QUAL TREINO AUMENTA MAIS O VO₂ MÁXIMO? (CONTÍNUO OU HIIT?)

A resposta baseada em evidências científicas atualizadas.


Por que esse tema voltou aos holofotes?

Recentemente, Tadej Pogačar – um dos maiores ciclistas da atualidade – ganhou destaque após análises indicarem que seu VO₂ máximo pode chegar a 96 ml/kg/min, possivelmente o maior valor já registrado entre campeões do Tour de France.

Para contextualizar:

  • Profissionais de elite: 75–85 ml/kg/min
  • Atletas excepcionais: acima de 90 ml/kg/min
  • Greg Lemond: aproximadamente 93 ml/kg/min

Esse cenário reacendeu uma pergunta fundamental:

Afinal, qual tipo de treino realmente aumenta o VO₂ máximo?
O treino contínuo? O treino no limiar? O HIIT clássico? Ou protocolos de alta intensidade ultracurtos?

A resposta já foi dada pela literatura científica – e é mais simples do que se imagina.


O que é VO₂ máximo e por que ele importa?

VO₂ máximo é a quantidade máxima de oxigênio que o organismo consegue utilizar durante exercício intenso.
É um dos principais determinantes de:

  • performance aeróbica
  • saúde cardiovascular
  • sobrevida
  • economia de movimento
  • capacidade de sustentar altas intensidades

Mas o ponto central é:
não é qualquer tipo de treino que aumenta o VO₂ máximo.


ESTUDO 1 — Helgerud et al., 2007

“Aerobic High-Intensity Intervals Improve VO₂max More Than Moderate Training”

O estudo comparou quatro tipos de treino com o mesmo volume total:

1. Treino contínuo moderado

45 minutos a 70% da frequência cardíaca máxima
Resultado: não aumentou o VO₂ máximo.

2. Treino no limiar (threshold)

24 minutos a 85% da frequência cardíaca máxima
Resultado: não aumentou o VO₂ máximo.

3. Intervalado curto (15’’/15’’) a 90–95%

Resultado: aumento de 5,5% no VO₂ máximo.

4. HIIT clássico 4 × 4 minutos a 90–95%

Resultado: aumento de 7,2% no VO₂ máximo.

Conclusão do estudo:
O fator determinante para aumentar o VO₂ máximo é a intensidade, não a duração.
Treinos contínuos moderados não geram estímulo suficiente para alterar o teto aeróbico.


ESTUDO 2 — Tjønna et al., 2013

O estudo avaliou, durante 10 semanas, dois tipos de HIIT em homens sedentários e com sobrepeso:


HIIT 1×4 minutos (baixo volume)

Protocolo: um único intervalo de 4 minutos a 90% da FCmáx
Duração da sessão: 19 minutos

Resultados:

  • Aumento de 10% no VO₂ máximo
  • Melhora de 14% na economia de corrida
  • Redução da pressão arterial
  • Redução de glicemia de jejum

HIIT 4×4 minutos (clássico)

Protocolo: quatro blocos de 4 minutos a 90% da FCmáx
Duração da sessão: 40 minutos

Resultados:

  • Aumento de 13% no VO₂ máximo
  • Melhora da economia de corrida
  • Redução da pressão arterial
  • Redução da glicemia
  • Redução de LDL, colesterol total e gordura corporal

O que esses estudos deixam claro?

  1. Treino contínuo moderado não aumenta o VO₂ máximo.
    Apesar de ser importante para base aeróbica, ele não altera significativamente o teto do sistema cardiorrespiratório.
  2. A intensidade alta é o principal gatilho para melhorar o VO₂ máximo.
    Isso exige atingir 90–95% da frequência cardíaca máxima.
  3. O HIIT funciona independentemente do volume.
    Tanto o 1×4 min quanto o 4×4 min aumentam o VO₂ máximo de forma robusta.
  4. O 4×4 min gera benefícios metabólicos adicionais.
    Inclui redução maior de gordura e melhora no perfil lipídico.
  5. O 1×4 min é extremamente eficiente em termos de tempo.
    É uma alternativa realista para pessoas com agenda cheia.

Qual protocolo usar na prática?

Para maximizar VO₂ máximo:

HIIT 4×4 minutos.

Para quem tem pouco tempo:

HIIT 1×4 minutos.

Para atletas que só fazem treino contínuo:

É necessário incluir estímulos de alta intensidade estruturada.


Protocolos práticos

HIIT 4×4 minutos

  • 10 minutos de aquecimento
  • 4 × 4 minutos a 90–95% da FCmáx
  • 3 minutos leves entre intervalos
  • 2 a 3 vezes por semana

HIIT 1×4 minutos

  • 10 minutos de aquecimento
  • 1 intervalo de 4 minutos a 90–95% da FCmáx
  • 5 minutos de desaquecimento
  • 3 vezes por semana

Conclusão

O melhor treino para aumentar o VO₂ máximo é o treino intervalado de alta intensidade, atingindo 90–95% da frequência cardíaca máxima.
Propostas contínuas moderadas são importantes para base e volume, mas não alteram de forma significativa o teto aeróbico.

Se o objetivo é melhorar desempenho, saúde cardiovascular e capacidade aeróbica máxima, o caminho mais eficiente é:

Intensidade elevada. Estruturada. Repetida.

Autor

  • Thiago Dantas

    Médico residente em Medicina Esportiva no Hospital das Clínicas da USP. Atleta híbrido, praticante de musculação e corrida, com foco em performance, saúde e qualidade de vida.

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