Introdução O hipogonadismo masculino é uma condição endócrina comum, com profundo impacto na saúde metabólica, reprodutiva e psicossocial. A sua prevalência tem aumentado expressivamente no Brasil, impulsionada pelo envelhecimento populacional, taxas crescentes de obesidade e o uso de esteroides anabolizantes. Visando mitigar a heterogeneidade da prática clínica e fornecer diretrizes adaptadas à realidade nacional, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e a Associação Brasileira de Medicina e Saúde Sexual (ABEMSS) publicaram este posicionamento conjunto, focando no diagnóstico, terapia de reposição de testosterona (TRT) e na preservação da fertilidade.

Métodos
O documento foi estruturado a partir da revisão de diretrizes urológicas e endócrinas reconhecidas internacionalmente. Nas áreas com carência de evidências de alta qualidade, foi utilizado o consenso multidisciplinar de especialistas (endocrinologistas, urologistas e especialistas em medicina sexual) para adequar as condutas à disponibilidade regulatória e ao contexto clínico do Brasil.
Resultados
- Limiares Diagnósticos: O diagnóstico de hipogonadismo é confirmado pela presença de sintomas clínicos e pela dosagem de testosterona total (TT) em amostra de sangue matinal em jejum. Valores de TT menores que 264 ng/dL confirmam o quadro.
- Casos Limítrofes: Para homens com TT entre 264 e 350 ng/dL, ou na presença de condições que alterem a SHBG (como obesidade ou diabetes), indica-se o cálculo da testosterona livre (cFT) utilizando a equação de Vermeulen, com ponto de corte diagnóstico inferior a 6,5 ng/dL.
- Preparações Recomendadas no Brasil: O undecanoato de testosterona (ação prolongada intramuscular) e a testosterona em gel (transdérmica) são preferenciais devido à menor oscilação dos níveis séricos (ausência de picos e vales acentuados).
- Terapias Não Recomendadas: Implantes subcutâneos manipulados (pellets) e apresentações orais são contraindicados pela falta de estudos robustos de segurança, variabilidade farmacocinética e risco elevado de policitemia secundária.
- Contraindicações da TRT: A terapia não deve ser iniciada em casos de câncer de mama masculino, suspeita ou confirmação de câncer de próstata ativo, e na presença de desejo reprodutivo de curto prazo. O hematócrito basal acima de 48% é considerado uma contraindicação relativa de extrema relevância.
Conclusões
O consenso conclui que o manejo do hipogonadismo masculino deve ser individualizado e criteriosamente monitorado. A TRT é o pilar terapêutico para deficiências orgânicas confirmadas , enquanto o hipogonadismo funcional — frequentemente induzido por obesidade e síndrome metabólica — deve ter a modificação do estilo de vida como primeira linha de tratamento, sendo potencialmente reversível. O rastreamento rotineiro na população geral assintomática é formalmente não recomendado.
Aplicações práticas
Antes de iniciar a TRT, o clínico deve avaliar o hemograma e o PSA do paciente. O monitoramento laboratorial (Testosterona e Hematócrito) deve ocorrer no 3º, 6º e 12º mês. Se o hematócrito exceder 54%, a terapia deve ser suspensa temporariamente até a normalização, reintroduzindo-a em doses menores ou substituindo a via intramuscular pela transdérmica. Para pacientes jovens ou com desejo de preservar a fertilidade, a via de manejo altera-se: a TRT convencional suprime a espermatogênese e deve ser evitada. Nesses casos, o citrato de clomifeno (50mg em dias alternados), gonadotrofina coriônica humana (hCG) e inibidores de aromatase surgem como intervenções para manter ou restaurar a produção endógena e a viabilidade espermática.
Limitações e vieses
O posicionamento reconhece a ausência de estudos populacionais de larga escala que mapeiem a verdadeira epidemiologia do hipogonadismo no Brasil. Muitas diretrizes de tratamento baseiam-se em dosagens via cromatografia líquida com espectrometria de massas (LC-MS/MS), que não é rotineiramente acessível nos laboratórios brasileiros, obrigando a adaptação para ensaios de imunoensaio.
Além disso, a literatura sobre recuperação do eixo após o uso abusivo de esteroides anabolizantes e o uso off-label de medicamentos focados em fertilidade ainda carece de ensaios clínicos randomizados de alta robustez.
Principais insights
- A investigação laboratorial inicial exige sempre uma segunda amostra matinal de testosterona para confirmar o diagnóstico, evitando falso-positivos.
- A avaliação de gonadotrofinas (LH e FSH) é obrigatória após a constatação de testosterona baixa, para classificar o quadro em primário (hipergonadotrófico) ou secundário (hipogonadotrófico).
- Mudanças no estilo de vida e controle da obesidade podem recuperar a função gonadal, e a falha nessa reversão clínica pode sinalizar a existência de uma patologia orgânica mascarada.
- Homens submetidos à TRT apresentam frequentemente uma elevação inicial de PSA (até 1,0 ng/dL) nos primeiros meses; contudo, elevações persistentes superiores a 1,4 ng/mL em 12 meses demandam imediata avaliação urológica.
Precauções e Recomendações
Considerando que muitas práticas na modulação do eixo HPG — como o uso de peptídeos, gonadotrofinas e inibidores de aromatase para preservação de fertilidade ou recuperação pós-uso de esteroides anabolizantes — possuem nível de evidência ainda em maturação (frequentemente com indicações off-label), a individualização das doses e o acompanhamento meticuloso da resposta hematológica e prostática são inegociáveis. Evite terapias com farmacocinética instável, como os implantes não regulamentados.
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Referências
- Hohl A, Lopes L, Ronsoni MF, Miranda EP, Fighera TM, Facio FN, et al. Care of Patients with Male Hypogonadism: A Joint Position Statement from the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism (SBEM), the Brazilian Society of Urology (SBU), and the Brazilian Association for Sexual Medicine and Health (ABEMSS). Int Braz J Urol. 2026;52(3):e20250610.
Dr. João Diniz | CRM-SP 255.027
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