Rastreamento de Saúde Mental no Esporte
Fluxo clínico em etapas baseado na estrutura do IOC SMHAT2 para atletas de elite com 16 anos ou mais.
A saúde mental faz parte da saúde integral e do desempenho esportivo. Ansiedade, depressão, alterações do sono, uso problemático de substâncias e transtornos alimentares podem atingir atletas de alto rendimento com frequência semelhante ou até superior à observada na população geral.
Para facilitar a identificação precoce desses problemas, o Comitê Olímpico Internacional desenvolveu o IOC Sport Mental Health Assessment Tool 2, conhecido como IOC SMHAT2.
O instrumento foi apresentado em 2026 no British Journal of Sports Medicine como uma atualização do SMHAT-1. Seu objetivo é ajudar profissionais de saúde a identificar atletas que possam estar apresentando sintomas ou transtornos de saúde mental e que necessitem de avaliação clínica, suporte ou tratamento.
O questionário disponibilizado acima deve ser entendido como uma ferramenta de triagem. Um resultado positivo não estabelece diagnóstico e não deve ser interpretado isoladamente.
O que é o IOC SMHAT2?
O IOC SMHAT2 é um instrumento estruturado para a triagem de saúde mental em atletas de elite com 16 anos ou mais.
Para os autores, a definição de atleta de elite inclui atletas:
- profissionais;
- olímpicos;
- paralímpicos;
- universitários que competem em nível de alto rendimento.
A ferramenta foi desenvolvida principalmente para médicos do esporte e outros profissionais de saúde devidamente licenciados ou registrados.
Embora diferentes profissionais possam participar da aplicação inicial do questionário, a avaliação clínica, o diagnóstico e a definição do tratamento devem permanecer sob responsabilidade de um médico do esporte ou de um profissional de saúde mental com formação clínica, como psiquiatra ou psicólogo clínico.
Por que o SMHAT-1 precisou ser atualizado?
A primeira versão, chamada SMHAT-1, representou um avanço ao criar um fluxo padronizado para avaliar a saúde mental no esporte. Entretanto, estudos posteriores identificaram limitações importantes no questionário utilizado como triagem inicial.
A análise de dados de 1.035 atletas de elite demonstrou que o primeiro instrumento poderia deixar de identificar parte dos atletas com alterações específicas, principalmente relacionadas a sono, uso de álcool, uso de outras substâncias e comportamento alimentar. Também foram observadas proporções elevadas de resultados falso-positivos.
Na comparação entre a primeira etapa do SMHAT-1 e os questionários específicos, as taxas de falso-negativo chegaram a:
- 23% para alterações do sono;
- 35% para uso problemático de álcool;
- 21% para uso de substâncias;
- 34% para comportamento alimentar desordenado.
Esses resultados levaram o grupo de trabalho do Comitê Olímpico Internacional a retirar o antigo questionário de triagem geral e iniciar o IOC SMHAT2 diretamente com instrumentos específicos para diferentes problemas de saúde mental.
A nova versão também incorporou a experiência de usuários do SMHAT-1, entrevistas com profissionais, revisão da literatura, análise de dados clínicos, reunião de especialistas e avaliação de validade de conteúdo e viabilidade.
Como funciona o IOC SMHAT2?
O IOC SMHAT2 mantém uma estrutura dividida em três etapas:
- triagem universal;
- triagem condicional;
- avaliação clínica e definição da conduta.
O caminho seguido pelo atleta depende das respostas e das pontuações obtidas em cada questionário.
Etapa 1: triagem universal
A primeira etapa deve ser aplicada a todos os atletas avaliados. Ela investiga sete áreas relacionadas à saúde mental.
Ansiedade
A ansiedade é avaliada pelo GAD-7, questionário com sete itens sobre sintomas apresentados nas últimas duas semanas.
Uma pontuação igual ou superior a 10 é considerada positiva e encaminha o atleta para a avaliação de sintomas relacionados ao transtorno de estresse pós-traumático.
Depressão e ideação suicida
Os sintomas depressivos são avaliados pelo PHQ-9, que investiga as últimas duas semanas.
Uma pontuação total igual ou superior a 10 é considerada positiva. Entretanto, o item 9 do PHQ-9, relacionado a pensamentos de morte ou autoagressão, possui importância independente.
Uma resposta positiva nesse item exige ação clínica direta, mesmo que a pontuação total do questionário seja inferior ao ponto de corte.
Alterações do sono
A qualidade e os problemas relacionados ao sono são avaliados pelo Athlete Sleep Screening Questionnaire, o ASSQ.
Uma pontuação igual ou superior a 8 indica necessidade de avaliação clínica mais detalhada.
Comportamento alimentar desordenado
O IOC SMHAT2 utiliza o Eating Disorder Examination Questionnaire Short, ou EDE-QS, composto por 12 questões.
