A obesidade é uma doença crônica complexa, associada ao aumento do risco cardiovascular, diabetes tipo 2, doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica (MASLD), apneia do sono e diversas outras complicações.
Nos últimos anos, os agonistas do receptor de GLP-1 revolucionaram o tratamento da obesidade. Mais recentemente, a tirzepatida chamou atenção por apresentar resultados de perda de peso que se aproximam daqueles observados após algumas técnicas de cirurgia bariátrica.
Mas afinal: a tirzepatida para tratamento da obesidade em pacientes sem diabetes realmente funciona?
Os dados científicos atuais sugerem que sim. Os estudos mostram reduções expressivas de peso corporal, melhora de parâmetros cardiometabólicos e altas taxas de resposta clínica em pacientes com obesidade.
Para médicos que desejam compreender como integrar farmacoterapia, exercício físico e estratégias de composição corporal no manejo da obesidade, esse é um dos temas abordados no curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber.
O que é a tirzepatida?
A tirzepatida é um agonista duplo dos receptores de GIP (glucose-dependent insulinotropic polypeptide) e GLP-1 (glucagon-like peptide-1).
Essa ação combinada promove:
- aumento da saciedade;
- redução do apetite;
- retardo do esvaziamento gástrico;
- melhora da sensibilidade à insulina;
- redução da ingestão calórica espontânea.
O resultado é uma perda de peso que ultrapassa significativamente aquela observada apenas com intervenções comportamentais.
O estudo SURMOUNT-1: marco no tratamento da obesidade
A aprovação da tirzepatida para tratamento da obesidade, em novembro de 2023, foi baseada principalmente no resultado de fase 3 do estudo SURMOUNT-1, que avaliou 2.539 adultos com obesidade ou sobrepeso sem diabetes durante 72 semanas.
Os resultados impressionaram a comunidade médica:
- 5 mg: perda média de 15,0% do peso corporal;
- 10 mg: perda média de 19,5%;
- 15 mg: perda média de 20,9%;
- placebo: perda média de apenas 3,1%.
Além disso:
- aproximadamente 91% dos participantes tratados com 15 mg perderam pelo menos 5% do peso corporal;
- cerca de 57% atingiram perda superior a 20%.
Na prática, esses números aproximam os resultados farmacológicos daqueles historicamente observados após algumas técnicas de cirurgia bariátrica.
Para aprofundar a discussão sobre os estudos de tirzepatida, vale consultar também o conteúdo sobre SURMOUNT-1 já publicado pela MedEsporte Papers.
O que mostram as metanálises mais recentes?
Embora o estudo SURMOUNT-1 seja a principal referência para o uso da tirzepatida na obesidade, análises que agrupam múltiplos ensaios clínicos ajudam a confirmar a consistência dos resultados observados.
Uma metanálise recente que incluiu seis ensaios clínicos randomizados em pacientes com obesidade ou sobrepeso sem diabetes demonstrou que a tirzepatida promoveu uma redução média de 16,32% do peso corporal em comparação com placebo (IC 95%: -18,35% a -14,29%), correspondendo a uma redução absoluta média de 13,95 kg. Esses resultados reforçam que a magnitude da perda ponderal observada nos estudos individuais é reproduzida quando os dados são analisados de forma conjunta.
Outra metanálise que comparou os efeitos da tirzepatida de acordo com a presença ou ausência de diabetes evidenciou que os benefícios relacionados à perda de peso foram significativamente maiores em indivíduos sem diabetes, com redução relativa média de 17,15%, em comparação com 9,54% nos pacientes com diabetes tipo 2.
Embora os mecanismos exatos ainda estejam sendo investigados, algumas hipóteses incluem diferenças metabólicas relacionadas à resistência insulínica, ao uso concomitante de medicamentos antidiabéticos e às adaptações fisiológicas próprias do diabetes tipo 2. Do ponto de vista clínico, esses dados ajudam a explicar por que os resultados mais impressionantes da tirzepatida costumam ser observados em estudos conduzidos especificamente em pacientes com obesidade sem diabetes.
Benefícios além da perda de peso
A redução do peso corporal é o principal desfecho avaliado nos estudos, mas não é o único benefício observado.
A literatura demonstra melhora consistente de diversos parâmetros cardiometabólicos, incluindo:
- circunferência abdominal;
- pressão arterial;
- hemoglobina glicada;
- perfil lipídico;
- resistência insulínica.
Além disso, análises recentes apontam benefício potencial sobre a doença hepática associada à disfunção metabólica (MASLD), uma das complicações mais frequentes da obesidade.
Entre participantes com pré-diabetes, também foram observadas taxas elevadas de retorno à normoglicemia durante o tratamento.
Esses resultados reforçam que o impacto clínico da tirzepatida vai além da simples redução do peso corporal.
O que esses resultados significam para a prática clínica?
Durante décadas, uma perda de peso de 5% a 10% já era considerada clinicamente relevante para reduzir o risco cardiometabólico.
Com a chegada da tirzepatida, o cenário mudou de forma significativa.
Os dados do SURMOUNT-1 demonstraram perdas médias entre 15% e 21% do peso corporal ao longo de 72 semanas, enquanto metanálises recentes confirmaram reduções próximas de 16% em pacientes sem diabetes. Além disso, os benefícios parecem ser ainda mais expressivos nessa população quando comparados aos indivíduos com diabetes tipo 2.
Mais importante do que a redução observada na balança, esses resultados vieram acompanhados de melhora de múltiplos fatores de risco cardiometabólico e de condições frequentemente associadas à obesidade.
Isso reforça um conceito fundamental da medicina baseada em evidências: o objetivo do tratamento da obesidade não deve ser apenas promover emagrecimento, mas reduzir o impacto sistêmico da doença e suas complicações.
Dessa forma, a tirzepatida representa um dos maiores avanços já observados no tratamento farmacológico da obesidade. Embora ainda existam questões em aberto relacionadas à manutenção dos resultados em longo prazo e à melhor estratégia terapêutica para cada perfil de paciente, as evidências atuais posicionam a medicação entre as intervenções mais eficazes disponíveis para o manejo da obesidade.
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Referências
JASTREBOFF, A. M. et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity. New England Journal of Medicine, v. 387, n. 3, p. 205-216, 2022.
KOMMU, S.; SHARMA, P. P.; GABOR, R. M. Efficacy and Safety of Tirzepatide on Weight Loss in Patients Without Diabetes Mellitus: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. Obesity Reviews, 2025.
CERCHI, E. et al. Effects of Tirzepatide on Weight Management in Patients With and Without Diabetes: A Systematic Review and Meta-Analysis. International Journal of Obesity, 2025.
Autor
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Médica ortopedista pela Santa Casa de São Paulo, especialista em doenças neuromusculares e pós-graduada em Medicina Esportiva - CRM SP 214165 | RQE 125200 | TEOT 19613 | SBOP 1056
Atuo na ortopedia pediátrica, medicina esportiva e prevenção de lesões, com foco na saúde e no movimento em todas as fases da vida. Acredito na medicina baseada em evidências associada a um olhar individualizado, especialmente no cuidado de crianças e adolescentes em fase de crescimento, prática esportiva e reabilitação.
