Reparo de Menisco em Atletas: Vale a Pena? Entenda o Retorno ao Esporte e os Resultados Clínicos

Saiba se o reparo de menisco isolado garante o retorno ao esporte em atletas profissionais e amadores. Confira taxas de sucesso, falha e tempo de recuperação.
4–6 minutos

Contextualizando

Quando um atleta sofre uma lesão no joelho, a primeira pergunta é quase sempre: “Quando poderei voltar a jogar?”. Durante muito tempo, a meniscectomia parcial (remoção de parte do menisco) foi a escolha preferida por permitir um retorno rápido quando um atleta lesionava o menisco lateral ou medial. No entanto, hoje sabemos que “tirar o menisco” pode custar caro para a saúde da cartilagem a longo prazo.

Uma revisão sistemática publicada no jornal Knee Surgery, Sports Traumatology, Arthroscopy (KSSTA) da Sociedade Europeia de Traumatologia do Esporte, Cirurgia de Joelho e Artroscopia (ESSKA), analisa se o reparo de menisco (preservar o tecido através de sutura) é uma opção viável e eficaz especificamente para quem pratica esportes em alto nível.

O Menisco: Anatomia e Tipos de Lesão

Para entender o estudo, precisamos primeiro entender o que é o menisco. O joelho possui dois meniscos: o medial (interno) e o lateral (externo). Eles são estruturas de fibrocartilagem em formato de “C” ou meia-lua que ficam entre o fêmur e a tíbia.

Funções principais:

  • Amortecimento: Absorvem o impacto durante saltos e corridas.
  • Estabilidade: Ajudam o fêmur a se “encaixar” melhor na tíbia.
  • Lubrificação: Espalham o líquido sinovial pela articulação, protegendo a cartilagem.

A “Zona Vermelha” e a Cicatrização

A anatomia vascular do menisco é o que define se ele pode ser reparado ou não. O menisco é dividido em zonas:

  1. Zona Vermelha-Vermelha (Periférica): Possui muito suprimento sanguíneo. Lesões aqui têm alto potencial de cicatrização se forem costuradas.
  2. Zona Vermelha-Branca (Transição): Suprimento sanguíneo limitado.
  3. Zona Branca-Branca (Central): Sem vasos sanguíneos. Se o menisco rasgar aqui, ele raramente cicatriza, sendo necessária a remoção da parte solta (meniscectomia).

Tipos Comuns de Lesão Citados no Estudo:

  • Alça de Balde (Bucket-handle): Uma lesão longitudinal onde a parte rasgada se desloca para o centro do joelho, podendo “travar” a articulação.
  • Lesões Horizontais (Cleavage): O menisco se divide em uma camada superior e uma inferior.
  • Lesões Radiais: O rasgo vai do centro para a periferia, “cortando” a capacidade do menisco de distribuir carga.
  • Lesões Longitudinais/Verticais: Frequentemente associadas a traumas esportivos agudos e são as melhores candidatas ao reparo.

Visão geral do estudo

Trata-se de uma Revisão Sistemática, que compilou dados de 28 estudos diferentes, totalizando 664 pacientes. O objetivo central foi avaliar os resultados específicos para a prática esportiva após o reparo de lesões isoladas de menisco (ou seja, casos onde não havia outras lesões graves associadas, como rompimento de ligamento cruzado).

A qualidade dos estudos foi avaliada pelo Coleman Methodology Score (CMS), obtendo uma média de 69.7 ± 8.3, o que é considerado uma qualidade metodológica moderada.

Métodos

A equipe de pesquisadores realizou uma busca eletrônica nas bases de dados MEDLINE e Cochrane em maio de 2016. Os critérios de inclusão focaram em:

  • Estudos que relataram retorno ao esporte ou escalas de atividade (Tegner, Lysholm, IKDC).
  • Reparos de menisco isolados e artroscópicos.
  • Amostras com pelo menos 5 pacientes.

Perfil da amostra:

  • Idade média: 26 ± 7.2 anos.
  • Gênero: 71% dos pacientes eram homens.
  • Nível de atividade: Dividido entre atletas profissionais e populações de nível misto (recreativos/amadores).