Uma pontuação igual ou superior a 15 indica a necessidade de aprofundar a avaliação clínica sobre comportamento alimentar, imagem corporal, restrição alimentar e possíveis transtornos alimentares.
Uso problemático de álcool
A avaliação do consumo de álcool é realizada pelo AUDIT, questionário de dez itens desenvolvido para identificar padrões de consumo de risco, uso prejudicial e possível dependência.
No IOC SMHAT2, uma pontuação igual ou superior a 8 direciona o atleta para avaliação clínica.
Uso de cannabis
O atleta responde se utilizou cannabis, maconha ou produtos relacionados nos últimos seis meses.
Uma resposta positiva direciona para o CAGE-AID, questionário utilizado na segunda etapa para investigar possíveis problemas relacionados ao uso de substâncias.
Uso de tabaco ou nicotina
Também é investigado o uso de produtos contendo tabaco ou nicotina nos últimos seis meses.
Uma resposta positiva leva à aplicação do CAGE-AID e, posteriormente, à avaliação clínica.
Etapa 2: triagem condicional
A segunda etapa não é aplicada obrigatoriamente a todos os atletas. Ela é acionada por determinadas respostas da triagem universal.
Avaliação de estresse pós-traumático
Quando o atleta apresenta resultado positivo para ansiedade ou depressão, deve responder ao PC-PTSD-5.
Esse questionário investiga sintomas relacionados ao transtorno de estresse pós-traumático durante o último mês. A inclusão dessa avaliação considera a frequente associação entre trauma, ansiedade e depressão.
Independentemente da pontuação obtida no PC-PTSD-5, o atleta deve prosseguir para a avaliação clínica.
Avaliação do uso de substâncias
Uma resposta positiva para uso de cannabis, tabaco ou nicotina aciona o CAGE-AID.
O instrumento investiga sinais de uso problemático de drogas e outras substâncias durante os últimos três meses. O álcool não é o foco dessa etapa porque já foi avaliado de forma específica pelo AUDIT.
Depois do CAGE-AID, o atleta também deve seguir para avaliação clínica, independentemente da pontuação final.
Etapa 3: avaliação clínica
A terceira etapa é o componente central do IOC SMHAT2.
Os questionários utilizados nas etapas anteriores não estabelecem diagnóstico. Eles apenas identificam sintomas ou situações que precisam ser investigados de maneira mais detalhada.
A avaliação clínica deve analisar:
- histórico de saúde mental;
- contexto esportivo e familiar;
- presença de lesões ou doenças;
- exposição a assédio, abuso ou eventos traumáticos;
- gravidade e complexidade dos sintomas;
- prejuízo funcional;
- tratamentos anteriores;
- resposta ou ausência de resposta a tratamentos prévios;
- risco imediato para o atleta.
Dependendo do caso, o profissional poderá oferecer suporte inicial, estabelecer um plano de tratamento, solicitar avaliações adicionais ou encaminhar o atleta para um psiquiatra, psicólogo clínico ou outro profissional qualificado.
O IOC SMHAT2 também sugere instrumentos complementares quando houver suspeita de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, transtorno bipolar, jogo problemático, luto prolongado, transtorno obsessivo-compulsivo ou psicose.
Resultado positivo no IOC SMHAT2 significa diagnóstico?
Não.
Um resultado positivo significa que o atleta apresentou sintomas suficientes para justificar uma avaliação clínica mais detalhada.
Questionários de triagem podem produzir resultados falso-positivos e falso-negativos. Além disso, fatores próprios do esporte, como lesões, calendário de competições, mudança de equipe, pressão por desempenho, viagens, aposentadoria e conflitos internos, podem interferir nas respostas.
Por isso, a pontuação deve ser interpretada dentro da realidade individual de cada atleta.
O diagnóstico de um transtorno mental depende de entrevista clínica, avaliação funcional, análise da duração dos sintomas, exclusão de outras causas e julgamento de um profissional qualificado.
Quando o IOC SMHAT2 deve ser aplicado?
Os autores recomendam que o IOC SMHAT2 seja incorporado à avaliação periódica do atleta.
Um dos momentos mais indicados é a pré-temporada, preferencialmente algumas semanas após o início dos treinamentos, mas antes do período competitivo.
A ferramenta também pode ser aplicada no meio ou no final da temporada e diante de acontecimentos potencialmente relevantes, como:
- lesão, doença ou cirurgia;
- queda inexplicada de desempenho;
- competição importante;
- término de um ciclo competitivo;
- suspeita de assédio ou abuso;
- evento adverso na vida pessoal;
- afastamento ou exclusão de uma equipe;
- aposentadoria ou transição para fora do esporte.
Mesmo quando nenhum problema é identificado, o atleta deve receber uma devolutiva. Essa conversa ajuda a aumentar a confiança no processo, melhorar o conhecimento sobre saúde mental e reduzir o estigma relacionado à procura por ajuda.
