Peptídeos e Fertilidade Masculina: Quais são os Riscos?

Entenda se peptídeos podem afetar a fertilidade masculina, quais os riscos potenciais e o que a evidência científica mostra.
Man in distress sitting on bed in sunlit room, hand on face.

O interesse por peptídeos terapêuticos cresceu de forma expressiva nos últimos anos, e junto com ele cresceu também uma narrativa bastante conveniente: a de que peptídeos seriam alternativas “mais seguras” que hormônios tradicionais, com menor impacto sobre o eixo reprodutivo.

A pergunta da vez é: o uso de peptídeos pode prejudicar a fertilidade masculina?

A resposta honesta é: depende — e em muitos casos, simplesmente não sabemos com certeza suficiente. Mas antes de discutir riscos, vale entender algo que raramente aparece nessa conversa: peptídeos não são apenas potenciais disruptores da fertilidade masculina — eles são peças centrais da fisiologia reprodutiva. O eixo que sustenta a espermatogênese é, em grande parte, dependente de peptídeos. E alguns peptídeos exógenos têm potencial benefício documentado sobre parâmetros seminais.

Se quer aprofundar seus conhecimentos sobre os mecanismos, aplicações clínicas e limitações da evidência dos peptídeos utilizados na medicina do esporte, conheça o curso Peptídeos Terapêuticos e na Performance da MedEsporte Papers.

Peptídeos e fertilidade masculina: a fisiologia antes do julgamento

A espermatogênese depende de um eixo hormonal coordenado, e boa parte dessa coordenação é feita por peptídeos endógenos.

Os neurônios KNDy — que secretam kisspeptina, neuroquinina B e dinorfina A — controlam a liberação pulsátil de GnRH no hipotálamo, em ciclos de aproximadamente 60 a 90 minutos. O GnRH estimula a secreção hipofisária de LH e FSH, que atuam em alvos testiculares distintos e complementares.

FSH atua nas células de Sertoli, promovendo a expansão e diferenciação de células germinativas pré-meióticas e regulando a proliferação espermatogonial. Camundongos sem FSH ou seu receptor são férteis, mas apresentam número reduzido de células germinativas — indicando que o FSH otimiza a produção espermática, mesmo não sendo absolutamente indispensável.

LH estimula as células de Leydig a produzir testosterona — cerca de 3 a 10 mg diários — que é essencial para a formação da barreira hemato-testicular, conclusão da meiose e espermiação. Animais sem receptores androgênicos não conseguem gerar células germinativas pós-meióticas e são inférteis.

As células de Sertoli também secretam peptídeos com funções regulatórias próprias: hormônio antimülleriano nas células imaturas e inibina B nas maduras, esta última responsável pelo feedback negativo sobre o FSH. As células de Leydig produzem peptídeo 3 insulina-like de forma independente das gonadotrofinas. E as próprias células de Sertoli facilitam a geração de peptídeos biologicamente ativos — F5, NC1 e LG3/4/5 — que modulam a comunicação com células germinativas ao longo do epitélio seminífero, sustentando a espermatogênese em nível local.

GH, IGF-1 e o eixo reprodutivo: uma relação mais estreita do que parece

Esse ponto merece atenção especial para quem prescreve secretagogos de GH na prática clínica.

O GH e o IGF-1 têm interconexões significativas com o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal — atuam em múltiplos níveis, incluindo neurônios GnRH, células gonadotróficas e diretamente nos testículos. IGF-1 demonstrou aumentar concentração, volume e motilidade de espermatozoides em estudos clínicos. In vitro, o IGF-1 melhora motilidade progressiva e vitalidade de espermatozoides humanos, com correlação positiva com capacidade fertilizante. Em homens com síndrome de Laron — modelo clínico de deficiência de IGF-1 —, a suplementação com IGF-1 aumentou volume testicular, níveis de gonadotrofinas e testosterona.

Isso significa que, ao contrário do que a discussão habitual sobre peptídeos e fertilidade sugere, a modulação do eixo GH/IGF-1 pode ter efeitos positivos sobre a função reprodutiva em contextos de deficiência. A questão clínica relevante não é apenas “esse peptídeo suprime o eixo?”, mas também “em que contexto e em qual direção ele o age?”

Peptídeos no plasma seminal: modulação direta da função espermática

O plasma seminal humano contém peptídeos bioativos com efeitos diretos sobre a função espermática — e alguns têm aplicações terapêuticas em investigação ativa.

FPP (peptídeo promotor de fertilização), tripeptídeo produzido pela próstata, estimula a capacitação espermática e inibe a perda acrossomal espontânea em células já capacitadas — mantendo alta capacidade fertilizante por mais tempo via modulação da via adenilato ciclase/AMPc. Disfunção prostática resulta em produção diminuída de FPP e aumento de variantes menos bioativas, o que pode contribuir diretamente para infertilidade masculina. A redução na disponibilidade de FPP, adenosina, calcitonina e angiotensina II — ou defeitos em seus receptores — representa um mecanismo de subfertilidade ainda pouco reconhecido na prática clínica.

Calcitonina e angiotensina II estimulam significativamente a capacidade de penetração espermática, com efeitos sinérgicos em combinações de baixa concentração — sugerindo atuação na mesma via de sinalização. Dados in vitro demonstraram que combinações desses peptídeos inibiram a perda acrossomal espontânea por pelo menos 3 horas em amostras de pacientes de clínicas de infertilidade, com respostas similares às de doadores normais — o que abre perspectiva terapêutica real em reprodução assistida.

