MedEsporte Papers · uso profissional

Rastreamento de Saúde Mental no Esporte

Fluxo clínico em etapas baseado na estrutura do IOC SMHAT2 para atletas de elite com 16 anos ou mais.

Versão educacional em português, não oficial. Os instrumentos foram organizados para aplicação local no navegador. A tradução e esta implementação não substituem versões formalmente adaptadas, validadas ou autorizadas pelos respectivos titulares.
PreparaçãoEtapa 1 de 1

Antes de começar

A ferramenta realiza rastreamento, organiza o fluxo e calcula escores. Ela não estabelece diagnóstico.

Etapa 1Rastreamento universal de ansiedade, depressão, cannabis, nicotina, sono, alimentação e álcool.
Etapa 2PC-PTSD-5 e/ou CAGE-AID apenas quando acionados pelos resultados da etapa universal.
Etapa 3Avaliação clínica estruturada por profissional habilitado.
Instrumentos opcionaisAplicados somente quando a entrevista clínica indicar necessidade.
Confirmação de uso
Privacidade: não insira nome, documento ou outro dado identificável. Nada é enviado, armazenado ou rastreado por este componente.

1. Ansiedade — GAD-7

Nas últimas 2 semanas, com que frequência você foi incomodado(a) pelos problemas abaixo?

1. Sentir-se nervoso(a), ansioso(a) ou muito tenso(a).
2. Não conseguir impedir ou controlar as preocupações.
3. Preocupar-se demais com diferentes assuntos.
4. Ter dificuldade para relaxar.
5. Ficar tão inquieto(a) que é difícil permanecer sentado(a).
6. Ficar facilmente irritado(a) ou incomodado(a).
7. Sentir medo como se algo terrível pudesse acontecer.

2. Depressão — PHQ-9

Nas últimas 2 semanas, com que frequência você foi incomodado(a) pelos problemas abaixo?

1. Pouco interesse ou prazer em fazer as coisas.
2. Sentir-se para baixo, deprimido(a) ou sem esperança.
3. Dificuldade para adormecer, permanecer dormindo ou dormir demais.
4. Sentir-se cansado(a) ou com pouca energia.
5. Falta de apetite ou comer em excesso.
6. Sentir-se mal consigo mesmo(a), achar que é um fracasso ou que decepcionou a si mesmo(a) ou sua família.
7. Dificuldade para se concentrar, como ao ler ou assistir à televisão.
8. Movimentar-se ou falar tão devagar que outras pessoas poderiam perceber, ou o oposto: ficar tão agitado(a) ou inquieto(a) que se movimenta muito mais que o habitual.
9. Pensar que seria melhor estar morto(a) ou em se machucar de alguma forma.
Se algum problema foi assinalado, quanto ele dificultou seu trabalho, suas tarefas em casa ou sua convivência com outras pessoas?

3 e 4. Cannabis, tabaco e nicotina

Responda considerando qualquer forma de uso, mesmo que tenha ocorrido apenas uma vez no período indicado.

1. Nos últimos 6 meses, você utilizou cannabis, maconha, produtos contendo cannabis ou produtos relacionados?
2. Nos últimos 6 meses, você utilizou algum produto contendo tabaco ou nicotina?

5. Sono — ASSQ

Itens utilizados para calcular o Sleep Difficulty Score do Athlete Sleep Screening Questionnaire.

1. No período recente, quantas horas de sono real você obteve por noite?

O tempo de sono pode ser diferente do tempo total permanecido na cama.

2. Quão satisfeito(a) ou insatisfeito(a) você está com a qualidade do seu sono?
3. No período recente, quanto tempo você geralmente levou para adormecer à noite?
4. Com que frequência você teve dificuldade para permanecer dormindo(a)?
5. No período recente, com que frequência você utilizou medicamento para ajudar a dormir, prescrito ou de venda livre?

6. Comportamento alimentar — EDE-QS

Responda considerando os últimos 7 dias.

