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Introdução
O exercício aeróbio realizado em jejum noturno, o chamado FASTex, ganhou enorme popularidade nos últimos anos. Em redes sociais, academias e até em alguns discursos profissionais, ele costuma ser apresentado como uma estratégia quase “natural” para aumentar a queima de gordura e favorecer o emagrecimento.
Do ponto de vista fisiológico, essa lógica parece fazer sentido: ao iniciar o exercício com estoques reduzidos de glicogênio, o organismo passa a depender mais da oxidação de lipídios (gliconeogênese). No entanto, o corpo humano não funciona apenas no momento do treino. Ele responde ao exercício ao longo de horas e dias, ajustando ingestão alimentar, gasto energético e até comportamento espontâneo.
É justamente nesse ponto que surge uma contradição importante na literatura:
se o exercício em jejum realmente cria um cenário metabólico mais “favorável”, por que estudos de médio prazo não mostram maior perda de peso quando comparado ao exercício alimentado?
Um estudo partiu dessa pergunta central e ampliou a lente temporal da análise.
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Objetivo do estudo
Investigar se uma única sessão de exercício aeróbio realizada em jejum ou em estado alimentado gera diferenças reais e sustentadas nos principais componentes do balanço energético ao longo de quatro dias, incluindo:
- Ingestão energética total
- Gasto energético diário e por atividade
- Sensações de apetite
- Comportamento da glicose intersticial
Tudo isso em um cenário que combina controle laboratorial com a vida real.
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Métodos

Desenho experimental
Trata-se de um estudo randomizado, duplo-cego e cruzado, no qual os mesmos participantes realizaram as duas condições experimentais, separadas por um período de washout. Esse tipo de desenho fortalece a comparação, pois reduz a influência de variabilidade individual.
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Participantes
Foram avaliados 12 adultos jovens fisicamente ativos, com excelente aptidão cardiorrespiratória e IMC dentro da faixa de normalidade. Ou seja, uma população metabolicamente saudável, frequentemente utilizada como modelo para compreender mecanismos fisiológicos sem grandes interferências clínicas.
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Protocolo de exercício
Os participantes realizaram 75 minutos de corrida a 70% do VO₂pico, uma intensidade suficientemente alta para gerar impacto metabólico relevante, mas ainda sustentável.
- Exercício em jejum (FASTex): ingestão de bebida placebo, sem calorias
- Exercício alimentado (FEDex): ingestão de bebida rica em carboidratos antes do exercício
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Após o treino, os participantes seguiram uma rotina monitorada por aproximadamente 2,5 dias, com controle alimentar rigoroso e monitorização contínua.
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Variáveis analisadas
- Ingestão energética medida de forma objetiva (alimentos fornecidos e pesados)
- Gasto energético total e por atividade (acelerometria + frequência cardíaca)
- Apetite avaliado por escalas visuais validadas
- Glicose intersticial avaliada por monitorização contínua (CGM)
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Resultados
Resposta metabólica ao exercício
Como esperado, o exercício em jejum levou a uma maior oxidação de gordura e menor utilização de carboidratos durante a sessão. Já o exercício alimentado apresentou maior Razão de troca respiratória (RER)– uma medida utilizada em fisiologia e medicina para avaliar o equilíbrio entre o oxigênio consumido e o dióxido de carbono produzido pelo organismo durante a respiração (VCO₂ / VO₂) – e maior dependência de carboidratos.
Entretanto, é importante destacar um ponto-chave:
👉 o gasto energético total do exercício foi semelhante entre as duas condições.
Ou seja, o corpo muda o combustível, mas não o custo do exercício.
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Ingestão energética: houve compensação?
Apesar da hipótese de que o exercício em jejum poderia estimular maior ingestão alimentar nos dias seguintes, isso não aconteceu.
- A ingestão calórica total foi semelhante entre FASTex e FEDex
- A distribuição de macronutrientes também não diferiu
- Não houve aumento progressivo da ingestão nos dias subsequentes
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Esse achado enfraquece a ideia de que o exercício em jejum “estimula a fome” de forma clinicamente relevante quando observado além das primeiras horas.
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Gasto energético diário e atividade física
Outro temor comum é que o exercício em jejum reduza o nível de atividade espontânea nos dias seguintes, como um mecanismo de economia energética. No entanto, os dados não sustentam essa hipótese.
- O gasto energético total diário foi semelhante entre as condições
- O gasto energético por atividade não foi reduzido após FASTex
Mesmo com pequenas flutuações ao longo dos dias, nenhuma diferença consistente entre os grupos foi observada.
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Apetite e percepções subjetivas
As sensações de fome, desejo de comer e saciedade evoluíram de forma semelhante nos dois cenários, tanto dentro do laboratório quanto nos dias seguintes.