Quanto tempo leva para responder ao IOC SMHAT2?
A primeira etapa leva aproximadamente dez minutos.
Quando o atleta precisa realizar a triagem condicional e uma avaliação clínica completa, o processo pode chegar a cerca de 60 minutos.
Embora esse tempo possa representar uma dificuldade em ambientes com poucos profissionais, os autores argumentam que a avaliação da saúde mental deve receber prioridade semelhante à avaliação cardiovascular, musculoesquelética e de outras condições clínicas relevantes para o atleta.
Quais foram os principais avanços do IOC SMHAT2?
A principal mudança foi a substituição de uma triagem geral curta por questionários específicos para cada grupo de sintomas.
Outras mudanças importantes incluem:
- utilização do GAD-7 completo para ansiedade;
- manutenção do PHQ-9 para depressão e ideação suicida;
- avaliação direta dos problemas do sono;
- substituição do BEDA-Q pelo EDE-QS;
- substituição do AUDIT-C pelo AUDIT completo;
- inclusão de perguntas específicas sobre cannabis e nicotina;
- maior destaque para sintomas de estresse pós-traumático;
- encaminhamento mais claro entre triagem e avaliação clínica.
Na avaliação de validade de conteúdo, 58 profissionais de saúde analisaram os componentes do IOC SMHAT2. Todos os componentes alcançaram o critério previamente definido de concordância sobre relevância e adequação.
A média da escala de viabilidade foi de 15,8 pontos em um máximo de 20, indicando que, de maneira geral, os profissionais consideraram possível implementar a ferramenta, embora tenham destacado dificuldades relacionadas a tempo, recursos, treinamento e acesso a serviços especializados.
Quais são as limitações do IOC SMHAT2?
Apesar dos avanços, o IOC SMHAT2 não elimina todas as dificuldades da avaliação de saúde mental no esporte.
A ferramenta depende de respostas fornecidas pelo próprio atleta. O medo de perder espaço na equipe, sofrer julgamento ou ter informações confidenciais expostas pode levar à omissão ou minimização de sintomas.
Além disso, os questionários não apresentam sensibilidade e especificidade de 100%. Portanto, nenhum resultado deve substituir a entrevista clínica.
Outro ponto importante é que, no momento da publicação do estudo, o IOC SMHAT2 estava disponível oficialmente apenas em inglês. A avaliação de validade de conteúdo também não contou com participantes da América do Sul.
Isso reforça a necessidade de tradução, adaptação cultural e estudos de validação em diferentes países, modalidades esportivas e níveis de competição antes de assumir que o instrumento apresenta o mesmo desempenho em todas as populações.
O IOC SMHAT2 pode ser usado por qualquer atleta?
O instrumento foi desenvolvido especificamente para atletas de elite com 16 anos ou mais.
Seu uso em atletas recreativos, praticantes de atividade física ou crianças não foi o objetivo principal do estudo. Nessas populações, os questionários individuais podem continuar sendo úteis, mas a interpretação do fluxo completo do IOC SMHAT2 deve ser feita com cautela.
Por que a triagem de saúde mental deve fazer parte da medicina esportiva?
A saúde mental interfere na recuperação de lesões, no sono, na alimentação, na adesão ao tratamento, no relacionamento com a equipe, na tomada de decisões e na qualidade de vida.
Entretanto, o objetivo da triagem não deve ser apenas preservar o desempenho esportivo. O atleta deve ser acompanhado como pessoa, inclusive durante períodos de afastamento, transição de carreira ou aposentadoria.
Ao organizar um fluxo padronizado, o IOC SMHAT2 pode ajudar equipes médicas e organizações esportivas a reconhecer problemas mais cedo, estabelecer caminhos de encaminhamento e oferecer suporte antes que os sintomas se tornem mais graves.
Conclusão
O IOC SMHAT2 representa uma atualização importante na avaliação da saúde mental de atletas de elite.
A ferramenta combina questionários validados para ansiedade, depressão, sono, comportamento alimentar, álcool, uso de substâncias e estresse pós-traumático com uma etapa obrigatória de avaliação clínica quando alterações são identificadas.
Seu maior valor não está em gerar um diagnóstico automático, mas em criar um caminho estruturado entre a identificação dos sintomas e o acesso ao cuidado adequado.
Ao responder ao questionário disponível nesta página, lembre-se: uma pontuação positiva não significa necessariamente a presença de um transtorno mental. Ela indica que o resultado deve ser discutido com um médico do esporte ou profissional de saúde mental qualificado.
Referência
Gouttebarge V, Bindra A, Blauwet C, et al. International Olympic Committee Sport Mental Health Assessment Tool 2 (IOC SMHAT2): development, content validity and feasibility. British Journal of Sports Medicine. 2026. DOI: 10.1136/bjsports-2025-111408.