1. Você tentou deliberadamente limitar a quantidade de alimento que consome para influenciar seu peso ou forma corporal, mesmo que não tenha conseguido?
2. Você passou longos períodos, por exemplo 8 horas ou mais enquanto estava acordado(a), sem comer nada para influenciar seu peso ou forma corporal?
3. Pensar em comida, alimentação ou calorias dificultou muito sua concentração em atividades de interesse, como trabalhar, conversar ou ler?
4. Pensar em seu peso ou forma corporal dificultou muito sua concentração em atividades de interesse, como trabalhar, conversar ou ler?
5. Você teve medo definido de ganhar peso?
6. Você teve forte desejo de perder peso?
7. Você tentou controlar seu peso ou forma corporal provocando vômitos ou utilizando laxantes?
8. Você se exercitou de forma impulsionada ou compulsiva para controlar peso, forma corporal ou gordura corporal, ou para gastar calorias?
9. Você sentiu perda de controle sobre sua alimentação enquanto comia?
10. Em quantos desses dias, nos quais sentiu perda de controle, você consumiu de uma só vez uma quantidade que outras pessoas considerariam excepcionalmente grande?
11. Até que ponto seu peso ou forma corporal influenciou a maneira como você se avaliou como pessoa?
12. Quão insatisfeito(a) você esteve com seu peso ou forma corporal?

7. Álcool — AUDIT

Responda considerando seu consumo de bebidas alcoólicas no último ano e utilizando o conceito de dose padrão adotado no seu contexto clínico.

1. Com que frequência você consome uma bebida alcoólica?
2. Quantas doses de bebida alcoólica você consome em um dia típico em que está bebendo?
3. Com que frequência você consome 6 ou mais doses em uma única ocasião?
4. No último ano, com que frequência você percebeu que não conseguia parar de beber depois de começar?
5. No último ano, com que frequência você deixou de cumprir o que normalmente era esperado de você por causa da bebida?
6. No último ano, com que frequência você precisou beber pela manhã para se recuperar após ter bebido muito?
7. No último ano, com que frequência você sentiu culpa ou remorso depois de beber?
8. No último ano, com que frequência você não conseguiu lembrar o que aconteceu na noite anterior por ter bebido?
9. Você ou outra pessoa já se feriu em consequência do seu consumo de álcool?
10. Algum familiar, amigo, médico ou outro profissional de saúde demonstrou preocupação com seu consumo de álcool ou sugeriu que você reduzisse?

Resultado da etapa 1

O sistema apresenta os escores e define o próximo passo do fluxo. Resultado positivo de rastreamento não equivale a diagnóstico.

8. Estresse pós-traumático — PC-PTSD-5

Aplicado porque o GAD-7 e/ou o PHQ-9 atingiu o ponto de corte. Independentemente do escore, o fluxo prossegue para avaliação clínica.

Ao longo da vida, você vivenciou algum evento excepcionalmente assustador, horrível ou traumático, como acidente grave, incêndio, agressão, abuso, desastre, guerra, presenciar morte ou lesão grave, ou perda de alguém por homicídio ou suicídio?

9. Uso problemático de substâncias — CAGE-AID

Aplicado devido ao relato de cannabis e/ou tabaco/nicotina nos últimos 6 meses. Responda às quatro perguntas considerando os últimos 3 meses. O álcool já foi avaliado pelo AUDIT.

1. Sentiu que deveria reduzir o uso de substâncias ou drogas?
2. Ficou incomodado(a) porque outras pessoas criticaram seu uso de substâncias ou drogas?
3. Sentiu-se mal ou culpado(a) por seu uso de substâncias ou drogas?
4. Utilizou substâncias ou drogas logo pela manhã para acalmar os nervos, sentir-se melhor ou aliviar efeitos do uso anterior?

Etapa 3. Avaliação clínica

Área de uso exclusivo de médico do esporte e/ou profissional de saúde mental legalmente habilitado.

Integre os resultados ao contexto. Investigue história de saúde mental, tratamentos prévios, medicações, prejuízo funcional, lesões, cirurgias, concussões, assédio ou abuso, transições esportivas, desempenho, uso de substâncias e rede de apoio.
O quadro é grave?
O quadro é complexo?
Existe incerteza diagnóstica que poderia se beneficiar de instrumentos adicionais?
Houve falta de resposta a tratamento anterior?

