Introdução ao Tema
No contexto do desporto e da preparação física, a potência muscular – a capacidade de gerar força em alta velocidade – é um determinante crítico do desempenho. O treino de resistência (TR) é a principal ferramenta para o seu desenvolvimento. Paralelamente, a suplementação nutricional, especificamente com cafeína, tem sido extensivamente estudada como um auxílio ergogênico.
Embora meta-análises anteriores tenham confirmado que a cafeína melhora a força máxima (1RM), seu impacto em métricas de potência, como velocidade de movimento (MV) e produção de potência (MPO) em cargas submáximas, era menos claro. Uma meta-análise de 2020 sobre o tema tinha limitações notáveis, como a inclusão de suplementos multi-ingredientes (ex: energéticos), o que dificultava isolar o efeito da cafeína.
Esta nova revisão sistemática e meta-análise (Xiao et al., 2025) surge para preencher essa lacuna, sintetizando os estudos mais recentes que usaram apenas cafeína isolada.
Objetivo do Estudo
O objetivo principal foi examinar os efeitos da ingestão aguda de cafeína na velocidade do movimento (MV) e na produção de potência média (MPO) durante exercícios de resistência.
Como objetivo secundário, os pesquisadores buscaram explorar os fatores moderadores que poderiam influenciar essa resposta, incluindo: sexo, dose de cafeína, consumo habitual, grupo muscular (superior vs. inferior) e a carga (intensidade) do exercício.
Metodologia
- Tipo de Estudo: Revisão sistemática e meta-análise. O estudo seguiu as diretrizes PRISMA e foi registrado no PROSPERO.
- População: Foram incluídos 12 estudos, totalizando 230 participantes (N=230). Os participantes eram adultos saudáveis (20-29 anos), classificados como treinados em resistência ou recreativamente ativos.
- Intervenção: Os estudos utilizaram cafeína anidra (isolada, não em bebidas energéticas), administrada principalmente em cápsulas ou forma líquida.
- As doses variaram de 3 a 12 mg/kg.
- O timing mais comum foi 60 minutos antes do exercício.
- Grupo Controle/Placebo: O desenho dos estudos incluídos era crossover (cada participante testa ambas as condições), cego (único ou duplo) e controlado por placebo (ex: maltodextrina, farinha).
- Desfechos Primários e Secundários: Os desfechos analisados foram a Velocidade Média (MV) e a Potência Média (MPO) durante exercícios de resistência (como supino e agachamento) com um número fixo de repetições.
- Ferramentas Estatísticas: Foi utilizado um modelo de efeitos aleatórios para calcular a Diferença Média Padronizada (SMD, ou g de Hedges) com Intervalos de Confiança (IC) de 95%. A heterogeneidade foi avaliada pelo I². Para as análises de subgrupo, a significância da diferença foi ajustada (correção de Bonferroni) para p < 0.01.
- Limitações Metodológicas (do Artigo): A avaliação de risco de viés (Cochrane) classificou todos os 12 estudos incluídos como apresentando “algumas preocupações” (some concerns).
Resultados (Qualitativos + Quantitativos)
A meta-análise demonstrou que a ingestão aguda de cafeína melhorou significativamente ambos os desfechos de potência.
- Velocidade Média (MV): A cafeína produziu uma melhora significativa na MV com um tamanho de efeito (SMD) de 0.42 (IC 95%: 0.19–0.65, p<0.05). Este é considerado um efeito de magnitude “pequena”. A heterogeneidade entre os estudos foi alta (I² = 85%).
- Potência Média (MPO): A cafeína também melhorou significativamente a MPO, com um SMD de 0.21 (IC 95%: 0.12–0.30, p<0.05). Este também é um efeito “pequeno”. A heterogeneidade aqui foi baixa (I² = 14%).
A análise de subgrupos para a Velocidade Média (MV) revelou os achados mais importantes:
- Sexo: O efeito foi significativamente maior em homens (SMD 0.56; IC 95%: 0.43-0.69) do que em mulheres (SMD 0.22; IC 95%: 0.06-0.40). A diferença entre os sexos foi estatisticamente significativa (p<0.01).
- Consumo Habitual: Este foi o moderador mais forte. Indivíduos com baixo consumo (<3 mg/kg/dia) tiveram um benefício “grande” (SMD 0.87; IC 95%: 0.72-1.02). Consumidores habituais (≥3 mg/kg/dia) tiveram um benefício “pequeno” (SMD 0.21; IC 95%: 0.11-1.02). A diferença foi altamente significativa (p<0.01).
- Sem Diferença: Não foram encontradas diferenças estatísticas significativas (p>0.01) entre diferentes doses, grupos musculares (superiores vs. inferiores) ou cargas (% de 1RM). A cafeína melhorou a MV em todas as condições testadas.
Para a Potência Média (MPO), embora a cafeína tenha sido eficaz, nenhuma das análises de subgrupo (sexo, dose, consumo, etc.) mostrou diferenças estatisticamente significativas entre os grupos (todos p>0.05).
Interpretação dos Resultados
Os números desta meta-análise confirmam que a cafeína é um ergogênico eficaz para potência muscular, não se limitando apenas à força máxima.
