Instabilidade crônica de tornozelo

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instabilidade crônica de tornozelo

Como reconhecer, o que confirma o diagnóstico e o que não pode passar despercebido

Entorse lateral de tornozelo é a lesão musculoesquelética mais frequente em pessoas fisicamente ativas, e uma das que menos chegam ao consultório. O paciente quando finalmente procura atendimento, costuma já ter torcido várias vezes e trazer sempre a mesma frase: o tornozelo falha.

Até 40% de quem sofre uma primeira entorse lateral segue com falseio e novas torções, e a lesão pontual se transforma em instabilidade crônica de tornozelo, uma condição que reduz o nível de atividade física e a qualidade de vida e antecipa a artrose pós-traumática do tornozelo. A boa notícia para quem atende é que essa condição tem definição, critérios e instrumentos validados. Dá para reconhecer em consulta, sem depender de imagem.

Para o médico que quer estruturar a avaliação de lesões esportivas com raciocínio clínico, o curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber desenvolve esses fundamentos.

O que define instabilidade crônica de tornozelo

O International Ankle Consortium estabeleceu os critérios usados hoje na literatura. São três componentes, e vale conhecê-los porque vão ajudar a organizam a anamnese.

O primeiro é temporal: pelo menos uma entorse lateral significativa ocorrida há mais de 12 meses, com dor, edema e ao menos um dia de atividade interrompida. Antes disso o quadro ainda está em evolução.

O segundo é sintomático: história de falseio, entorses recorrentes ou sensação de instabilidade no tornozelo previamente lesionado. Falseio e sensação de instabilidade contam mesmo sem nova entorse documentada.

O terceiro é funcional, medido por questionário. Os pontos de corte recomendados são CAIT igual ou menor que 24, IdFAI igual ou maior que 11, FAAM-AVD abaixo de 90% e FAAM-Esporte abaixo de 80%.

Do outro lado do espectro está o coper: o paciente que passou dos 12 meses sem recorrência, sem sintomas relevantes e com percepção de recuperação completa. Transformar quem torceu em coper é o objetivo de quem trata a primeira entorse.

Os dois eixos do quadro

O modelo atualizado de Hertel e Corbett organiza a instabilidade em dois grupos de insuficiências que costumam coexistir.

As insuficiências mecânicas incluem frouxidão ligamentar patológica, restrição artrocinemática, alterações sinoviais e mudanças degenerativas. São as que o exame de estresse tenta capturar.

As insuficiências sensório-motoras incluem déficit proprioceptivo, alteração do controle neuromuscular, piora do controle postural e perda de força, sobretudo dos eversores. Não aparecem em teste de gaveta nem em ressonância.

Essa distinção tem consequência direta na consulta: um paciente pode ter instabilidade percebida e recorrência de entorses com testes de estresse negativos. O exame normal não afasta o quadro, e é por isso que a anamnese e os questionários pesam tanto aqui.

Como reconhecer na consulta

Na anamnese, quatro perguntas rendem mais que qualquer manobra:

  • quantas entorses o paciente já teve nesse tornozelo
  • com que frequência ele falseia, e em que situações
  • o que ele deixou de fazer por causa do tornozelo (terreno irregular, mudança de direção, correr no escuro)
  • como a primeira entorse foi tratada, incluindo tempo de imobilização e de descarga

O quarto item costuma explicar o resto. Entorse tratada como evento banal, sem reabilitação, é o antecedente típico.

Vale perguntar também qual é a perna dominante. Estudos epidemiológicos apontam maior vulnerabilidade do lado dominante, com uma coorte estimando risco cerca de 2,4 vezes maior que o do lado não dominante. A explicação provável é de exposição: o membro dominante é o que chuta, corta e apoia na mudança de direção, então acumula mais situações de carga em posição de risco. O dado não é unânime na literatura, mas ajuda a contextualizar o tornozelo mais acometido.

No exame físico, vale mapear em vez de buscar um teste único:

  • gaveta anterior e inclinação talar, que apoiam o componente mecânico quando positivos, sem afastá-lo quando negativos, já que a acurácia dessas manobras é limitada
  • palpação anterolateral do tálus, que numa revisão sistemática mostrou a maior acurácia diagnóstica entre os testes manuais
  • palpação dirigida por região, porque a localização da dor orienta o diferencial
  • amplitude de dorsiflexão em carga, com o teste do avanço do joelho na parede, já que o déficit de dorsiflexão é achado frequente
  • controle postural e estabilidade dinâmica, com testes nomeados quando houver estrutura: Star Excursion Balance Test ou Y Balance Test para alcance, e testes de salto como Single Leg Hop, Side Hop e Figure-of-8 Hop, úteis também na decisão de retorno ao esporte
  • força de eversão

Um questionário fecha a avaliação. O CAIT é curto, tem versão em português e serve como medida de acompanhamento ao longo do tratamento. O IdFAI é uma alternativa que combina histórico de entorses, falseio e limitação funcional num escore único.