Instrumentos clínicos adicionais

Selecione somente os questionários que forem clinicamente indicados. Nenhum deles deve ser aplicado automaticamente a todos os atletas.

10. TDAH — ASRS-v1.1, Parte A

Responda considerando como você se sentiu e se comportou nos últimos 6 meses. A ASRS-v1.1 é um instrumento de rastreamento para adultos; em menores de 18 anos, confirme a adequação clínica do instrumento.

1. Com que frequência você tem dificuldade para finalizar os últimos detalhes de um projeto depois que as partes mais desafiadoras já foram concluídas?
2. Com que frequência você tem dificuldade para organizar as coisas quando precisa executar uma tarefa que exige organização?
3. Com que frequência você tem problemas para lembrar compromissos ou obrigações?
4. Quando precisa realizar uma tarefa que exige bastante raciocínio, com que frequência você evita ou adia o início?
5. Com que frequência você mexe ou se contorce com as mãos ou os pés quando precisa permanecer sentado(a) por muito tempo?
6. Com que frequência você se sente excessivamente ativo(a) e compelido(a) a fazer coisas, como se fosse movido(a) por um motor?

11. Transtorno bipolar — MDQ

Instrumento de rastreamento. A interpretação exige avaliação clínica e diagnóstico diferencial.

Já houve algum período em que você não estava como de costume e:

1. Sentiu-se tão bem ou tão hiperativo(a) que outras pessoas acharam que você não estava normal, ou teve problemas por isso?
2. Ficou tão irritado(a) que gritou com pessoas, iniciou brigas ou discussões?
3. Sentiu-se muito mais autoconfiante que o habitual?
4. Dormiu muito menos que o habitual e percebeu que não sentia falta do sono?
5. Ficou muito mais falante ou falou mais rápido que o habitual?
6. Teve pensamentos acelerados ou não conseguiu desacelerar a mente?
7. Ficou tão facilmente distraído(a) pelo ambiente que teve dificuldade de concentração ou de manter o foco?
8. Teve muito mais energia que o habitual?
9. Ficou muito mais ativo(a) ou fez muito mais coisas que o habitual?
10. Ficou muito mais sociável ou extrovertido(a), por exemplo telefonando para amigos no meio da noite?
11. Ficou muito mais interessado(a) em sexo que o habitual?
12. Fez coisas incomuns para você ou que outras pessoas considerariam excessivas, imprudentes ou arriscadas?
13. Gastou dinheiro de forma que causou problemas para você ou sua família?
14. Caso tenha respondido “Sim” a mais de um evento, vários deles aconteceram no mesmo período?
15. Quanto esses eventos causaram problemas no trabalho, na família, nas finanças, na vida jurídica, em discussões ou brigas?
16. Algum parente consanguíneo teve doença maníaco-depressiva ou transtorno bipolar?
17. Algum profissional de saúde já informou que você tem doença maníaco-depressiva ou transtorno bipolar?

12. Jogo problemático — PGSI

Responda considerando os últimos 12 meses.

1. Nos últimos 12 meses, você apostou mais do que realmente podia perder?
2. Nos últimos 12 meses, precisou apostar quantias maiores para obter a mesma sensação de excitação?
3. Depois de perder dinheiro em apostas, voltou em outro dia para tentar recuperar o que perdeu?
4. Pediu dinheiro emprestado ou vendeu algo para conseguir dinheiro para apostar?
5. Sentiu que poderia ter um problema com jogos ou apostas?
6. Os jogos ou apostas causaram problemas de saúde, incluindo estresse ou ansiedade?
7. Outras pessoas criticaram suas apostas ou disseram que você tinha um problema, independentemente de você concordar?
8. Os jogos ou apostas causaram problemas financeiros para você ou sua família?
9. Sentiu culpa pela forma como joga ou aposta, ou pelo que acontece quando joga ou aposta?

13. Luto prolongado — PG-13-R

Aplique somente quando houver perda significativa e indicação clínica.

