Risco Cardiovascular de Drogas para Ganho de Performance (PEDs): Uma Análise dos Enhanced Games

Introdução

O anúncio dos Enhanced Games (TEG) — evento esportivo que permite o uso de drogas para ganho de performance (PEDs) aprovadas pelo FDA — inaugurou um debate crítico na medicina esportiva e na cardiologia preventiva. Enquanto a proposta levanta severos questionamentos éticos, ela também expõe uma lacuna na literatura científica: o entendimento detalhado sobre o risco cardiovascular imposto pelo uso suprafisiológico de ergogênicos. O presente artigo de revisão disseca as implicações fisiológicas e os danos cardiovasculares dessas intervenções, fornecendo balizas para o acompanhamento clínico.


Visão Geral do Estudo

  • Desenho do estudo: Artigo de Revisão Narrativa.
  • População e Tamanho da Amostra (N): Por tratar-se de uma revisão de literatura, não engloba uma amostra primária única. O estudo consolida dados de grandes registros populacionais, coortes observacionais e ensaios clínicos randomizados previamente publicados na literatura.

Métodos

  • A metodologia empregada pelos autores consistiu em uma busca direcionada em bases de dados como PubMed e Google Scholar.
  • Foram selecionados preferencialmente diretrizes clínicas, estudos originais e declarações de consenso com foco na interseção entre substâncias para ganho de performance e desfechos cardiovasculares adversos.
  • A revisão não limitou a análise apenas aos dados de atletas, incorporando dados de pacientes em reposição hormonal, acromegalia e doença renal crônica para elucidar os mecanismos patológicos.

Resultados (Impacto Cardiovascular por Classe de PED)

Esteroides Anabólicos Androgênicos (AAS)

  • Um registro nacional dinamarquês demonstrou que usuários crônicos de AAS possuem um risco mais de 3 vezes maior de infarto do miocárdio (IM) e um risco 3,6 vezes maior de insuficiência cardíaca (IC) em comparação ao grupo controle, em um seguimento médio de 11 anos.
  • O estudo HAARLEM acompanhou 100 homens iniciando ciclos de AAS: após um ciclo mediano de 16 semanas, constatou-se uma queda de 5% na fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE) e um aumento médio de 28g na massa do ventrículo esquerdo.
  • Baggish et al. demonstraram em estudo transversal (N=140) que levantadores de peso usuários de AAS apresentavam FEVE média significativamente inferior (49%) quando comparados aos não usuários (58%), além de maior volume de placa aterosclerótica coronariana.
  • Estudos com Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET/CT) revelaram que a reserva de fluxo miocárdico estava prejudicada em 19% dos usuários atuais e 3% dos ex-usuários, evidenciando disfunção microvascular coronariana clinicamente relevante.

Doping Sanguíneo e Agentes Estimulantes da Eritropoiese (ESAs)

  • Não existe um limiar seguro de hematócrito: elevações sucessivas promovem toxicidade vascular.
  • Dados extrapolados do ensaio TREAT indicaram que o uso de ESAs para elevar a hemoglobina em pacientes de alto risco quase dobrou o risco de acidente vascular cerebral (AVC) sem gerar benefícios de desfecho primário.
  • O ensaio CHOIR evidenciou taxas significativamente maiores de morte, infarto agudo do miocárdio e IC congestiva associadas a metas elevadas de hemoglobina.

Hormônio do Crescimento (GH) e Estimulantes

  • Em metanálises com populações portadoras de TDAH, o uso de estimulantes desencadeou aumentos dependentes da dose na frequência cardíaca (5 a 10 bpm) e na pressão arterial sistólica (2 a 5 mmHg). Casos severos de arritmia e infarto ocorrem majoritariamente em quadros de miocardiopatia subjacente hipertrófica não diagnosticada.
  • Para o hormônio do crescimento e o IGF-1, não há benefício ergogênico sustentado, porém, baseando-se na fisiopatologia da acromegalia, há risco substancial de remodelamento miocárdico, resistência à insulina e fibrose na exposição crônica e suprafisiológica.