Os tamanhos de efeito “pequenos” (SMD 0.21 a 0.42) são clinicamente relevantes, pois são ligeiramente maiores do que os efeitos tipicamente relatados para força máxima (1RM), que meta-análises anteriores situam em torno de SMD 0.17–0.20. Isso sugere que a cafeína pode ter um impacto mais pronunciado na velocidade do que na força pura.
Os mecanismos fisiológicos são multifatoriais. A cafeína age como um antagonista dos receptores de adenosina, o que pode diminuir a percepção de esforço e dor. Mais importante para a potência, ela parece aumentar a excitabilidade do trato corticoespinhal, melhorando o recrutamento de unidades motoras e a frequência de disparo. Mecanismos periféricos, como a melhoria da função das bombas de Na+/K+ e da liberação de cálcio no retículo sarcoplasmático, também podem otimizar o acoplamento excitação-contração.
A principal limitação do estudo é a população da amostra: os achados são robustos para homens jovens e treinados, mas não podem ser generalizados para mulheres (devido ao baixo número de estudos), idosos ou sedentários. Além disso, fatores genéticos (polimorfismos CYP1A2) que afetam o metabolismo da cafeína não foram analisados.
Aplicação Prática para Médicos e Atletas
A tradução destes achados para a prática clínica e desportiva é direta:
- Para quem indicar? A suplementação aguda (3-6 mg/kg) é uma estratégia válida para atletas que buscam melhorar a potência e a velocidade nas sessões de treino ou competição.
- Quem se beneficia mais? O maior benefício (na velocidade) é esperado em homens (SMD 0.56) e, crucialmente, em indivíduos com baixo consumo habitual (<3 mg/kg/dia), que experimentam um efeito “grande” (SMD 0.87).
- E os consumidores habituais? Indivíduos com alto consumo (≥3 mg/kg/dia) ainda se beneficiam, mas o efeito é significativamente atenuado (SMD 0.21). Isso sugere que a tolerância, provavelmente via up-regulation de receptores de adenosina, reduz o impacto ergogênico.
- Dose e Efeitos Colaterais: Doses de 3-6 mg/kg parecem ser o ponto ideal. Embora doses mais altas (>6 mg/kg) tenham mostrado um efeito numérico ligeiramente maior na MV (SMD 0.78), estudos anteriores relatam uma incidência muito alta de efeitos colaterais com 9-12 mg/kg, incluindo taquicardia/palpitações (17-83%), ansiedade/nervosismo (13-83%) e aumento da diurese (25-62%).
- Cargas: A cafeína foi eficaz em todas as zonas de carga (baixa <30% 1RM, moderada 30-70% 1RM, e alta >70% 1RM). Isso significa que ela pode auxiliar tanto em treinos focados em velocidade (cargas leves) quanto em treinos de força-potência (cargas moderadas a altas).
Checklist Operacional para Aplicação
- Anamnese: Avaliar o consumo habitual de cafeína do paciente/atleta.
- Estratégia: Se o consumo for baixo (<3 mg/kg/dia), o efeito esperado é máximo. Se for alto (≥3 mg/kg/dia), o efeito será atenuado. (Não foi avaliado se um “washout” restaura o efeito).
- Dose Recomendada: Iniciar com 3-6 mg/kg de peso corporal.
- Timing: Administrar 60 minutos antes da sessão de treino de potência.
- Monitoramento: Avaliar a resposta de desempenho e monitorar ativamente efeitos adversos (ansiedade, palpitações, qualidade do sono).
Conclusão
Esta meta-análise de 2025 solidifica a evidência de que a ingestão aguda de cafeína é um auxílio ergogênico eficaz para melhorar a velocidade de movimento (MV) e a produção de potência (MPO) durante o exercício de resistência.
O efeito ergogênico na velocidade é dependente do perfil do indivíduo: os maiores benefícios são observados em homens e em indivíduos com baixo consumo habitual de cafeína (<3 mg/kg/dia). Notavelmente, o benefício ocorre em todo o espectro de cargas, tornando a cafeína uma ferramenta útil para diversas fases do treino de potência.
Referências
doi: 10.3389/fnut.2025.1686283
Autor
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Dr. Guilherme Alfonso Vieira Adami
CRM-SP 254738Sou médico residente em Medicina do Esporte e do Exercício pela Universidade de São Paulo (USP), com atuação voltada para avaliação cardiovascular do atleta, fisiologia do exercício e medicina baseada em evidência aplicada ao esporte.
Atuo profissionalmente com métodos gráficos de avaliação cardiovascular, realizando teste ergométrico, eletrocardiograma e monitorização ambulatorial da pressão arterial (MAPA) em serviços de diagnóstico como Grupo A+ e dr.consulta, além de atendimento em consultório privado.
Também sou médico da Seleção Brasileira de Rugby em Cadeira de Rodas, acompanhando atletas paralímpicos em treinamentos e competições.
Sou fundador da MedEsporte Papers, uma plataforma educacional dedicada à produção e divulgação de conteúdo científico em medicina do esporte, com foco na tradução da literatura científica para a prática clínica.
Meu trabalho é voltado para análise crítica da literatura científica, educação médica e aplicação prática da ciência do exercício na medicina.