Resultados: O que os números dizem?

Os dados mostram que o reparo de menisco apresenta excelentes índices de melhora funcional e retorno às atividades.

1. Retorno ao Esporte (RTS)

A taxa global de retorno ao esporte no nível pré-lesão foi de 89%.

  • Atletas profissionais: 86% conseguiram voltar ao alto rendimento.
  • Atletas amadores/misto: 90% retornaram ao nível anterior.
  • Tempo de espera: O retorno médio variou entre 4.3 e 6.5 meses após a cirurgia.

2. Melhora Funcional

As escalas de dor e função mostraram saltos significativos:

  • Escala Tegner (Nível de atividade): Subiu de uma média pré-operatória de 3.5 ± 0.3 para 6.2 ± 0.8 após a cirurgia. Curiosamente, este valor pós-operatório é muito próximo do nível que os atletas tinham antes de se machucarem (6.3 ± 1.1).
  • Escala Lysholm: Melhorou de 58.8 ± 9.6 para 84.5 ± 8.1.
  • Escala IKDC: Evoluiu de 56.5 ± 12.8 para 86.8 ± 3.8.

3. Taxa de Falha

A taxa de falha (necessidade de uma nova cirurgia no mesmo menisco) foi de 21% no total. Um dado interessante é que a taxa de falha foi significativamente menor nos atletas profissionais (9%) do que nos atletas amadores (22%).

Conclusões

O estudo conclui que o reparo isolado de menisco resulta em resultados específicos para o esporte de “bons a excelentes”. A preservação do menisco não impede o retorno ao esporte de alto nível e oferece uma proteção maior contra a degeneração da articulação (artrose) do que a simples remoção do tecido.

Aplicações práticas: O que isso muda no consultório?

Para o médico e para o atleta, o insight principal é que a preservação meniscal deve ser a prioridade. Embora a reabilitação seja mais lenta e rigorosa do que na meniscectomia, a taxa de retorno ao esporte é muito alta (quase 90%).

O fato de profissionais falharem menos (9%) sugere que protocolos de reabilitação mais intensivos e supervisionados, comuns no ambiente profissional, podem ser o segredo para o sucesso da cicatrização do menisco.

Limitações e vieses

Apesar dos bons resultados, o leitor deve estar atento a alguns pontos:

  • Nível de evidência: A maioria dos estudos incluídos era de nível IV (série de casos), o que limita conclusões definitivas.
  • Heterogeneidade: As técnicas cirúrgicas (diferentes tipos de sutura) e os protocolos de fisioterapia variaram entre os estudos.
  • Definição de falha: O estudo considerou “falha” apenas casos que precisaram de nova cirurgia, o que pode subestimar falhas clínicas (pacientes que continuam com dor, mas não operam novamente).

Principais Insights

  • Alta Eficácia: 89% dos atletas voltam ao nível pré-lesão.
  • Segurança no Profissionalismo: Atletas de elite têm taxas de falha menores (apenas 9%).
  • Tempo de Recuperação: Prepare o cronômetro para cerca de 4 a 6 meses de reabilitação.
  • Preservação é Chave: O reparo melhora a função e protege o joelho a longo prazo contra o desgaste.
  • Resultados Reais: A atividade pós-cirurgia é estatisticamente comparável ao nível que o atleta tinha antes da lesão.

Referências

  1. Eberbach H, Zwingmann J, Hohloch L, Bode G, Maier D, Niemeyer P, Südkamp NP, Feucht MJ. Sport-specific outcomes after isolated meniscal repair: a systematic review. Knee Surgery, Sports Traumatology, Arthroscopy. 2017. DOI: 10.1007/s00167-017-4463-4.

por Luiz Guilherme Assumpção | @luizassump.med

Corroborado por: Dr. João Diniz | CRM-SP 255.027

Autor

  • Luiz Guilherme Assumpção

    Acadêmico de medicina na Universidade Iguaçu
    Secretário acadêmico da Liga Acadêmica de Medicina do Esporte e do Exercício (LMEEX-UNIG)
    Filiado Comitê Acadêmico da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (CASBMEE)
    Embaixador oficial MedEsporte Papers

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