Conclusões

  • Enquanto o ganho de performance de diversas classes de PEDs (como diuréticos, GH e estimulantes) muitas vezes é inconsistente ou inexistente, os danos cardiovasculares associados são concretos e não são raros.
  • Alterações estruturais e elétricas associadas ao uso de PEDs são dose-dependentes, muitas vezes cumulativas e exibem graus variados de irreversibilidade.
  • A premissa dos Enhanced Games não deve ser interpretada como uma chancela de segurança ou “prova de conceito” de que as dosagens suprafisiológicas possam ser manejadas sem danos, mas sim como um ambiente de risco extremo que exige vigilância médica sem precedentes.

Aplicações Práticas

  • A Avaliação Pré-Participação (APP) padrão é altamente insuficiente para a população de usuários de drogas de performance esportiva.
  • É imperativo realizar um mapeamento detalhado do padrão de exposição: tipo da droga, dose cumulativa, duração e sobreposição de agentes farmacológicos (stacking).
  • Todo atleta exposto deve realizar aferição protocolar da pressão arterial de repouso, eletrocardiograma de 12 derivações e ecocardiograma transtorácico de rotina.
  • Em casos limítrofes, sugere-se fortemente o uso da Ressonância Magnética Cardíaca (RMC) com quantificação de Volume Extracelular (ECV) para identificar fibrose miocárdica difusa, além de Teste Cardiopulmonar de Exercício (CPET) com monitoramento eletrocardiográfico para flagrar instabilidade elétrica sob esforço.

Limitações e Vieses

  • A evidência primária em esportes de elite é escassa. A maior parte dos dados robustos provém de uso ilícito em fisiculturistas ou de prescrição de reposição em pacientes não atletas (viés de população).
  • A natureza clandestina do doping resulta em um forte viés de notificação e dificulta a documentação precisa das doses.
  • O efeito somatório do stacking (uso simultâneo de esteroides, insulina, estimulantes) inviabiliza a atribuição de uma toxicidade específica a uma droga isolada.
  • Há uma deficiência crônica e marcante de dados referentes à população feminina e atletas não brancos.

Principais Insights

  • O uso crônico de esteroides anabolizantes induz tanto miocardiopatia (queda da FEVE e aumento de massa) quanto aterosclerose coronariana prematura.
  • Manipulações sanguíneas (ESAs e transfusões) alteram agressivamente a viscosidade do sangue, pavimentando o cenário para eventos isquêmicos.
  • Estimulantes em uso excessivo promovem sobrecarga adrenérgica severa, instabilizando eletricamente o miocárdio remodelado.
  • Os Enhanced Games configuram um experimento observacional in vivo; os dados prospectivos que dele derivarem poderão guiar futuras intervenções de redução de danos cardiovasculares.

Precauções e Recomendações Clínicas

As evidências que parametrizam a toxicidade em atletas ainda carecem de ensaios controlados robustos em seres humanos saudáveis, devendo o médico manter um alto índice de suspeição clínica. Independentemente da finalidade (estética ou performance competitiva), o manejo cardiológico deve ser norteado pela identificação precoce do dano endotelial e miocárdico e pela imediata prescrição de estratégias de redução de agravos ou cessação da droga.

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Referências:

  1. Vecchiato M, Palermi S, Zamodics M, Babity M, Eftekhari M, Ryali R, et al. Cardiovascular Implications of the Enhanced Games: Performance Enhancing Drugs in Competition and Recreation. Sports Med Open. 2026;12(48):1-19. DOI: 10.1186/s40798-026-01026-9.

Autor: Dr. Joao Diniz | @docdiniz

Médico CRM-SP 255.027 Medicina Esportiva USP

Autor

  • João Diniz

    Médico.
    Atleta Fisiculturismo Clássico.
    Tenente do Exército Brasileiro.
    Residente Medicina Esportiva USP.

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