Concussão sem perda de consciência: por que ela é a regra, não a exceção

Um jogador sofre um impacto, cai, levanta-se em segundos e retorna à partida. Não houve desmaio, o jogo seguiu, e a leitura imediata é de que nada aconteceu. Mas será que nada aconteceu?

Concussão sem perda de consciência: regra, não exceção

Em menos de 10% das concussões ocorre perda de consciência. A ampla maioria dos atletas concussionados permanece consciente e, muitas vezes, segue em campo sem que a lesão seja percebida. A concussão sem perda de consciência é a apresentação mais frequente da lesão e também a que mais passa despercebida, precisamente porque não derruba o atleta.

Por décadas, o jogador que seguia lúcido e jogando não era retirado de campo, uma vez que a perda de consciência era tomada como o sinal que confirmava o diagnóstico. Esse critério foi abandonado. O consenso internacional atual define a concussão como uma lesão cerebral traumática leve induzida por forças biomecânicas, que pode ocorrer com ou sem perda de consciência.

Hoje a regra é clara: if in doubt, sit them out (na dúvida, tira de campo)

O que define uma concussão hoje?

O diagnóstico é clínico. Não existe exame de imagem que confirme uma concussão típica, porque a tomografia e a ressonância costumam vir normais. O que caracteriza o quadro é o surgimento de um ou mais sinais e sintomas após um trauma na cabeça ou no corpo com transmissão de força ao cérebro:

  • cefaleia ou sensação de pressão na cabeça
  • tontura e alterações do equilíbrio
  • confusão mental ou desorientação
  • amnésia anterógrada ou retrógrada
  • sensação de estar lento ou “no automático”
  • dificuldade de concentração
  • náuseas
  • fotofobia ou fonofobia
  • labilidade emocional (choro fácil, irritabilidade ou sensação de estar mais emotivo que o normal)
  • sintomas visuais

Quando a perda de consciência acontece, costuma ser breve. Ela reforça a suspeita, mas não é necessária para fechar o diagnóstico e, sozinha, não confirma nada.

Concussão sem perda de consciência: regra, não exceção

Por que dá para ter concussão sem perder a consciência?

O ponto que confunde clínico e atleta é este: se o cérebro sofreu, por que a pessoa não apaga? A resposta está no mecanismo.

A concussão nem sempre vem de uma pancada direta na cabeça. Um impacto no corpo pode gerar aceleração rotacional do crânio, e esse movimento cisalhante estira os axônios, os prolongamentos dos neurônios que transmitem o sinal elétrico. O estiramento não rompe a estrutura na maioria dos casos, mas desencadeia uma cascata neurometabólica: liberação descontrolada de glutamato, fluxo desordenado de íons e um esforço extra das bombas de sódio e potássio para restaurar o equilíbrio. O consumo de energia dispara enquanto o fluxo sanguíneo cerebral cai. Esse descompasso entre demanda e oferta de energia é a disfunção neurológica temporária que produz confusão, lentidão, visão turva e cefaleia.

A perda de consciência é um evento diferente. Ela depende do comprometimento do sistema reticular ativador ascendente, no tronco cerebral. A maior parte dos impactos concussivos causa disfunção difusa e cortical sem atingir esse limiar específico. O atleta permanece consciente, responde a perguntas e parece bem, enquanto o cérebro opera em crise metabólica. Continuar em campo nesse estado é o cenário de maior risco.

Quando retirar e quando é emergência?

A Ferramenta de Reconhecimento de Concussão (CRT6), publicada junto ao consenso de Amsterdã, separa dois grupos que não podem ser confundidos. Um indica suspeita de concussão e obriga a retirada do jogo. O outro sinaliza possível lesão grave e exige atendimento médico imediato.

Suspeita de concussão: retirar do jogoRed flags: emergência médica
cefaleia ou pressão na cabeçador no pescoço
tontura e desequilíbriovisão dupla
confusão ou desorientaçãovômitos repetidos
reações mais lentasdeterioração progressiva da consciência
náuseacrise convulsiva
sensibilidade à luz ou ao somfraqueza ou formigamento em membros
labilidade emocional (choro fácil, mais emotivo que o normal)agitação crescente
falhar as perguntas de Maddocks (não lembrar o placar ou o adversário)cefaleia que piora de forma contínua

Falhar as perguntas de Maddocks, como não recordar o placar ou contra quem se joga, indica retirada obrigatória, mesmo que o atleta insista que está bem. A opinião do próprio jogador não é critério clínico.

O que dizem as diretrizes atuais?

O consenso internacional sobre concussão no esporte, publicado em Amsterdã em 2022, é direto em três pontos. A perda de consciência ocorre em uma minoria dos casos. Sua ausência não exclui concussão. E o diagnóstico deve integrar o mecanismo do trauma, os sintomas, o exame neurológico e ferramentas padronizadas de avaliação, como o SCAT6, quando disponíveis.

A perda de consciência prediz gravidade?

Aqui mora outro equívoco comum. A perda de consciência pode apontar um trauma de maior energia e merece investigação cuidadosa, mas isoladamente não determina a gravidade nem prediz o tempo de recuperação. Os fatores que mais influenciam a evolução são outros:

  • intensidade inicial dos sintomas
  • histórico de concussões prévias
  • enxaqueca
  • sexo feminino, em algumas coortes
  • condições psiquiátricas prévias
  • retorno precoce às atividades

Por que a concussão é subestimada?

