O que é a Bioglutida? A “nova revolução da obesidade” ou um possível golpe da indústria?

O que é a bioglutida (NA-931)?

Nos últimos meses, um nome começou a circular com força em grupos médicos, redes sociais e até em apresentações científicas: bioglutida (NA-931).

Segundo os materiais divulgados pela própria empresa responsável, a bioglutida (NA-931) é apresentada como um novo composto experimental para o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, desenvolvido pela empresa Biomed Industries. De acordo com os materiais promocionais da companhia, a molécula teria potencial para superar terapias consagradas como semaglutida e tirzepatida, atuando simultaneamente em múltiplos receptores metabólicos.

Mas existe um problema.

Quando analisamos as evidências científicas disponíveis — registros de estudos clínicos, bases de dados biomédicas e publicações revisadas por pares — surge um cenário muito diferente de uma revolução terapêutica. Quase não existem dados científicos verificáveis sobre essa molécula.

Neste artigo vou explicar:

  • o que a bioglutida se propõe a ser

  • quais resultados foram divulgados em press releases

  • e, principalmente, as evidências de que essa molécula provavelmente sequer existe

Antes de continuarmos, vale um comentário rápido.

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Agora vamos aos fatos.

Qual o mecanismo de ação da Bioglutida (NA-931)?

A bioglutida, também chamada de NA-931, é apresentada como uma nova medicação para obesidade desenvolvida pela empresa Biomed Industries.

Segundo os materiais divulgados pela empresa, a molécula seria:

  • uma pequena molécula administrada por via oral

  • capaz de ativar quatro receptores metabólicos simultaneamente

Os alvos propostos seriam:

ReceptorFunção
GLP-1Raumento da saciedade e estímulo insulínico
GIPRmodulação metabólica
GCGRaumento do gasto energético
IGF-1Rsuposto efeito anabólico

A ideia seria criar um agonista quádruplo, combinando:

  • efeitos incretínicos

  • aumento de gasto energético

  • preservação de massa muscular

Em teoria, isso permitiria uma perda de peso extremamente rápida com poucos efeitos colaterais.

 

Infográfico do NA-931 (Bioglutide) mostrando agonismo de GLP-1, GIP, glucagon e IGF-1 no controle glicêmico, metabolismo e anabolismo muscular.

Os resultados divulgados pela empresa

Segundo press releases divulgados pela Biomed Industries, um estudo clínico teria demonstrado resultados impressionantes.

O estudo seria:

  • randomizado

  • duplo-cego

  • controlado por placebo

  • com 125 participantes

Os resultados divulgados foram:

  • 13,8% de perda de peso em apenas 13 semanas

  • diferença de 12,4% vs placebo

  • 72% dos participantes perderam ≥12% do peso corporal

  • apenas 7,3% de náusea

  • 0% de perda de massa muscular

Em outras palavras: resultados melhores que terapias líderes do mercado no mesmo período.

Se esses dados fossem reais, estaríamos diante de uma das maiores descobertas farmacológicas da história da obesidade.

Mas aqui começam os problemas.

Primeira evidência de fraude: não existem estudos publicados

Quando tentamos verificar a existência científica da bioglutida, o cenário chama atenção.

Ao pesquisar no PubMed, não aparece absolutamente nenhum artigo sobre a molécula, nem estudo pré-clínico completo, nem fase 1, nem fase 2, nem qualquer publicação revisada por pares relacionada ao composto NA-931.

Isso é particularmente curioso porque, ao mesmo tempo, a substância vem sendo divulgada com promessas extremamente ambiciosas e com resultados supostamente muito expressivos.

Na prática, o que existe de material público são basicamente press releases corporativos e resumos/banner de congresso. Um desses materiais foi apresentado no 5th World Summit on Neonatology, Pediatrics and Developmental Medicine, realizado em Londres, nos dias 27 e 28 de junho de 2024, sob o título “NA-931, a novel quadruple IGF-1, GLP-1, GIP and glucagon receptor agonist for the treatment of obesity”. Nesse resumo, a empresa descreve resultados pré-clínicos em camundongos com obesidade induzida por dieta, alegando redução de peso corporal e melhora de parâmetros metabólicos.

