluiu que os peptídeos de colágeno podem contribuir para:

  • Redução da dor articular;
  • Melhora da função articular;
  • Aumento da síntese de colágeno;
  • Benefícios modestos em composição corporal e força muscular.

Já uma meta-análise de 2024 envolvendo 19 estudos e 768 participantes encontrou benefícios significativos para:

  • Massa livre de gordura;
  • Morfologia tendínea;
  • Arquitetura muscular;
  • Força máxima;
  • Recuperação muscular após exercício intenso.

Embora a qualidade geral da evidência ainda seja considerada moderada, os resultados são consistentemente favoráveis.

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Qual a importância da vitamina C?

A vitamina C desempenha papel fundamental na formação do colágeno.

Ela atua como cofator das enzimas prolil-hidroxilase e lisil-hidroxilase, responsáveis pela estabilização da molécula de colágeno.

Sem níveis adequados de vitamina C, a formação de fibras colágenas ocorre de forma menos eficiente.

Por isso, muitos protocolos de suplementação combinam peptídeos de colágeno com vitamina C para potencializar a síntese de colágeno.

Qual a dose recomendada de peptídeos de colágeno?

Os estudos disponíveis utilizaram principalmente:

  • 5 a 15 g por dia de peptídeos de colágeno;
  • 50 a 225 mg de vitamina C;
  • Uso associado a programas de exercícios terapêuticos ou treinamento resistido.

Até o momento, não existe consenso definitivo sobre a dose ideal para cada tipo de tendinopatia.

Colágeno sozinho trata tendinite ou tendinopatia?

Não.

Nenhum estudo demonstrou que o colágeno seja capaz de substituir programas de reabilitação.

A recuperação das lesões tendíneas continua dependente principalmente de:

  • Exercícios de fortalecimento;
  • Progressão adequada de carga;
  • Correção de fatores biomecânicos;
  • Controle do treinamento;
  • Acompanhamento profissional.

O colágeno deve ser encarado como um possível recurso complementar e não como tratamento isolado.

Limitações das evidências atuais

Apesar dos resultados promissores, algumas limitações ainda existem:

  • Número reduzido de ensaios clínicos de alta qualidade;
  • Diferenças entre formulações estudadas;
  • Falta de padronização das doses;
  • Poucos estudos com acompanhamento de longo prazo;
  • Ausência de recomendações formais nas principais diretrizes clínicas.

Além disso, ainda não está totalmente esclarecido quais mecanismos são responsáveis pelos efeitos observados.

Vale a pena usar peptídeos de colágeno para lesões de tendão?

A evidência atual sugere que os peptídeos de colágeno podem oferecer benefícios estruturais e funcionais quando associados a um programa adequado de reabilitação.

Para atletas e pacientes com tendinopatia, a suplementação parece representar uma estratégia complementar de baixo risco e potencial benefício, especialmente quando combinada com vitamina C e exercícios específicos.

No entanto, é importante alinhar expectativas: não existem evidências de que o colágeno promova regeneração milagrosa ou substitua o papel fundamental da carga mecânica na recuperação do tendão.

A área é promissora. A biologia é consistente. A evidência está crescendo. Mas a conversa com o paciente precisa refletir o que a evidência realmente diz, não o que gostaríamos que ela dissesse.

Importante: no Brasil, a Anvisa permite a comercialização de suplementos orais de colágeno, porém as formulações injetáveis não possuem regularização para uso com finalidade de suplementação.

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Referências

  1. Anti‐Inflammatory and Antioxidant Properties of a New Mixture of Vitamin C, Collagen Peptides, Resveratrol, and Astaxanthin in Tenocytes: Molecular Basis for Future Applications in Tendinopathies (https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1155/2024/5273198) Mediators of Inflammation. 2023. Marzagalli M, Battaglia S, Raimondi M, et al.
  2. Collagen Peptide Supplementation for Pain and Function: Is It Effective? (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36044324) Current Opinion in Clinical Nutrition and Metabolic Care. 2022. Kviatkovsky SA, Hickner RC, Ormsbee MJ.Review
  3. Effects of specific collagen peptide supplementation combined with resistance training on Achilles tendon properties.(https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/sms.14164) Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports. 2022. Jerger S, Centner C, Lauber B, et al.RCT
  4. Impact of Collagen Peptide Supplementation in Combination With Long-Term Physical Training on Strength, Musculotendinous Remodeling, Functional Recovery, and Body Composition in Healthy Adults: A Systematic Review With Meta-Analysis.(https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39060741) Sports Medicine. 2024. Bischof K, Moitzi AM, Stafilidis S, König D.SR
  5.  The Effects of Collagen Peptide Supplementation on Body Composition, Collagen Synthesis, and Recovery From Joint Injury and Exercise: A Systematic Review.(https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34491424) Amino Acids. 2021. Khatri M, Naughton RJ, Clifford T, Harper LD, Corr L.
  6. Shaw G, Lee-Barthel A, Ross ML, Wang B, Baar K. Vitamin C-enriched gelatin supplementation before intermittent activity augments collagen synthesis. Am J Clin Nutr. 2017;105(1):136-143.

Autor

  • Karin Coca Aguilar

    Médica ortopedista pela Santa Casa de São Paulo, especialista em doenças neuromusculares e pós-graduada em Medicina Esportiva. Atuo na ortopedia pediátrica, medicina esportiva e prevenção de lesões, com foco na saúde e no movimento em todas as fases da vida. Acredito na medicina baseada em evidências associada a um olhar individualizado, especialmente no cuidado de crianças e adolescentes em fase de crescimento, prática esportiva e reabilitação.

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