Ninguém manda de volta ao campo um atleta que torceu o tornozelo ou estirou o gêmeo. A lesão incha, dói, limita o movimento, e todos ao redor entendem na hora que insistir seria imprudente. A concussão não incha, não sangra e não aparece no exame de imagem. Por isso costuma ser tratada como se nada tivesse acontecido, embora o órgão lesionado seja justamente o cérebro. A ausência de sinal visível não torna a lesão menor, torna-a mais perigosa, porque o atleta volta a se expor acreditando que está bem.

Síndrome do segundo impacto. Um novo trauma durante a janela de vulnerabilidade metabólica, antes da recuperação completa, pode desencadear perda da autorregulação vascular cerebral e edema difuso de instalação rápida. É um quadro raro, mas potencialmente fatal, descrito sobretudo em atletas jovens. Esse risco é o que justifica a regra de não retornar no mesmo dia e o rigor do protocolo de retorno.

Como conduzir na beira do campo?

O manejo internacional se resume a três verbos: reconhecer, remover e referir. Reconhecer os sinais compatíveis, remover o atleta de campo ao primeiro sinal de suspeita e referi-lo a um profissional habilitado para avaliação. O lema “if in doubt, sit them out” traduz a regra: na dúvida, tira de campo. Não há retorno ao jogo no mesmo dia, e a opinião do próprio atleta não vale como liberação. Esse é o mesmo princípio adotado pelo World Rugby e pelas demais federações, não uma conduta particular de uma modalidade.

O próprio rugby deu uma contribuição que hoje inspira outros esportes: a Head Injury Assessment (HIA), criada pelo World Rugby. Diante de uma suspeita sem sinais óbvios, o jogador deixa o campo por até 12 minutos para uma avaliação fora do gramado, com substituição temporária que não deixa o time desfalcado. Isso retirou o incentivo de minimizar o quadro para não perder o atleta e organizou a avaliação em etapas, com reavaliações nas horas e nos dias seguintes à partida. Mesmo assim, cerca de 20% das concussões diagnosticadas no rugby de elite não são reconhecidas ainda em campo, o que mostra o tamanho do desafio até onde o protocolo é mais maduro.

O retorno é progressivo e segue o protocolo do consenso de Amsterdã 2022, válido para todos os esportes. Funciona por etapas, cada uma com duração mínima de 24 horas, e o atleta só avança se permanecer dentro do seu nível de sintomas de base. Se os sintomas voltam, ele regride uma etapa. A sequência geral é:

  1. repouso relativo por 24 a 48 horas, com atividades cotidianas que não agravem os sintomas
  2. exercício aeróbico leve, como caminhada ou bicicleta ergométrica, abaixo do limiar de sintomas
  3. exercício específico do esporte, ainda sem risco de impacto
  4. treinos sem contato
  5. treino com contato completo, apenas após liberação médica
  6. retorno à competição

Nos esportes de contato, e em crianças e adolescentes, a aplicação é mais conservadora: o contato só é reintroduzido nas etapas finais e o retorno exige liberação médica por escrito.

Síndrome do segundo impacto: Um novo trauma durante a janela de vulnerabilidade metabólica, antes da recuperação completa, pode desencadear perda da autorregulação vascular cerebral e edema difuso de instalação rápida. É um quadro raro, mas potencialmente fatal, descrito sobretudo em atletas jovens. Esse risco é o que justifica a regra de não retornar no mesmo dia e o rigor do protocolo de retorno.

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Referências

PATRICIOS, J. et al. Consensus statement on concussion in sport: the 6th International Conference on Concussion in Sport—Amsterdam, October 2022. British Journal of Sports Medicine, v. 57, n. 11, p. 695-711, 2023.

ECHEMENDIA, R. J. et al. The Concussion Recognition Tool 6 (CRT6). British Journal of Sports Medicine, v. 57, n. 11, p. 692-694, 2023.

GIZA, C. C.; HOVDA, D. A. The new neurometabolic cascade of concussion. Neurosurgery, v. 75, suppl. 4, p. S24-S33, 2014.

MCCRORY, P. et al. Consensus statement on concussion in sport—the 5th International Conference on Concussion in Sport held in Berlin, October 2016. British Journal of Sports Medicine, v. 51, n. 11, p. 838-847, 2017.

VALENTE, J. H. et al. Clinical Policy: Critical Issues in the Management of Adult Patients Presenting to the Emergency Department With Mild Traumatic Brain Injury. Annals of Emergency Medicine, v. 81, n. 5, p. 63-83, 2023.

Autor

  • Ana Luisa Andrade

    Formação em medicina pela UCES. Médica auxiliar em clubes de rugby e hóquei, certificada pelo World Rugby Passport e União de Rugby de Buenos Aires. Praticante de CrossFit, Hyrox, corridas. Escreve sobre medicina do esporte unindo a vivência de campo, o treino e a evidência científica.
    Tiktok: @analuisa.andrade
    Instagram: analu.andrades

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