Resumo do estudo JAMA 2024 sobre disfunção microvascular coronariana por anabolizantes. Entenda o impacto cardíaco persistente após a cessação do uso.

O uso prolongado de Esteroides Androgênicos Anabolizantes (EAA) está historicamente associado à hipertrofia ventricular esquerda e à insuficiência cardíaca. Contudo, os mecanismos exatos dessa progressão patológica em pacientes sem doença aterosclerótica epicárdica clássica permaneciam subestudados
. Este estudo transversal, publicado no periódico JAMA Network Open em dezembro de 2024, investiga a disfunção microvascular coronariana induzida por anabolizantes, demonstrando que o comprometimento da microcirculação miocárdica não apenas ocorre de forma precoce, mas persiste por anos após a interrupção do uso
Visão geral do estudo
- Desenho do estudo: Estudo transversal (cross-sectional).
- População e tamanho da amostra (N): 90 homens (idade média de 35,1 anos), praticantes de treinamento de força recreativo, sem doença cardiovascular estabelecida.
- Grupos: A amostra foi dividida em três categorias com base no histórico de uso: usuários ativos (n = 32), ex-usuários em abstinência há pelo menos 3 meses (n = 31) e controles sem histórico de uso (n = 27).
Métodos
O status de uso de EAA foi confirmado de forma objetiva através de testes de urina por cromatografia-espectrometria de massas em laboratório antidoping de referência. A função microvascular foi avaliada por tomografia por emissão de pósitrons acoplada à tomografia computadorizada (PET/CT) utilizando o radiotraçador Rubídio-82 ($^{82}Rb$). O exame foi realizado em repouso e após estresse induzido por adenosina para quantificar a Reserva de Fluxo Miocárdico (MFR).
- Variáveis analisadas: O desfecho primário foi a MFR entre os grupos. A disfunção microvascular foi classificada em dois limiares: clinicamente comprometida (MFR < 2,0) e subclinicamente comprometida (MFR < 2,5). O desfecho secundário avaliado foi o escore de cálcio coronariano.
Resultados
A avaliação de imagem funcional e morfológica revelou dados quantitativos expressivos:
- MFR clinicamente comprometida (< 2,0): Presente em 6 usuários ativos (18,8%) e 1 ex-usuário (3,2%). Nenhum indivíduo do grupo controle (0%) apresentou este grau de comprometimento ($P = 0,02$).
- MFR subclinicamente comprometida (< 2,5): Identificada em 9 usuários ativos (28,1%) e em 8 ex-usuários (25,8%), contra apenas 1 caso (3,7%) no grupo controle ($P = 0,02$).
- Escore de Cálcio Coronariano: A mediana foi de 0 (dentro da faixa de normalidade) em todos os três grupos, indicando ausência de estenose aterosclerótica macrovascular significativa.
- Relação Dose-Resposta: Na regressão logística multivariável do grupo de ex-usuários, cada duplicação do tempo de uso acumulado semanal de EAA ($log_2$) foi independentemente associada a um aumento de duas vezes no risco de apresentar MFR < 2,5 (Odds Ratio, 2,1; IC 95%, 1,03-4,35; $P = 0,04$).
- Persistência do Dano: O tempo decorrido desde a cessação (média geométrica de 1,5 anos) não demonstrou associação estatística com a recuperação da reserva de fluxo miocárdico.
Conclusões: O estudo conclui que a disfunção microvascular coronariana está presente em homens com uso atual ou prévio de EAA. O dano à microcirculação não é totalmente reversível, permanecendo anos após a cessação dos esteroides, e o tempo de exposição cumulativo agrava proporcionalmente o risco de prejuízo vascular subjacente.
Aplicações práticas
Para o cardiologista e o médico do esporte, a constatação de que a MFR está reduzida independentemente do escore de cálcio sinaliza que a ausência de placas ateroscleróticas calcificadas não garante saúde cardiovascular no paciente usuário de EAA. A disfunção endotelial coronariana crônica pode resultar em microinfartos miocárdicos silentes e isquemia recorrente, atuando como o gatilho inicial para o desenvolvimento futuro de insuficiência cardíaca sistólica e arritmias ventriculares fatais. Pacientes com longo histórico de uso demandam rastreio rigoroso e vigilância para miocardiopatia induzida por esteroides.
Limitações e vieses A amostra relativamente pequena de pacientes (n = 90) limitou o poder estatístico em alguns ajustes de comparação post hoc. O desenho transversal impossibilita a definição de causalidade direta absoluta. Ademais, usuários ativos e ex-usuários apresentavam níveis significativamente maiores de pressão arterial sistólica e LDL-C em comparação aos controles, fatores que atuam como potenciais variáveis de confusão para o dano microvascular. A triagem de uso dependeu de autorrelato anatômico do histórico total, o que introduz viés de recordação, embora o uso recente tenha sido rigidamente controlado por exames de urina antidoping.
Principais insights
- O Escore de Cálcio (Agatston) normal não descarta a presença de dano vascular grave e isquemia silenciosa em usuários de esteroides anabolizantes.
- Cerca de 25% dos ex-usuários de EAA mantêm disfunção microvascular coronariana mesmo anos após a completa interrupção hormonal.
- Existe uma clara relação de toxicidade tempo-dependente: quanto mais semanas acumuladas de uso de EAA, maior o declínio irreversível da perfusão miocárdica funcional.
- A reserva de fluxo miocárdico avaliada por PET/CT emerge como um biomarcador ultraprecoce fundamental para identificar miocardiopatia por esteroides antes da queda da Fração de Ejeção do Ventrículo Esquerdo (FEVE).
Precauções e Recomendações
O manejo da insuficiência cardíaca e da miocardiopatia induzida por anabolizantes carece de diretrizes específicas amplas, e as evidências demonstram que intervenções tardias possuem baixa taxa de reversão estrutural miocárdica. O uso compassivo de terapias de descontinuação exige avaliação cautelosa do risco cardiovascular global (lípides e pressão arterial sistólica).
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Referências
Bulut Y, Rasmussen JJ, Brandt-Jacobsen N, Frystyk J, Thevis M, Schou M, et al. Coronary Microvascular Dysfunction Years After Cessation of Anabolic Androgenic Steroid Use. JAMA Netw Open. 2024;7(12):e2451013.
Dr. João Diniz | CRM-SP 255.027