O problema é que resumo de congresso não tem o mesmo peso de um artigo científico completo. Esse tipo de apresentação costuma servir para mostrar resultados preliminares, divulgar uma linha de pesquisa em andamento e abrir discussão inicial com a comunidade científica. A revisão desse material, em geral, não é tão rigorosa nem tão profunda quanto a revisão por pares de uma revista científica, porque normalmente não há análise completa de metodologia, dados brutos, limitações, suplementares e reprodutibilidade.

Em um fluxo científico normal, quando os achados realmente são robustos, o esperado é que depois do resumo ou banner venha a publicação completa do estudo, com descrição detalhada do desenho experimental, análise estatística, limitações e dados completos. No caso da bioglutida, esse artigo completo nunca apareceu.

Por isso, o ponto central não é dizer que não exista nenhuma menção pública à molécula. Existe. Mas é muito incomum que uma droga apresentada como revolucionária permaneça restrita a banners de congresso e press releases, sem que surja depois qualquer publicação científica completa e revisada por pares.

 

Captura de tela do PubMed mostrando busca por NA-931 e Bioglutide sem resultados na base da National Library of Medicine.

Segunda evidência: inconsistência nas datas dos estudos clínicos

Outra inconsistência aparece quando comparamos as datas registradas pela própria empresa no ClinicalTrials.gov com as datas em que os resultados foram divulgados no site institucional.

No banco público de ensaios clínicos existem dois registros relacionados ao composto NA-931:

Estudo de Fase 1
Registro: https://clinicaltrials.gov/study/NCT06615700?cond=NA-931&rank=2
Segundo o cadastro feito pela própria empresa:

  • Início: 06 de maio de 2024

  • Conclusão: 20 de setembro de 2024

Estudo de Fase 2
Registro: https://clinicaltrials.gov/study/NCT06564753?cond=NA-931&rank=3

  • Início: 19 de julho de 2024

  • Conclusão prevista: 18 de abril de 2025

Ou seja, de acordo com o registro oficial, o desenvolvimento clínico seguiria a sequência esperada: primeiro a fase 1 em humanos, depois a fase 2.

O problema aparece quando olhamos o próprio site da empresa:

https://www.biomedind.com/news.html

No dia 12 de março de 2024, a empresa já publicava resultados do estudo de Fase 2, incluindo dados de eficácia e perda de peso.

Colocando as datas lado a lado:

  • 12/03/2024 — resultados de fase 2 já divulgados pela empresa

  • 06/05/2024 — início registrado do primeiro estudo de fase 1 em humanos

  • 19/07/2024 — início registrado do estudo de fase 2

  • 18/04/2025 — data prevista de conclusão da fase 2

Ou seja, os resultados da fase 2 foram divulgados quatro meses antes do estudo começar e mais de um ano antes da data prevista para terminar.

Em pesquisa clínica, a sequência normal seria:

  1. registrar o estudo

  2. recrutar participantes

  3. conduzir o estudo

  4. analisar os dados

  5. só então divulgar os resultados

Quando resultados aparecem antes mesmo do início oficial do estudo, isso naturalmente levanta uma pergunta importante:

se os resultados já estavam divulgados antes do estudo começar, será que esse estudo realmente ocorreu?

Captura do ClinicalTrials.gov mostrando estudo fase 1 do NA-931 e comparação com comunicados de imprensa com datas anteriores.

Terceira evidência: a natureza da molécula muda dependendo da fonte

Outra inconsistência aparece quando analisamos como a própria empresa descreve a bioglutida em diferentes documentos.

Nos press releases e textos de marketing da Biomed, a bioglutida é descrita repetidamente como uma pequena molécula administrada por via oral, algo semelhante ao que está sendo desenvolvido com drogas como o orforglipron, da Eli Lilly. Essa descrição faz sentido dentro da lógica farmacológica: pequenas moléculas conseguem ser absorvidas por via oral, enquanto a maioria dos peptídeos é degradada no trato gastrointestinal.

Ou seja, nos materiais promocionais a bioglutida é apresentada como uma nova terapia oral para obesidade baseada em pequena molécula, o que justificaria o fato de ser tomada em comprimidos.

O problema aparece quando analisamos o registro do estudo no ClinicalTrials.gov. Nesse documento, o composto NA-931 é descrito como um peptídeo.

