Magnésio e performance esportiva: o que a suplementação realmente faz pelos atletas

Introdução

O magnésio é um dos minerais mais abundantes do corpo humano e participa de mais de 300 reações metabólicas essenciais. Está envolvido em processos como produção de energia (ATP), contração muscular, condução nervosa, metabolismo da glicose e regulação do tônus vascular, sendo fundamental para a homeostase metabólica e cardiovascular.

Dietas inadequadas, uso de diuréticos ou perda excessiva de eletrólitos pelo suor podem reduzir os níveis séricos e intracelulares do mineral, favorecendo o desenvolvimento de hipomagnesemia, condição associada a cãibras e fraqueza muscular.

Fontes alimentares ricas em magnésio incluem cereais, feijões, nozes e vegetais verdes (o magnésio é o componente central da clorofila).

Em atletas e indivíduos fisicamente ativos, o interesse pela suplementação de magnésio tem aumentado, impulsionado por seu teórico potencial na melhora do desempenho, na redução da fadiga e na recuperação pós-exercício. No entanto, a evidência científica é heterogênea, e o uso indiscriminado pode não trazer os benefícios esperados.

Figura 1. Vias de absorção e excreção de Mg. (Fonte: Fatima G et al. Cureus. 2024;16(10):e71392.)

Magnésio e desempenho esportivo

A relação entre magnésio e desempenho físico vem sendo estudada há décadas. Pesquisas indicam que a deficiência de magnésio aumenta a demanda de oxigênio para o mesmo esforço submáximo, reduzindo a eficiência energética.

Além disso, o magnésio participa da glicólise e do metabolismo do lactato — determinantes diretos da performance e da recuperação muscular. Durante o exercício intenso, parte do magnésio sérico é redistribuída para os tecidos, o que pode reduzir temporariamente a concentração plasmática.

Figura 2. Representação esquemática dos fluxos de Mg2+ durante a atividade física. Troca e regulação de magnésio do plasma para diferentes tecidos durante o exercício. Mg2+ = Magnésio. (Fonte: Tarsitano MG et al. (2024) J Transl Med 22:629.)

Suplementação de magnésio: o que dizem as evidências

Estudos clínicos e revisões sistemáticas recentes avaliaram o impacto da suplementação de magnésio sobre dor muscular, recuperação e marcadores metabólicos em atletas de diferentes modalidades.

Benefícios potenciais observados

  • Redução do dano muscular e da dor pós-exercício (DOMS): alguns ensaios apontam melhora subjetiva da recuperação após exercícios excêntricos.
  • Melhora de biomarcadores mitocondriais: aumento de ATP e melhor relação lactato/piruvato em estudos experimentais.
  • Redução de inflamação e estresse oxidativo: o magnésio modula vias inflamatórias e pode atenuar a produção de radicais livres induzida por esforço intenso.
  • Redução nos níveis de marcadores sanguíneos de dano muscular: mioglobina, CK.

Apesar desses efeitos fisiológicos plausíveis, os ganhos em desempenho absoluto (tempo, repetições, carga máxima) são pequenos e frequentemente sem significância estatística.

Limitações da evidência

  • Amostras pequenas e heterogêneas (em geral <100 participantes).
  • Diferenças nas formas químicas e doses utilizadas (óxido, citrato, glicinato, etc.).
  • Curta duração dos protocolos (2 a 6 semanas).
  • Diferentes tipos de esportes
  • Falta de controle do estado basal de Mg
  • Escassez de estudos em mulheres e atletas de elite.

Portanto, embora o magnésio possa auxiliar na recuperação e na percepção de esforço, não há comprovação robusta de efeito ergogênico direto em atletas já bem nutridos.

Tipos e formas de magnésio mais eficazes

A escolha da forma química de magnésio influencia diretamente a absorção intestinal e a tolerabilidade gastrointestinal.

  • Formas orgânicas (melhor absorção): citrato, glicinato, aspartato e lactato — associadas a maior biodisponibilidade e menor risco de diarreia.
  • Formas inorgânicas (menor absorção): óxido, carbonato e cloreto — mais baratas, mas com maior incidência de desconforto abdominal.

Doses recomendadas e absorção

A Ingestão Diária Recomendada (IDR) de magnésio para adultos é de cerca de 400 mg/dia para homens e 310 mg/dia para mulheres. Como a absorção média é de apenas 30% da dose ingerida, recomenda-se dividir a suplementação em 2 a 3 tomadas diárias.

Para a maioria dos adultos saudáveis, a dose suplementar segura é de até 350 mg/dia de magnésio elementar. Doses maiores podem ser usadas em casos clínicos específicos, sob supervisão médica.

Efeitos adversos, contraindicações e segurança

A suplementação de magnésio é considerada segura, mas não isenta de efeitos colaterais.

Efeitos adversos mais comuns

  • Diarreia e desconforto abdominal, especialmente com óxido e carbonato.
  • Náusea e cólicas leves em doses altas.

Situações que exigem cautela

  • Insuficiência renal: risco de acúmulo e hipermagnesemia, que pode causar fraqueza, bradicardia e hipotensão.
  • Interações medicamentosas: o magnésio pode reduzir a absorção de antibióticos (quinolonas e tetraciclinas), bisfosfonatos e certos relaxantes musculares.
  • Doenças neuromusculares (ex: miastenia gravis): contraindicado devido ao risco de piora da transmissão neuromuscular.

No uso prolongado, recomenda-se monitorar a função renal e ajustar a dose em pacientes com risco aumentado de retenção.

Quando considerar a suplementação?

A suplementação de magnésio deve ser individualizada, com base em avaliação clínica e nutricional.

Indicações práticas

  • Atletas com ingestão dietética insuficiente de magenesio (dietas restritivas, baixo consumo de vegetais e oleaginosas) ou com perdas perdas elevadas pelo suor.
  • Considerar, com cautela, em atletas com sintomas sugestivos (cãibras persistentes, fadiga inexplicada) quando outras causas foram excluídas e/ou níveis marginais na análise laboratorial.

Avaliação laboratorial

O magnésio sérico não reflete adequadamente o conteúdo corporal total, pois menos de 1% do magnésio corporal está no plasma. Assim, valores normais não excluem deficiência intracelular.
A avaliação deve incluir histórico alimentar, sintomas clínicos e, se possível, a excreção urinária de 24 horas.

Conclusão

O magnésio é essencial para o metabolismo energético, a função muscular e a recuperação pós-exercício. Em atletas, sua suplementação pode ser benéfica em situações de deficiência marginal ou alta demanda fisiológica, reduzindo dor muscular e otimizando a recuperação.

Entretanto, os efeitos sobre o desempenho esportivo são modestos e inconsistentes. Portanto, o uso de suplementos deve ser guiado por critérios clínicos e não como estratégia ergogênica universal.

Profissionais de saúde, nutricionistas e educadores físicos devem orientar a suplementação de forma personalizada, priorizando formas orgânicas bem absorvidas, doses seguras e monitoramento regular dos níveis de magnésio.

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Autor

  • Ingrid Johana Otero Muriel

    Médica Residente de Medicina do Exercício e do Esporte pelo Hospital das Clínicas da USP. O esporte me acompanha desde os meus primeiros passos e segue revelando, a cada dia, seu poder de transformar vidas.

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