1. Você perdeu alguém significativo para você?

14. Sintomas obsessivo-compulsivos — OCI-R

Indique quanto cada experiência o(a) incomodou ou causou sofrimento no último mês.

1. Guardei tantas coisas que elas atrapalham meu espaço ou minhas atividades.
2. Verifico as coisas mais vezes do que o necessário.
3. Fico perturbado(a) quando os objetos não estão organizados adequadamente.
4. Sinto-me compelido(a) a contar enquanto faço determinadas atividades.
5. Tenho dificuldade para tocar em um objeto quando sei que foi tocado por estranhos ou por determinadas pessoas.
6. Tenho dificuldade para controlar meus próprios pensamentos.
7. Coleciono coisas de que não preciso.
8. Verifico repetidamente portas, janelas, gavetas e outros objetos.
9. Fico perturbado(a) quando outras pessoas mudam a forma como organizei as coisas.
10. Sinto que preciso repetir determinados números.
11. Às vezes preciso me lavar ou me limpar simplesmente porque me sinto contaminado(a).
12. Fico perturbado(a) por pensamentos desagradáveis que surgem contra minha vontade.
13. Evito jogar coisas fora porque tenho medo de precisar delas depois.
14. Verifico repetidamente torneiras de gás e água e interruptores após desligá-los.
15. Preciso que as coisas estejam organizadas de uma maneira específica.
16. Sinto que existem números bons e números ruins.
17. Lavo minhas mãos com mais frequência e por mais tempo do que o necessário.
18. Tenho pensamentos desagradáveis com frequência e dificuldade para me livrar deles.

15. Risco de psicose — PQ-16

Para cada experiência verdadeira, informe também o sofrimento ou incômodo associado.

1. Sinto desinteresse pelas coisas de que costumava gostar.
2. Frequentemente tenho a impressão de reviver acontecimentos exatamente como ocorreram antes, como um déjà vu.
3. Às vezes sinto cheiros ou sabores que outras pessoas não percebem.
4. Frequentemente ouço sons incomuns, como batidas, estalos, assobios, palmas ou zumbidos.
5. Às vezes fico confuso(a) sobre se algo que vivenciei foi real ou imaginário.
6. Ao olhar para uma pessoa ou para mim no espelho, já vi o rosto mudar diante dos meus olhos.
7. Fico extremamente ansioso(a) ao conhecer pessoas pela primeira vez.
8. Já vi coisas que aparentemente outras pessoas não conseguem ver.
9. Às vezes meus pensamentos são tão fortes que quase consigo ouvi-los.
10. Às vezes percebo significados especiais em anúncios, vitrines ou na forma como as coisas estão organizadas ao meu redor.
11. Às vezes sinto que não controlo minhas próprias ideias ou pensamentos.
12. Às vezes sou subitamente distraído(a) por sons distantes aos quais normalmente não prestaria atenção.
13. Já ouvi coisas que outras pessoas não conseguem ouvir, como vozes sussurrando ou conversando.
14. Frequentemente sinto que outras pessoas têm algo contra mim.
15. Já senti que alguma pessoa ou força estava ao meu redor, mesmo sem conseguir ver ninguém.
16. Sinto que partes do meu corpo mudaram de alguma forma ou funcionam de maneira diferente de antes.

Decisão clínica integrada

Responda após integrar entrevista, história, contexto esportivo e instrumentos adicionais selecionados.

Após todas as informações disponíveis, permanece incerteza diagnóstica relevante?
O caso parece representar uma situação transitória que requer suporte ou intervenção breve contextualizada?

Resumo do rastreamento

Use este resumo como apoio à decisão. Ele não deve ser interpretado isoladamente nem arquivado como diagnóstico automatizado.

Texto para prontuário

O registro abaixo reúne escores, interpretações, respostas marcadas, avaliação clínica e plano. Revise e edite o conteúdo antes de inseri-lo no prontuário. O texto permanece somente neste navegador.

Esta ferramenta destina-se a fins educacionais e não substitui o julgamento clínico profissional.

Interprete os resultados em conjunto com o contexto clínico, protocolos institucionais e diretrizes aplicáveis.