Essas duas classificações são quimicamente incompatíveis.

  • Peptídeos são cadeias de aminoácidos e, na grande maioria dos casos, precisam ser administrados por injeção, pois são degradados pelas enzimas digestivas.

  • Pequenas moléculas são compostos químicos de baixo peso molecular que podem ser absorvidos por via oral.

Por isso, é curioso que a mesma substância apareça descrita de duas formas completamente diferentes:

  • nos press releases da empresa: pequena molécula oral

  • no registro do estudo clínico: peptídeo

Essa inconsistência levanta uma dúvida básica: afinal, que tipo de molécula é a bioglutida?

 

Imagem comparando comunicados da Biomed que descrevem NA-931 como pequena molécula e registro clínico que o classifica como peptídeo.

Quarta evidência: o protocolo do estudo parece ter sido copiado de outro medicamento

Quando analisamos o registro do estudo de fase 2 da bioglutida (NA-931) no ClinicalTrials.gov, surge outro detalhe curioso.

Estudo da bioglutida:
https://clinicaltrials.gov/study/NCT06564753?cond=NA-931&rank=3

Agora compare com o estudo de outro medicamento real em desenvolvimento, o VK2735, da Viking Therapeutics:

https://clinicaltrials.gov/study/NCT06068946

Ao comparar os dois registros, percebe-se que o desenho do estudo é praticamente idêntico. Ambos são descritos como:

“A Phase 2 Randomized, Double-Blind, Placebo-Controlled, 13-week Study … in Subjects Who Are Obese or Overweight With at Least One Weight-related Comorbid Condition.”

A semelhança não está apenas na ideia geral do estudo — o que poderia acontecer entre pesquisas diferentes. O problema é que a estrutura do protocolo parece ter sido copiada diretamente.

Alguns exemplos:

  • mesma duração do estudo (13 semanas)

  • mesma estrutura de braços placebo e tratamento

  • mesma descrição textual do objetivo do estudo

  • mesma organização das seções

Além disso, no registro da bioglutida aparecem erros típicos de “copiar e colar”, como campos duplicados.

No trecho Arms and Interventions, por exemplo, aparece:

Drug: Drug: NA-931 dose 1, daily and orally

Ou seja, o título “Drug” aparece duplicado, algo que normalmente acontece quando um texto é copiado de outro protocolo e colado sem revisão completa.

Imagem comparando descrições de estudos clínicos de NA-931 e VK2735 mostrando textos muito semelhantes sobre desenho do estudo.

Quinta evidência: outro protocolo copiado — agora do bimagrumabe

Ao continuar analisando os registros do NA-931 no ClinicalTrials.gov, aparece um terceiro estudo:

https://clinicaltrials.gov/study/NCT06732245?cond=NA-931&rank=1

Esse registro traz outro detalhe curioso. O desenho do estudo é muito semelhante ao de ensaios clínicos conduzidos com o bimagrumabe, um medicamento completamente diferente.

O bimagrumabe é um anticorpo monoclonal, e por isso os estudos clínicos dessa classe de fármacos normalmente incluem critérios de segurança específicos relacionados a reações imunológicas a anticorpos monoclonais.

No entanto, no protocolo registrado para o NA-931, aparece justamente um critério de exclusão típico desse tipo de droga:

exclusão de pacientes com histórico de reação a anticorpos monoclonais

Esse detalhe chama atenção porque, até aqui, a própria empresa já descreveu o NA-931 de formas diferentes:

  • nos press releases, como pequena molécula oral

  • no ClinicalTrials, como peptídeo

  • e agora, no desenho desse novo estudo, aparecem critérios típicos de anticorpos monoclonais

Ou seja, ao longo dos documentos, a mesma substância parece assumir três naturezas completamente diferentes:

  • pequena molécula

  • peptídeo

  • anticorpo monoclonal

Esse tipo de inconsistência reforça a impressão observada nos registros anteriores: partes do protocolo parecem ter sido copiadas de estudos de outras moléculas, sem que os critérios fossem completamente revisados para o novo composto.

Imagem comparando critérios de exclusão de estudo clínico do NA-931 com texto semelhante ao usado em estudos com bimagrumabe.