Peptídeos alimentares: um dado que a discussão sobre performance ignora

Peptídeos derivados de alimentos com alto teor de arginina — como hidrolisados de ostra e peptídeos de perilla roxa — demonstraram promover a recuperação da espermatogênese em modelos de dano testicular induzido por bussulfano. O mecanismo proposto envolve promoção da proliferação de espermatogônias e melhora da recuperação da barreira hemato-testicular nas células de Sertoli.

São dados pré-clínicos, com as limitações habituais de translação. Mas reforçam a ideia de que a relação entre peptídeos e fertilidade masculina é muito mais bidirecional do que a narrativa de risco costuma sugerir.

Secretagogos de GH: o grupo mais utilizado na prática

Ipamorelina, GHRP-2, GHRP-6, CJC-1295 e Sermorelina estimulam a liberação de GH e elevam IGF-1 — e como vimos acima, o IGF-1 tem efeitos positivos documentados sobre parâmetros seminais em contextos de deficiência.

Não existem evidências consistentes demonstrando supressão clinicamente relevante do eixo gonadal por esses agentes, quando utilizados de forma isolada. O que é menos discutido é que, em cenários de deficiência de GH ou IGF-1, a normalização desses níveis pode ser favorável à função reprodutiva.

Dito isso, os estudos disponíveis têm amostras pequenas, acompanhamento curto e raramente avaliam espermograma de forma sistemática. Vamos lembrar que a ausência de sinal de alerta não é equivalente a segurança estabelecida.

BPC-157 e TB-500: recuperação com incógnitas

Amplamente utilizados para recuperação de lesões e modulação inflamatória, esses peptídeos costumam ser apresentados como compostos com perfil de segurança favorável. Esse “perfil favorável” significa, na prática, ausência de sinal de dano em modelos animais e relatos informais — não dados de alta qualidade com desfechos reprodutivos. Não há base para afirmar que sejam prejudiciais à fertilidade, assim como também não há para garantir que sejam seguros nesse aspecto.

A distinção que mais importa clinicamente

Vale sistematizar o que o conjunto de dados disponível permite afirmar:

Peptídeos endógenos do plasma seminal e do eixo HHG são constitutivos da fisiologia reprodutiva masculina — e sua deficiência ou disfunção pode contribuir para infertilidade. Alguns peptídeos exógenos, incluindo frações alimentares e IGF-1 em contextos específicos, têm potencial benéfico sobre parâmetros seminais. Os peptídeos sintéticos mais utilizados na medicina não demonstraram suprimir o eixo gonadal de forma direta quando usados isoladamente.

O risco real, na maioria dos casos, está em outro lugar.

O maior risco geralmente não está no peptídeo

Na prática clínica, quando encontramos alterações de fertilidade em homens que usam protocolos de performance, o fator causal raramente é o peptídeo isolado. O cenário típico envolve:

  • uso concomitante de testosterona exógena com supressão do eixo HHG;
  • ciclos de esteroides anabolizantes sem acompanhamento adequado;
  • uso de hCG em doses suprafisiológicas ou análogos de GnRH de forma inadequada;
  • automedicação com compostos de procedência duvidosa;
  • múltiplas substâncias em uso simultâneo, tornando impossível isolar o efeito de qualquer uma delas.

Nesses casos, atribuir a infertilidade ao peptídeo — ou exonerá-lo de qualquer contribuição — é metodologicamente inviável.

Os erros mais comuns na avaliação clínica

“É natural, então é seguro.” Peptídeos atuam em vias de sinalização biológica complexas — e como vimos, algumas dessas vias são centrais para a reprodução masculina. Estimular mecanismos fisiológicos não garante ausência de efeitos adversos.

Extrapolar estudos animais para recomendação clínica. Resultado em modelo murino justifica hipótese, não prescrição.

Confundir melhora hormonal com melhora da fertilidade. Elevar IGF-1 pode ter efeito positivo sobre espermatogênese em contextos de deficiência — mas isso não é o mesmo que afirmar benefício reprodutivo universal para qualquer elevação de IGF-1. São desfechos que precisam ser avaliados diretamente.

Ignorar fatores de confusão. Em qualquer relato de alteração reprodutiva em usuário de peptídeos, a primeira pergunta deve ser: o que mais estava sendo utilizado?

O posicionamento mais adequado para o clínico

O estado atual da literatura permite uma leitura mais complexa do que o debate habitual sugere:

  • Peptídeos são constitutivos da fisiologia reprodutiva masculina — déficits endógenos contribuem para infertilidade;
  • Alguns peptídeos exógenos têm potencial benéfico sobre parâmetros seminais em contextos específicos;
  • Os principais peptídeos sintéticos utilizados na medicina da performance não demonstraram suprimir o eixo gonadal de forma direta e isolada;
  • A segurança reprodutiva de longo prazo da maioria desses compostos não está estabelecida;
  • O contexto de politerapia é onde o risco real se concentra.

O posicionamento mais honesto é orientar com base nessa incerteza, monitorar parâmetros reprodutivos quando clinicamente relevante e manter ceticismo saudável diante de afirmações absolutas — em qualquer direção.

Se você deseja entender quais peptídeos têm evidência clínica relevante, quais permanecem experimentais e como avaliar riscos hormonais e reprodutivos de forma crítica, conheça o Curso de Peptídeos Terapêuticos e de Performance da MedEsporte Papers.


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Autor

  • Caio César Demore

    Médico pela Universidade da Região de Joinville - UNIVILLE.
    Residente em Medicina do Esporte pela UCS

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