Entre as variáveis subjetivas avaliadas, apenas a qualidade do sono apresentou diferença, sendo discretamente melhor após o exercício alimentado – um achado interessante, mas secundário frente aos desfechos principais.
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Glicose intersticial: estabilidade preservada
Um dos diferenciais do estudo foi a análise da glicose intersticial por CGM. Apesar da maior depleção de carboidratos no exercício em jejum, não houve aumento da variabilidade glicêmica, nem alterações relevantes nos valores médios de glicose ao longo dos dias.
Isso sugere que, em indivíduos saudáveis e ativos, o organismo é capaz de manter a homeostase glicêmica mesmo após exercício prolongado em jejum.
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ad libitum teste de refeição. a efeito do tempo. b efeito de condição. c interação de condição. ∗ Representa diferenças em momentos específicos de acordo com Holm & Bonferroni post hoc testes.
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Discussão
Este estudo contribui de forma relevante para a compreensão prática do exercício em jejum. Embora o FASTex altere claramente o metabolismo durante o exercício, essas alterações não se traduzem em mudanças sustentadas no balanço energético quando analisadas em um horizonte mais amplo.
Na prática, isso ajuda a explicar por que:
- Estudos agudos mostram vantagens metabólicas
- Estudos de médio prazo não mostram maior perda de peso
O organismo parece compensar esses estímulos ao longo do tempo, mantendo ingestão, gasto energético e glicemia dentro de faixas semelhantes.
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O que levamos para a Medicina do Esporte
Do ponto de vista clínico e esportivo, a mensagem é clara:
- O exercício em jejum não é prejudicial em indivíduos jovens e saudáveis
- Também não é superior para controle de peso
- A escolha entre treinar em jejum ou alimentado deve considerar:
- Preferência individual
- Conforto durante o exercício
- Qualidade do sono
- Objetivos de desempenho
- Preferência individual
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👉 A adesão ao treinamento segue sendo mais determinante do que o estado alimentar pré-exercício.
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Conclusão
Ao analisar o exercício aeróbio realizado em jejum e em estado alimentado sob uma perspectiva ampliada, que vai além da sessão de treino e alcança os dias subsequentes, este estudo oferece uma mensagem clara e, ao mesmo tempo, madura: o organismo humano é altamente competente em preservar o equilíbrio energético.
Embora o exercício em jejum promova alterações metabólicas evidentes durante a sessão, como maior oxidação de gorduras e menor utilização de carboidratos, esses efeitos não se sustentam como vantagens funcionais quando observamos o comportamento global do balanço energético. Ingestão alimentar, gasto energético diário, apetite subjetivo e estabilidade glicêmica mantiveram-se semelhantes entre as estratégias ao longo de quatro dias.
Esse achado ajuda a resolver uma aparente contradição frequentemente observada na literatura e na prática clínica:
👉 por que o exercício em jejum parece metabolicamente “superior” no curto prazo, mas não resulta em maior perda de peso em intervenções mais longas?
A resposta parece residir nos mecanismos compensatórios finos e distribuídos no tempo, que não se manifestam necessariamente nas primeiras horas após o exercício, mas que atuam de forma silenciosa nos dias seguintes, mantendo o organismo dentro de um intervalo relativamente estável de ingestão e gasto energético.
Do ponto de vista clínico, isso reforça uma ideia fundamental na Medicina do Esporte moderna: nenhuma estratégia isolada supera, de forma consistente, os princípios básicos da adaptação fisiológica. O corpo não responde apenas ao estímulo agudo, mas ao contexto global → frequência, consistência, comportamento alimentar, nível de atividade espontânea e recuperação.
Assim, o exercício em jejum não deve ser encarado nem como uma estratégia milagrosa, nem como uma prática prejudicial em indivíduos jovens e saudáveis. Ele se mostra metabolicamente seguro, mas energeticamente equivalente ao exercício realizado em estado alimentado quando analisado de maneira integrada.
Na prática, isso desloca o foco da pergunta “em jejum ou alimentado?” para uma questão mais relevante e clínica:
👉 qual estratégia o indivíduo consegue sustentar com qualidade, conforto e regularidade?
Em um cenário no qual a adesão ao treinamento, a recuperação adequada e o comportamento alimentar ao longo da semana exercem impacto muito maior do que ajustes pontuais no estado alimentar pré-exercício, a personalização passa a ser o verdadeiro diferencial.
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Referências
I. Podestá D, et al. Effects of overnight-fasted versus fed-state exercise on the components of energy balance and interstitial glucose across four days in healthy adults, Appetite, Volume 203, 2024, 107716, ISSN 0195-6663,
https://doi.org/10.1016/j.appet.2024.107716
por Luiz Guilherme Assumpção | @luizassump.med
Revisado por Dr. João Diniz | @docdiniz