Sexta evidência: o histórico do CEO da empresa

Outro elemento que costuma ser analisado quando avaliamos a credibilidade de uma descoberta científica é o histórico de quem está por trás da empresa.

O CEO da Biomed Industries é Lloyd L. Tran, químico medicinal que aparece como autor de diversas apresentações e comunicados relacionados aos compostos da empresa.

No entanto, o nome de Lloyd Tran já apareceu em problemas legais no passado. Em 1991, a Securities and Exchange Commission (SEC) dos Estados Unidos acusou Tran de fornecer informações falsas ou incompletas a investidores ao vender ações de uma empresa anterior ligada a dispositivos médicos. Segundo a acusação, cerca de US$ 2 milhões em ações não registradas foram vendidas para mais de 100 investidores, enquanto a situação financeira real da empresa não era divulgada adequadamente. (Los Angeles Times)

Na mesma época, o produto que ele promovia também teria sido apresentado como tendo aprovação da FDA quando essa aprovação não existia, segundo a própria investigação da SEC. (Los Angeles Times)

O caso resultou em um processo civil da SEC buscando impedir que práticas semelhantes continuassem a ocorrer.

Esse histórico, por si só, não prova que qualquer novo projeto seja necessariamente fraudulento. No entanto, quando um novo medicamento é apresentado com:

  • ausência de artigos científicos revisados por pares

  • inconsistências em registros de estudos clínicos

  • protocolos aparentemente copiados de outros ensaios

o passado do principal responsável pela empresa naturalmente passa a ser um fator adicional de questionamento sobre a credibilidade das afirmações feitas pela companhia.

Imagem mostrando documento judicial contra Loi H. Tran e perfil de Lloyd L. Tran, CEO da Biomed Industries.

Conclusão: revolução da medicina ou mais um golpe?

Depois de analisar todas as evidências, chegamos a um cenário no mínimo curioso.

A bioglutida (NA-931) vem sendo divulgada com resultados extremamente promissores para perda de peso, supostamente comparáveis ou superiores aos melhores medicamentos atuais.

Ao mesmo tempo, ao longo dos documentos analisados, a própria molécula já foi descrita de formas completamente diferentes:

  • como pequena molécula oral nos materiais de marketing

  • como peptídeo nos registros do ClinicalTrials

  • e com critérios típicos de anticorpos monoclonais em outro protocolo clínico

Além disso, encontramos uma série de inconsistências:

  • nenhum artigo científico no PubMed

  • apenas banners de congresso e press releases corporativos

  • resultados divulgados antes mesmo do início do estudo clínico

  • protocolos clínicos extremamente semelhantes a estudos de outras drogas

Diante disso, existem basicamente duas possibilidades.

Hipótese 1: estamos diante da maior revolução recente da farmacologia metabólica, uma molécula inovadora com resultados extraordinários que em breve serão confirmados em estudos científicos robustos.

Hipótese 2: estamos diante de mais um caso de promessas exageradas — ou até um possível golpe — no mercado de biotecnologia.

A única forma de resolver essa dúvida é simples: publicação de dados científicos completos e revisados por pares.

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Autor

  • Guilherme Alfonso Vieira Adami

    Dr. Guilherme Alfonso Vieira Adami
    CRM-SP 254738

    Sou médico residente em Medicina do Esporte e do Exercício pela Universidade de São Paulo (USP), com atuação voltada para avaliação cardiovascular do atleta, fisiologia do exercício e medicina baseada em evidência aplicada ao esporte.

    Atuo profissionalmente com métodos gráficos de avaliação cardiovascular, realizando teste ergométrico, eletrocardiograma e monitorização ambulatorial da pressão arterial (MAPA) em serviços de diagnóstico como Grupo A+ e dr.consulta, além de atendimento em consultório privado.

    Também sou médico da Seleção Brasileira de Rugby em Cadeira de Rodas, acompanhando atletas paralímpicos em treinamentos e competições.

    Sou fundador da MedEsporte Papers, uma plataforma educacional dedicada à produção e divulgação de conteúdo científico em medicina do esporte, com foco na tradução da literatura científica para a prática clínica.

    Meu trabalho é voltado para análise crítica da literatura científica, educação médica e aplicação prática da ciência do exercício na medicina.

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