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A resposta curta é sim, mas só para um grupo específico. Veja o que a evidência sustenta sobre semaglutida e tirzepatida, e o que ainda é confundido na prática.
Os peptídeos para emagrecer funcionam, mas o termo é usado de forma ampla demais. Quando se fala em medicamentos com evidência sólida para perda de peso, o assunto são principalmente os agonistas do receptor de GLP-1 e os agonistas duplos GIP/GLP-1: a semaglutida (Wegovy, Ozempic) e a tirzepatida (Mounjaro, Zepbound).
Esses fármacos reúnem uma das maiores bases de evidência já produzidas para o tratamento da obesidade, com ensaios de fase 3 grandes, controlados por placebo e seguimento longo. É disso que trata este texto, não dos inúmeros “peptídeos milagrosos” sem comprovação que circulam em redes sociais.
Para o médico que deseja entender mecanismos, indicações e limites desses compostos com profundidade, o Curso de Peptídeos Terapêuticos e na Performance da MedEsporte Papers aprofunda esses temas de forma baseada em evidências.
O que mostram os melhores estudos?
Tirzepatida (SURMOUNT-1)
O ensaio de fase 3 SURMOUNT-1, publicado no New England Journal of Medicine, incluiu mais de 2.500 adultos com obesidade ou sobrepeso sem diabetes. Em 72 semanas, a perda média de peso foi de cerca de 16% a 22,5% do peso corporal, conforme a dose, e até aproximadamente 63% dos participantes perderam 20% ou mais do peso, resultados muito acima do placebo.
Manutenção do resultado a longo prazo
Uma análise de acompanhamento de cerca de três anos mostrou que a tirzepatida manteve grande parte da perda de peso e reduziu de forma significativa a progressão para diabetes tipo 2 em pessoas com resistência à insulina. É um dado relevante, porque desloca a discussão de “perder peso” para “modificar o curso da doença”.
Semaglutida (STEP 1)
O estudo STEP 1 consolidou a semaglutida para obesidade. Em 68 semanas, a perda média de peso foi de cerca de 14,9%, contra cerca de 2,4% no placebo, com metade dos participantes atingindo 15% ou mais de redução. Em comparação direta posterior (SURMOUNT-5, 2025), a tirzepatida produziu perda de peso maior que a semaglutida, embora ambas tenham desempenho expressivo.

O que muita gente entende errado
Eles não “derretem gordura” diretamente
O mecanismo principal não é queimar gordura, e sim mudar o comportamento alimentar: esses peptídeos aumentam a saciedade, reduzem a fome, diminuem o consumo calórico, melhoram o controle glicêmico e parecem atuar em circuitos cerebrais de recompensa alimentar.
Isso não quer dizer que não haja efeito algum sobre o metabolismo lipídico. Como os receptores de GLP-1 quase não são expressos no tecido adiposo, o GLP-1 promove lipólise de forma sobretudo indireta, por aumento do tônus simpático, da oxidação de ácidos graxos e do gasto energético. Nos agonistas que incluem o glucagon, como a retatrutida, esse componente de gasto energético e lipólise é mais direto. Ainda assim, a maior parte da perda de gordura vem do déficit calórico, não de uma ação lipolítica potente sobre o adipócito.
Não substituem hábitos
Em todos os ensaios, os participantes também recebiam orientação nutricional e de atividade física. A medicação funciona melhor associada a essas intervenções, e os números dos estudos refletem essa combinação, não o fármaco isolado.
O peso pode voltar após a suspensão
A obesidade é uma doença crônica. Assim como na hipertensão ou no diabetes, interromper o tratamento costuma levar à recuperação de parte do peso perdido. A manutenção depende da continuidade do tratamento e das mudanças de comportamento, e essa conversa precisa ser feita com o paciente desde o início.

E o que vem por aí? A retatrutida
A próxima geração já está em estudo, e a mais comentada é a retatrutida, um agonista triplo de GLP-1, GIP e glucagon. O componente glucagon é o diferencial mecânico: além de atuar na saciedade, ele aumenta o gasto energético basal. Nos estudos de fase 3 do programa TRIUMPH, a retatrutida alcançou perdas de peso ainda maiores que as dos fármacos atuais, em torno de 25% ou mais nas doses mais altas, como mostram os dados do estudo TRIUMPH-4.
Ainda não é uma opção aprovada para uso amplo, com previsão de chegada por volta de 2027. Vale o alerta: qualquer “retatrutida” vendida antes disso não é a molécula original e representa risco. O mesmo ceticismo se aplica a moléculas anunciadas com promessas excepcionais e sem evidência sólida, como no caso da bioglutida (NA-931).
O que a literatura sustenta hoje
À pergunta “peptídeos para emagrecer funcionam?”, a resposta científica atual é sim, sobretudo para semaglutida e tirzepatida. Os estudos de alta qualidade mostram perdas em torno de 15% do peso com a semaglutida e de 20% a 22,5% com a tirzepatida, com alguns pacientes ultrapassando esses valores.
São resultados comparáveis a algumas abordagens cirúrgicas menos agressivas e representam uma mudança importante no tratamento da obesidade. Isso não significa, porém, ausência de custos: há efeitos adversos (sobretudo gastrointestinais), preço elevado, necessidade de acompanhamento médico e a questão da manutenção a longo prazo.
Resumo prático
- Os peptídeos para emagrecer com evidência sólida são os agonistas de GLP-1 e os duplos GIP/GLP-1.
- Semaglutida: perda média em torno de 15% do peso (STEP 1).
- Tirzepatida: perda média de 20% a 22,5% do peso (SURMOUNT-1).
- O efeito vem da saciedade e da redução do apetite, não da queima direta de gordura.
- A medicação funciona melhor associada a dieta e atividade física.
- A obesidade é crônica: suspender o tratamento tende a recuperar parte do peso.
Conclusão
Poucas áreas da medicina mudaram tão rápido quanto o tratamento farmacológico da obesidade. A semaglutida e a tirzepatida deixaram de ser promessa e passaram a ter resultados consistentes em ensaios grandes e bem conduzidos. Ainda assim, são ferramentas dentro de um tratamento crônico, não atalhos: exigem indicação correta, manejo de efeitos adversos e a compreensão de que o ganho se sustenta enquanto o tratamento e os hábitos se sustentam.
Para fortalecer a base clínica que sustenta esse tipo de decisão, o curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber reúne o essencial da medicina esportiva para a prática médica.
Referências (ABNT)
JASTREBOFF, A. M. et al. Tirzepatide once weekly for the treatment of obesity. New England Journal of Medicine, v. 387, n. 3, p. 205–216, 2022. DOI: 10.1056/NEJMoa2206038.
JASTREBOFF, A. M. et al. Tirzepatide for obesity treatment and diabetes prevention. New England Journal of Medicine, v. 392, n. 10, 2025. DOI: 10.1056/NEJMoa2410819.
WILDING, J. P. H. et al. Once-weekly semaglutide in adults with overweight or obesity. New England Journal of Medicine, v. 384, n. 11, p. 989–1002, 2021. DOI: 10.1056/NEJMoa2032183.
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Autor
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Formação em medicina pela UCES. Médica auxiliar em clubes de rugby e hóquei, certificada pelo World Rugby Passport e União de Rugby de Buenos Aires. Praticante de CrossFit, Hyrox, corridas. Escreve sobre medicina do esporte unindo a vivência de campo, o treino e a evidência científica.
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