Base científica, limitações e direitos de uso

Fluxo baseado em Gouttebarge V et al. International Olympic Committee Sport Mental Health Assessment Tool 2: development, content validity and feasibility. Br J Sports Med. 2026. DOI: 10.1136/bjsports-2025-111408.

Instrumentos: GAD-7, PHQ-9, ASSQ/SDS, EDE-QS, AUDIT, PC-PTSD-5, CAGE-AID, ASRS-v1.1, MDQ, PGSI, PG-13-R, OCI-R e PQ-16.

O artigo do IOC informa que o SMHAT2 oficial não deve ser modificado, rebatizado ou utilizado para ganho comercial sem aprovação do IOC Mental Health Working Group. Confirme também as permissões de tradução, reprodução e publicação de cada questionário antes de disponibilizar esta implementação publicamente.

A saúde mental faz parte da saúde integral e do desempenho esportivo. Ansiedade, depressão, alterações do sono, uso problemático de substâncias e transtornos alimentares podem atingir atletas de alto rendimento com frequência semelhante ou até superior à observada na população geral.

Para facilitar a identificação precoce desses problemas, o Comitê Olímpico Internacional desenvolveu o IOC Sport Mental Health Assessment Tool 2, conhecido como IOC SMHAT2.

O instrumento foi apresentado em 2026 no British Journal of Sports Medicine como uma atualização do SMHAT-1. Seu objetivo é ajudar profissionais de saúde a identificar atletas que possam estar apresentando sintomas ou transtornos de saúde mental e que necessitem de avaliação clínica, suporte ou tratamento.

O questionário disponibilizado acima deve ser entendido como uma ferramenta de triagem. Um resultado positivo não estabelece diagnóstico e não deve ser interpretado isoladamente.

O que é o IOC SMHAT2?

O IOC SMHAT2 é um instrumento estruturado para a triagem de saúde mental em atletas de elite com 16 anos ou mais.

Para os autores, a definição de atleta de elite inclui atletas:

  • profissionais;
  • olímpicos;
  • paralímpicos;
  • universitários que competem em nível de alto rendimento.

A ferramenta foi desenvolvida principalmente para médicos do esporte e outros profissionais de saúde devidamente licenciados ou registrados.

Embora diferentes profissionais possam participar da aplicação inicial do questionário, a avaliação clínica, o diagnóstico e a definição do tratamento devem permanecer sob responsabilidade de um médico do esporte ou de um profissional de saúde mental com formação clínica, como psiquiatra ou psicólogo clínico.

Por que o SMHAT-1 precisou ser atualizado?

A primeira versão, chamada SMHAT-1, representou um avanço ao criar um fluxo padronizado para avaliar a saúde mental no esporte. Entretanto, estudos posteriores identificaram limitações importantes no questionário utilizado como triagem inicial.

A análise de dados de 1.035 atletas de elite demonstrou que o primeiro instrumento poderia deixar de identificar parte dos atletas com alterações específicas, principalmente relacionadas a sono, uso de álcool, uso de outras substâncias e comportamento alimentar. Também foram observadas proporções elevadas de resultados falso-positivos.

Na comparação entre a primeira etapa do SMHAT-1 e os questionários específicos, as taxas de falso-negativo chegaram a:

  • 23% para alterações do sono;
  • 35% para uso problemático de álcool;
  • 21% para uso de substâncias;
  • 34% para comportamento alimentar desordenado.

Esses resultados levaram o grupo de trabalho do Comitê Olímpico Internacional a retirar o antigo questionário de triagem geral e iniciar o IOC SMHAT2 diretamente com instrumentos específicos para diferentes problemas de saúde mental.

A nova versão também incorporou a experiência de usuários do SMHAT-1, entrevistas com profissionais, revisão da literatura, análise de dados clínicos, reunião de especialistas e avaliação de validade de conteúdo e viabilidade.

Como funciona o IOC SMHAT2?

O IOC SMHAT2 mantém uma estrutura dividida em três etapas:

  1. triagem universal;
  2. triagem condicional;
  3. avaliação clínica e definição da conduta.

O caminho seguido pelo atleta depende das respostas e das pontuações obtidas em cada questionário.