O diferencial que não pode passar

A localização da dor à palpação organiza o diferencial, e algumas condições convivem com a instabilidade em vez de excluí-la:

  • dor anteromedial ou anterolateral profunda, com travamento ou derrame, sugere lesão osteocondral do tálus
  • dor posterolateral, com edema ao longo do trajeto tendíneo ou sensação de estalido, aponta para tendinopatia ou subluxação dos fibulares
  • dor anterolateral em dorsiflexão máxima sugere impacto de partes moles
  • dor posteromedial, anterior ao tendão de Aquiles, levanta impacto posterior e os trigonum
  • dor óssea localizada mantém no radar as fraturas que passam batido no raio-x inicial: processo anterior do calcâneo, processo lateral do tálus e base do quinto metatarso
  • dor proximal na fíbula e teste de compressão positivo indicam lesão sindesmótica

A ressonância identifica lesão osteocondral, tendinopatia e impacto, mas não mede estabilidade. Ela responde o que mais existe no tornozelo, não se o tornozelo é instável.

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Aplicações práticas

Alguns hábitos aumentam a taxa de reconhecimento:

  • perguntar sobre falseio em toda consulta de tornozelo, inclusive quando a queixa principal é outra
  • aplicar o CAIT na primeira avaliação e repetir no seguimento
  • registrar número de entorses e frequência de falseio, que são os dados que definem gravidade
  • tratar a primeira entorse com reabilitação estruturada, porque prevenir a cronificação é mais eficiente que revertê-la
  • indicar exercício terapêutico com treino de equilíbrio e controle neuromuscular como primeira linha
  • reservar a avaliação cirúrgica para falha do tratamento conservador bem conduzido ou frouxidão mecânica importante com lesão associada

Limitações e vieses

Os critérios do International Ankle Consortium foram desenhados para seleção de pacientes em pesquisa, e não como teste diagnóstico. Eles padronizam a linguagem e ajudam na consulta, mas não substituem o julgamento clínico.

As manobras de estresse têm acurácia e reprodutibilidade modestas, com variação entre examinadores. A instabilidade crônica também funciona como termo guarda-chuva, reunindo subgrupos com predomínio mecânico, predomínio percebido ou recorrência de entorses, o que gera heterogeneidade entre estudos. Por fim, as propriedades psicométricas das versões brasileiras dos questionários já foram questionadas em revisão sistemática, o que pede cautela na leitura de valores absolutos.

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Conclusão

A instabilidade crônica de tornozelo se reconhece pela história, não pela imagem. Entorse há mais de 12 meses, falseio ou sensação de instabilidade e limitação funcional confirmada por questionário compõem o quadro. O exame físico mapeia os componentes mecânico e sensório-motor e orienta o diferencial, sem funcionar como teste isolado de confirmação. Reconhecer cedo importa porque a cronificação anda junto de menos atividade física e de artrose pós-traumática precoce.

Principais insights

  1. Até 40% das primeiras entorses evoluem para instabilidade crônica. A entorse lateral é a lesão mais comum em população ativa e a que menos recebe tratamento adequado.
  2. O diagnóstico é clínico e temporal. Mais de 12 meses da entorse inicial, com falseio, recorrência ou sensação de instabilidade, e limitação funcional medida por questionário.
  3. Exame de estresse negativo não afasta o quadro. A instabilidade percebida pode existir sem frouxidão mensurável, porque os déficits sensório-motores não aparecem nessas manobras.
  4. A palpação organiza o diferencial. Lesão osteocondral, tendinopatia dos fibulares, impacto e fraturas ocultas convivem com a instabilidade e mudam a conduta.
  5. A ressonância não mede estabilidade. Ela mostra as lesões associadas, e o diagnóstico continua vindo da história.
  6. Tratar bem a primeira entorse é a melhor prevenção. O objetivo é transformar quem torceu em coper, sem recorrência e com recuperação percebida como completa.

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Referências

GRIBBLE, P. A. et al. Selection criteria for patients with chronic ankle instability in controlled research: a position statement of the International Ankle Consortium. Journal of Athletic Training, v. 49, n. 1, p. 121-127, 2014.

GRIBBLE, P. A. et al. 2016 consensus statement of the International Ankle Consortium: prevalence, impact and long-term consequences of lateral ankle sprains. British Journal of Sports Medicine, v. 50, n. 24, p. 1493-1495, 2016.

HERTEL, J.; CORBETT, R. O. An updated model of chronic ankle instability. Journal of Athletic Training, v. 54, n. 6, p. 572-588, 2019.

GRIBBLE, P. A. Evaluating and differentiating ankle instability. Journal of Athletic Training, v. 54, n. 6, p. 617-627, 2019.

HOCH, M. C. et al. Dorsiflexion and dynamic postural control deficits are present in those with chronic ankle instability. Journal of Science and Medicine in Sport, v. 15, n. 6, p. 574-579, 2012.

DOHERTY, C. et al. The incidence and prevalence of ankle sprain injury: a systematic review and meta-analysis of prospective epidemiological studies. Sports Medicine, v. 44, n. 1, p. 123-140, 2014.

MARTIN, R. L. et al. Ankle stability and movement coordination impairments: lateral ankle ligament sprains revision 2021. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy, v. 51, n. 4, p. CPG1-CPG80, 2021.


Autor

  • Ana Luisa Andrade

    Formação em medicina pela UCES. Médica auxiliar em clubes de rugby e hóquei, certificada pelo World Rugby Passport e União de Rugby de Buenos Aires. Praticante de CrossFit, Hyrox, corridas. Escreve sobre medicina do esporte unindo a vivência de campo, o treino e a evidência científica.
    Tiktok: @analuisa.andrade
    Instagram: analu.andrades

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