Tirzepatida versus cirurgia bariátrica: será que o fármaco veio para aposentar a cirurgia? Saiba mais!

Comparação entre tirzepatida e cirurgia bariátrica mostra menor mortalidade, menos eventos cardiovasculares e renais com medicamento em dados reais.

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Introdução

A obesidade é uma doença crônica, progressiva e multifatorial, associada a aumento expressivo de mortalidade e risco cardiometabólico. Tradicionalmente, a cirurgia bariátrica metabólica (BMS) é considerada o tratamento mais eficaz para perda ponderal sustentada em casos moderados e graves.

Entretanto, o surgimento de terapias farmacológicas altamente eficazes, como a tirzepatida, levantou uma questão central na prática clínica atual: será que medicamentos modernos podem rivalizar — ou até superar — os benefícios da cirurgia bariátrica?

Um estudo buscou responder essa pergunta comparando desfechos clínicos “duros” em larga escala, utilizando dados do mundo real.


Por que essa comparação faz sentido?

A cirurgia trata a obesidade promovendo perda de peso e melhora metabólica por meio de redução da ingesta calórica e alterações hormonais intestinais, que reduzem a fome, aumentam a saciedade e melhoram o controle da glicose.

Já a tirzepatida é um medicamento injetável semanal que ativa diretamente esses mesmos caminhos hormonais, atuando nos receptores GIP e GLP-1, sem necessidade de cirurgia.

Na prática, são duas abordagens diferentes — uma cirúrgica e outra medicamentosa — que impactam os mesmos sistemas biológicos centrais da obesidade, o que torna a comparação entre elas clinicamente relevante.

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Visão geral do estudo

  • Tipo de estudo: Coorte retrospectiva observacional com pareamento por escore de propensão
  • Período analisado: Janeiro de 2022 a novembro de 2024
  • Objetivo: Comparar mortalidade geral, eventos cardiovasculares maiores (MACE) e eventos renais maiores (MAKE) entre adultos com obesidade tratados com tirzepatida versus cirurgia bariátrica metabólica


Métodos utilizados

Desenho e população
  • Adultos ≥18 anos com IMC ≥30 kg/m²
  • Diagnóstico de obesidade documentado ou código CID-10 correspondente
  • Dois grupos:
    • Tirzepatida: prescrição iniciada até 3 meses antes do diagnóstico de obesidade
    • Cirurgia bariátrica: gastrectomia vertical (sleeve) ou bypass gástrico em Y de Roux, sem uso prévio ou posterior de tirzepatida

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Exclusões
  • IMC <30 kg/m²
  • Eventos de interesse nos 3 meses prévios
  • Uso cruzado entre grupos após o índice

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Amostra
  • Inicial: >11 milhões de indivíduos elegíveis
  • Após critérios e pareamento 1:1:
    • 84.884 pacientes em cada grupo


Resultados do estudo

Mortalidade por todas as causas (desfecho primário)
  • Incidência:
    • Tirzepatida: 0,19 / 100 pessoas-ano
    • Cirurgia bariátrica: 0,57 / 100 pessoas-ano
  • Hazard Ratio: 0,31
  • IC95%: 0,257 – 0,375
  • p < 0,0001

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Na prática, isso representa uma redução relativa de aproximadamente 69% no risco de morte ao longo do período de acompanhamento nos pacientes tratados com tirzepatida em comparação à cirurgia bariátrica metabólica.

Esse efeito não foi restrito a um subgrupo específico: a redução de mortalidade manteve-se consistente em homens e mulheres, em pacientes mais jovens e idosos, e em todas as faixas de IMC analisadas. Além disso, o alto valor do E-value (5,88) sugere que seria necessário um fator de confusão não medido muito forte para anular essa associação, reforçando a robustez do achado.

Do ponto de vista clínico, esse resultado é particularmente relevante porque a cirurgia bariátrica historicamente é associada à redução de mortalidade — e, mesmo assim, a tirzepatida apresentou desempenho superior nesse estudo de mundo real.

Redução relativa de cerca de 26% no risco de eventos cardiovasculares maiores no grupo tratado com tirzepatida.