Etapa 1: triagem universal

A primeira etapa deve ser aplicada a todos os atletas avaliados. Ela investiga sete áreas relacionadas à saúde mental.

Ansiedade

A ansiedade é avaliada pelo GAD-7, questionário com sete itens sobre sintomas apresentados nas últimas duas semanas.

Uma pontuação igual ou superior a 10 é considerada positiva e encaminha o atleta para a avaliação de sintomas relacionados ao transtorno de estresse pós-traumático.

Depressão e ideação suicida

Os sintomas depressivos são avaliados pelo PHQ-9, que investiga as últimas duas semanas.

Uma pontuação total igual ou superior a 10 é considerada positiva. Entretanto, o item 9 do PHQ-9, relacionado a pensamentos de morte ou autoagressão, possui importância independente.

Uma resposta positiva nesse item exige ação clínica direta, mesmo que a pontuação total do questionário seja inferior ao ponto de corte.

Alterações do sono

A qualidade e os problemas relacionados ao sono são avaliados pelo Athlete Sleep Screening Questionnaire, o ASSQ.

Uma pontuação igual ou superior a 8 indica necessidade de avaliação clínica mais detalhada.

Comportamento alimentar desordenado

O IOC SMHAT2 utiliza o Eating Disorder Examination Questionnaire Short, ou EDE-QS, composto por 12 questões.

Uma pontuação igual ou superior a 15 indica a necessidade de aprofundar a avaliação clínica sobre comportamento alimentar, imagem corporal, restrição alimentar e possíveis transtornos alimentares.

Uso problemático de álcool

A avaliação do consumo de álcool é realizada pelo AUDIT, questionário de dez itens desenvolvido para identificar padrões de consumo de risco, uso prejudicial e possível dependência.

No IOC SMHAT2, uma pontuação igual ou superior a 8 direciona o atleta para avaliação clínica.

Uso de cannabis

O atleta responde se utilizou cannabis, maconha ou produtos relacionados nos últimos seis meses.

Uma resposta positiva direciona para o CAGE-AID, questionário utilizado na segunda etapa para investigar possíveis problemas relacionados ao uso de substâncias.

Uso de tabaco ou nicotina

Também é investigado o uso de produtos contendo tabaco ou nicotina nos últimos seis meses.

Uma resposta positiva leva à aplicação do CAGE-AID e, posteriormente, à avaliação clínica.

Etapa 2: triagem condicional

A segunda etapa não é aplicada obrigatoriamente a todos os atletas. Ela é acionada por determinadas respostas da triagem universal.

Avaliação de estresse pós-traumático

Quando o atleta apresenta resultado positivo para ansiedade ou depressão, deve responder ao PC-PTSD-5.

Esse questionário investiga sintomas relacionados ao transtorno de estresse pós-traumático durante o último mês. A inclusão dessa avaliação considera a frequente associação entre trauma, ansiedade e depressão.

Independentemente da pontuação obtida no PC-PTSD-5, o atleta deve prosseguir para a avaliação clínica.

Avaliação do uso de substâncias

Uma resposta positiva para uso de cannabis, tabaco ou nicotina aciona o CAGE-AID.

O instrumento investiga sinais de uso problemático de drogas e outras substâncias durante os últimos três meses. O álcool não é o foco dessa etapa porque já foi avaliado de forma específica pelo AUDIT.

Depois do CAGE-AID, o atleta também deve seguir para avaliação clínica, independentemente da pontuação final.

Etapa 3: avaliação clínica

A terceira etapa é o componente central do IOC SMHAT2.

Os questionários utilizados nas etapas anteriores não estabelecem diagnóstico. Eles apenas identificam sintomas ou situações que precisam ser investigados de maneira mais detalhada.

A avaliação clínica deve analisar:

  • histórico de saúde mental;
  • contexto esportivo e familiar;
  • presença de lesões ou doenças;
  • exposição a assédio, abuso ou eventos traumáticos;
  • gravidade e complexidade dos sintomas;
  • prejuízo funcional;
  • tratamentos anteriores;
  • resposta ou ausência de resposta a tratamentos prévios;
  • risco imediato para o atleta.

