
A literatura sobre os danos cardiovasculares do uso de Esteroides Androgênicos Anabolizantes (EAA) frequentemente carece de dados amplos, focando primariamente em relatos de caso ou coortes exclusivamente masculinas. O recente estudo transversal derivado da coorte FIDO-DK (Fitness Doping in Denmark), publicado no JAMA Network Open, preenche essa lacuna ao avaliar o status cardiovascular de 164 atletas recreativos (homens e mulheres), utilizando Angiotomografia de Coronárias e Ecocardiografia avançada.
Metodologia e Amostra
O estudo avaliou 164 participantes engajados em treinamento de força regular, divididos em três grupos:
- Usuários Ativos (n = 80): 61 homens e 19 mulheres.
- Ex-Usuários (n = 26): Abstinência > 3 meses.
- Controles Não-Usuários (n = 58).
Principais Descobertas Científicas
1. Aterosclerose Precoce e Placas Instáveis A avaliação morfológica coronariana revelou que o risco não se limita apenas à calcificação, mas primariamente à instabilidade das placas:
- A prevalência de placas coronárias não-calcificadas (NCPs) foi significativamente maior no grupo de usuários ativos (23,8%) quando comparada ao grupo controle (10,3%).
- Na análise multivariada, o tempo de uso acumulado de EAA comportou-se como preditor independente para a presença dessas placas instáveis.
2. A Marca Crítica: 5 Anos de Exposição O estudo identificou um limiar temporal importante para a gravidade dos danos estruturais:
- Atletas com uso cumulativo de EAA superior a 5 anos apresentaram escores de cálcio (Agatston) significativamente mais elevados e calcificações severas.
- Neste mesmo grupo (> 5 anos de uso), os achados ecocardiográficos foram alarmantes: 97,2% apresentaram Fração de Ejeção do Ventrículo Esquerdo (FEVE) reduzida e massa do Ventrículo Esquerdo aumentada, fugindo da mediana de normalidade.
3. Disfunção Biventricular (Ecocardiografia com Strain) O impacto funcional miocárdico demonstrou forte relação dose-resposta com o tempo de uso:
- O uso acumulado de EAA esteve associado à piora do Strain Longitudinal Global (GLS) tanto do ventrículo esquerdo quanto do ventrículo direito.
- Foi observada disfunção diastólica inicial, evidenciada por relações E/E’ mais elevadas em usuários ativos.
- Ex-usuários apresentaram menor prevalência de disfunção miocárdica em comparação aos ativos, sugerindo que a cessação do uso pode reverter parcialmente algumas alterações cardíacas.
Perspectiva Clínica: Medicina 3.0 e Cardiologia do Esporte
Para a prática clínica focada em longevidade e prevenção ativa, este estudo consolida uma mudança de paradigma no rastreio do atleta usuário de EAA:
- Além do Escore de Cálcio: Confiar apenas no Escore de Cálcio Coronariano para estratificação de risco isquêmico nesta população é insuficiente. A alta prevalência de placas não-calcificadas exige o uso da Angiotomografia de Coronárias como exame de escolha para detecção de doença aterosclerótica precoce e instável.
- Strain Longitudinal Global (GLS): A ecocardiografia convencional (focada apenas em FEVE) pode mascarar a toxicidade miocárdica inicial. A avaliação via speckle tracking (GLS) biventricular deve ser mandatória no seguimento desses pacientes para intervir na disfunção subclínica.
- Janela de Oportunidade: A reversibilidade parcial dos danos nos ex-usuários e a explosão de risco estrutural após o limiar de 5 anos de uso reforçam a necessidade de protocolos de descontinuação (Terapia Pós-Ciclo estruturada) o mais precocemente possível.
Referência Principal: Buhl LF, et al. Illicit Anabolic Steroid Use and Cardiovascular Status in Men and Women. JAMA Network Open. 2025
Dr. João Diniz | CRM-SP 255.027