Clinicamente, isso sugere que os efeitos da tirzepatida vão além da perda de peso isolada, provavelmente refletindo sua ação sobre controle glicêmico, inflamação sistêmica, perfil lipídico e pressão arterial. A proteção cardiovascular foi observada na maioria dos subgrupos, reforçando a ideia de que o benefício não depende exclusivamente do grau de obesidade.ㅤ

Redução relativa de aproximadamente 62% no risco de eventos renais maiores, incluindo progressão para doença renal terminal, necessidade de diálise ou morte.

Esse achado é particularmente relevante porque a doença renal crônica é uma das complicações mais frequentes e graves da obesidade e do diabetes tipo 2. Os dados sugerem que a tirzepatida pode exercer um efeito nefroprotetor significativo, possivelmente mediado por melhora do controle metabólico, redução da hiperfiltração glomerular e diminuição de fatores inflamatórios e hemodinâmicos associados à progressão da doença renal.


Eventos adversos

A tirzepatida apresentou menor risco de:

  • Refluxo gastroesofágico
  • Náuseas, vômitos, diarreia e constipação
  • Pancreatite
  • Complicações biliares
  • Íleo paralítico

Além dos desfechos de eficácia, a tirzepatida apresentou menor incidência de eventos adversos gastrointestinais e cirúrgicos quando comparada à cirurgia bariátrica, incluindo menor risco de refluxo, náuseas, vômitos, pancreatite, complicações biliares e íleo paralítico.

Esse dado é relevante porque destaca não apenas eficácia, mas também perfil de segurança e tolerabilidade, fatores decisivos na adesão ao tratamento em longo prazo.


Conclusões

Nesse grande estudo observacional com dados do mundo real, a tirzepatida foi associada a menor mortalidade e menor risco cardiovascular e renal do que a cirurgia bariátrica metabólica em adultos com obesidade. Os resultados foram consistentes em múltiplos subgrupos, sugerindo robustez estatística e relevância clínica.

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Aplicações práticas

  • Tirzepatida surge como alternativa não cirúrgica altamente eficaz para pacientes com obesidade
  • Pode ser considerada opção de primeira linha em pacientes:
    • Com alto risco cirúrgico
    • Que recusam cirurgia
    • Com múltiplas comorbidades cardiometabólicas
  • Amplia o papel do tratamento farmacológico na medicina do esporte e na clínica metabólica

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Limitações e vieses

  • Estudo observacional → não estabelece causalidade definitiva
  • Possível confusão residual, apesar do escore de propensão
  • Dados administrativos sujeitos a subnotificação
  • Não avaliou:
    • Aderência ao tratamento
    • Duração efetiva da terapia
    • Custos de longo prazo
    • Reganho ponderal após suspensão da medicação

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Principais insights

  • Tirzepatida associou-se a menor mortalidade geral do que cirurgia bariátrica
  • Reduziu eventos cardiovasculares e renais
  • Resultados consistentes em múltiplos perfis clínicos
  • Perfil de segurança gastrointestinal favorável
  • Pode representar mudança de paradigma no tratamento da obesidade
  • O estudo visualiza o acesso à terapia farmacológica com tirzepatida como um fator de democratização e descentralização do tratamento da obesidade.

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Referências

  1. Wu JY, Chan SE, Hsu WH, Kuo CC, Tsai YW, Liu TH, Huang PY, Chuang MH, Yu T, Lai CC. Comparing clinical outcomes of adults with obesity receiving tirzepatide versus bariatric metabolic surgery: A multi-institutional propensity score-matched study. Diabetes Obes Metab. 2025 Jun;27(6):3357-3366. doi: 10.1111/dom.16353. Epub 2025 Mar 20. PMID: 40109063.

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por Luiz Guilherme Assumpção | @luizassump.med

Revisado por Dr. João Diniz | @docdiniz

Autores

  • João Diniz

    Médico.
    Atleta Fisiculturismo Clássico.
    Tenente do Exército Brasileiro.
    Residente Medicina Esportiva USP.

  • Luiz Guilherme Assumpção

    Acadêmico de medicina na Universidade Iguaçu
    Secretário acadêmico da Liga Acadêmica de Medicina do Esporte e do Exercício (LMEEX-UNIG)
    Filiado Comitê Acadêmico da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (CASBMEE)
    Embaixador oficial MedEsporte Papers

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