Dependendo do caso, o profissional poderá oferecer suporte inicial, estabelecer um plano de tratamento, solicitar avaliações adicionais ou encaminhar o atleta para um psiquiatra, psicólogo clínico ou outro profissional qualificado.

O IOC SMHAT2 também sugere instrumentos complementares quando houver suspeita de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, transtorno bipolar, jogo problemático, luto prolongado, transtorno obsessivo-compulsivo ou psicose.

Resultado positivo no IOC SMHAT2 significa diagnóstico?

Não.

Um resultado positivo significa que o atleta apresentou sintomas suficientes para justificar uma avaliação clínica mais detalhada.

Questionários de triagem podem produzir resultados falso-positivos e falso-negativos. Além disso, fatores próprios do esporte, como lesões, calendário de competições, mudança de equipe, pressão por desempenho, viagens, aposentadoria e conflitos internos, podem interferir nas respostas.

Por isso, a pontuação deve ser interpretada dentro da realidade individual de cada atleta.

O diagnóstico de um transtorno mental depende de entrevista clínica, avaliação funcional, análise da duração dos sintomas, exclusão de outras causas e julgamento de um profissional qualificado.

Quando o IOC SMHAT2 deve ser aplicado?

Os autores recomendam que o IOC SMHAT2 seja incorporado à avaliação periódica do atleta.

Um dos momentos mais indicados é a pré-temporada, preferencialmente algumas semanas após o início dos treinamentos, mas antes do período competitivo.

A ferramenta também pode ser aplicada no meio ou no final da temporada e diante de acontecimentos potencialmente relevantes, como:

  • lesão, doença ou cirurgia;
  • queda inexplicada de desempenho;
  • competição importante;
  • término de um ciclo competitivo;
  • suspeita de assédio ou abuso;
  • evento adverso na vida pessoal;
  • afastamento ou exclusão de uma equipe;
  • aposentadoria ou transição para fora do esporte.

Mesmo quando nenhum problema é identificado, o atleta deve receber uma devolutiva. Essa conversa ajuda a aumentar a confiança no processo, melhorar o conhecimento sobre saúde mental e reduzir o estigma relacionado à procura por ajuda.

Quanto tempo leva para responder ao IOC SMHAT2?

A primeira etapa leva aproximadamente dez minutos.

Quando o atleta precisa realizar a triagem condicional e uma avaliação clínica completa, o processo pode chegar a cerca de 60 minutos.

Embora esse tempo possa representar uma dificuldade em ambientes com poucos profissionais, os autores argumentam que a avaliação da saúde mental deve receber prioridade semelhante à avaliação cardiovascular, musculoesquelética e de outras condições clínicas relevantes para o atleta.

Quais foram os principais avanços do IOC SMHAT2?

A principal mudança foi a substituição de uma triagem geral curta por questionários específicos para cada grupo de sintomas.

Outras mudanças importantes incluem:

  • utilização do GAD-7 completo para ansiedade;
  • manutenção do PHQ-9 para depressão e ideação suicida;
  • avaliação direta dos problemas do sono;
  • substituição do BEDA-Q pelo EDE-QS;
  • substituição do AUDIT-C pelo AUDIT completo;
  • inclusão de perguntas específicas sobre cannabis e nicotina;
  • maior destaque para sintomas de estresse pós-traumático;
  • encaminhamento mais claro entre triagem e avaliação clínica.

Na avaliação de validade de conteúdo, 58 profissionais de saúde analisaram os componentes do IOC SMHAT2. Todos os componentes alcançaram o critério previamente definido de concordância sobre relevância e adequação.

A média da escala de viabilidade foi de 15,8 pontos em um máximo de 20, indicando que, de maneira geral, os profissionais consideraram possível implementar a ferramenta, embora tenham destacado dificuldades relacionadas a tempo, recursos, treinamento e acesso a serviços especializados.

Quais são as limitações do IOC SMHAT2?

Apesar dos avanços, o IOC SMHAT2 não elimina todas as dificuldades da avaliação de saúde mental no esporte.

A ferramenta depende de respostas fornecidas pelo próprio atleta. O medo de perder espaço na equipe, sofrer julgamento ou ter informações confidenciais expostas pode levar à omissão ou minimização de sintomas.

Além disso, os questionários não apresentam sensibilidade e especificidade de 100%. Portanto, nenhum resultado deve substituir a entrevista clínica.

Outro ponto importante é que, no momento da publicação do estudo, o IOC SMHAT2 estava disponível oficialmente apenas em inglês. A avaliação de validade de conteúdo também não contou com participantes da América do Sul.

Isso reforça a necessidade de tradução, adaptação cultural e estudos de validação em diferentes países, modalidades esportivas e níveis de competição antes de assumir que o instrumento apresenta o mesmo desempenho em todas as populações.

O IOC SMHAT2 pode ser usado por qualquer atleta?

O instrumento foi desenvolvido especificamente para atletas de elite com 16 anos ou mais.

Seu uso em atletas recreativos, praticantes de atividade física ou crianças não foi o objetivo principal do estudo. Nessas populações, os questionários individuais podem continuar sendo úteis, mas a interpretação do fluxo completo do IOC SMHAT2 deve ser feita com cautela.

Por que a triagem de saúde mental deve fazer parte da medicina esportiva?

A saúde mental interfere na recuperação de lesões, no sono, na alimentação, na adesão ao tratamento, no relacionamento com a equipe, na tomada de decisões e na qualidade de vida.

Entretanto, o objetivo da triagem não deve ser apenas preservar o desempenho esportivo. O atleta deve ser acompanhado como pessoa, inclusive durante períodos de afastamento, transição de carreira ou aposentadoria.

Ao organizar um fluxo padronizado, o IOC SMHAT2 pode ajudar equipes médicas e organizações esportivas a reconhecer problemas mais cedo, estabelecer caminhos de encaminhamento e oferecer suporte antes que os sintomas se tornem mais graves.

Conclusão

O IOC SMHAT2 representa uma atualização importante na avaliação da saúde mental de atletas de elite.

A ferramenta combina questionários validados para ansiedade, depressão, sono, comportamento alimentar, álcool, uso de substâncias e estresse pós-traumático com uma etapa obrigatória de avaliação clínica quando alterações são identificadas.

Seu maior valor não está em gerar um diagnóstico automático, mas em criar um caminho estruturado entre a identificação dos sintomas e o acesso ao cuidado adequado.

Ao responder ao questionário disponível nesta página, lembre-se: uma pontuação positiva não significa necessariamente a presença de um transtorno mental. Ela indica que o resultado deve ser discutido com um médico do esporte ou profissional de saúde mental qualificado.

Referência

Gouttebarge V, Bindra A, Blauwet C, et al. International Olympic Committee Sport Mental Health Assessment Tool 2 (IOC SMHAT2): development, content validity and feasibility. British Journal of Sports Medicine. 2026. DOI: 10.1136/bjsports-2025-111408.

Autor:

Foto de Dr. Guilherme Alfonso Vieira Adami

Dr. Guilherme Alfonso Vieira Adami

CRM-SP 254738

Sou médico residente em Medicina do Esporte e do Exercício pela Universidade de São Paulo (USP), com atuação voltada para avaliação cardiovascular do atleta, fisiologia do exercício e medicina baseada em evidência aplicada ao esporte.

Atuo profissionalmente com métodos gráficos de avaliação cardiovascular, realizando teste ergométrico, eletrocardiograma e monitorização ambulatorial da pressão arterial (MAPA) em serviços de diagnóstico como Grupo A+ e dr.consulta, além de atendimento em consultório privado.

Também sou médico da Seleção Brasileira de Rugby em Cadeira de Rodas, acompanhando atletas paralímpicos em treinamentos e competições.

Sou fundador da MedEsporte Papers, uma plataforma educacional dedicada à produção e divulgação de conteúdo científico em medicina do esporte, com foco na tradução da literatura científica para a prática clínica.

Meu trabalho é voltado para análise crítica da literatura científica, educação médica e aplicação prática da ciência do exercício na medicina.

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