Em um mundo obcecado por biohacking e otimização, o ferro raramente recebe o mesmo glamour de uma creatina ou de um pré-treino exótico. No entanto, esse mineral fundamental é o motor invisível da nossa energia, transporte de oxigênio e até mesmo da clareza mental. A prateleira das farmácias está cheia de suplementos de ferro, e é comum a ideia de que “um pouco a mais não faz mal” para turbinar o treino ou combater a fadiga. Mas será que ingerir ferro sem ter uma deficiência documentada é o atalho para a performance que todos buscam, ou apenas um risco desnecessário?
Para você entender a importância desse tema, a revisão do Auerbach e colegas publicada no JAMA em 2025 fala sobre uma deficiência absoluta de ferro (com ou sem anemia) em 2 BILHÕES de pessoas, sendo a clássica anemia ferropriva atingindo 1.2 bilhão de pessoas no mundo. Então perceba que esse é um dado alarmante e pior ainda quando falamos de atletas e pessoas que treinam e querem alta performance.
O ferro é o componente central da hemoglobina, a proteína que, nas hemácias, faz o transporte de oxigênio dos pulmões para os músculos e o cérebro. Ele também é vital para as enzimas que produzem energia dentro das células (cadeia respiratória). Pense no ferro como o entregador de oxigênio da sua fábrica de energia (a mitocôndria). Sem ele, a fábrica opera em marcha lenta.
A deficiência de ferro, mesmo antes de se tornar anemia (a falta do “entregador” – hemoglobina), já esgota os estoques (a ferritina, que funciona como um “cofre” de ferro). Quando o cofre está vazio, a capacidade do corpo de produzir energia e de se adaptar ao estresse do treino é comprometida. A suplementação, nesse cenário, é um resgate de performance: ela reabastece o cofre e permite que os “entregadores” voltem a circular em plena capacidade.

Quais os sintomas do ferro baixo?
Indivíduos com deficiência de ferro não anêmica ou anemia ferropriva podem ser assintomáticos ou apresentar fadiga, irritabilidade, depressão, dificuldade de concentração, síndrome das pernas inquietas (32%-40%), pica (40%-50%), dispneia, tontura, intolerância ao exercício e agravamento da insuficiência cardíaca (IC).
As prevalências dos sintomas variam dependendo da idade, comorbidades e gravidade e taxa de desenvolvimento da deficiência de ferro. As causas mais comuns de deficiência de ferro são sangramento (menstrual, gastrointestinal), absorção prejudicada de ferro (gastrite atrófica, doença celíaca, procedimentos cirúrgicos bariátricos), ingestão inadequada de ferro na dieta e gravidez.
Se identificou com algum desses sintomas? Atenção aos próximos passos:

”Qual exame devo pedir?”
Primeiro busque um bom médico do esporte pra te acompanhar nesse processo, pois a interpretação dos marcadores laboratoriais de ferro em atletas é complexa em situações de inflamação ou treinamento intenso, pois muitos indicadores clássicos, como ferritina e saturação de transferrina, são influenciados pela resposta inflamatória aguda. A ferritina, por exemplo, é um reagente de fase aguda e pode estar falsamente elevada, mascarando deficiência de ferro verdadeira em atletas submetidos a estresse físico ou inflamação.
O American College of Sports Medicine recomenda triagem periódica dos atletas de risco, com frequência semestral para homens e semestral ou trimestral para mulheres, dependendo do histórico de deficiência de ferro. A triagem deve incluir hemoglobina, hematócrito, volume corpuscular médio, hemoglobina corpuscular média, ferro, ferritina e saturação de transferrina. Em adolescentes, recomenda-se triagem anual, pois a prevalência de deficiência é alta, mesmo em esportes que não exigem restrição calórica.

“Quais valores são alterados no exame?”
O diagnóstico de deficiência de ferro em atletas é feito principalmente por ferritina sérica. Para adultos e adolescentes ≥15 anos, valores <30 ng/mL indicam estoques baixos; <15 ng/mL indicam estoques esgotados. Em crianças e adolescentes mais jovens, os pontos de corte são 15–20 ng/mL. Em situações de inflamação ou treinamento intenso, a ferritina pode estar falsamente elevada, sendo útil dosar proteína C reativa e, se necessário, transferrina saturada (<20%) ou receptor solúvel de transferrina. Para atletas que vão treinar em altitude, recomenda-se ferritina >50 ng/mL antes do início do treinamento.
Em casos de pacientes com inflamação subclínica crônica, como obesos e atletas com excesso de treinamento, apresentando marcadores inflamatórios alterados como PCR e VHS, usamos a nota de corte de ferritina <100 ng/mL para estoques baixos e entre 100 e 300 ng/mL avaliamos a saturação de transferrina, abaixo de 20% indica necessidade de reposição, veja o fluxograma abaixo:

Fig. 1 – Fluxograma para diagnóstico da deficiência de ferro. Imagem retirada: 2019 The Association for the Publication of the Journal of Internal Medicine 161. Journal of Internal Medicine, 2020, 287; 153–170.

Mitos vs. Fatos
1. “Se estou cansado, tomar ferro vai me dar mais energia, mesmo sem um exame.” (Mito) A fadiga é a queixa mais comum na clínica e no esporte. Embora a deficiência de ferro seja uma causa significativa, especialmente em mulheres e atletas de endurance, ela não é a única. Excesso de treino, má qualidade do sono, déficit calórico ou outras deficiências vitamínicas podem ser os culpados. A suplementação só é eficaz para a fadiga se a fadiga for causada por deficiência de ferro. Caso contrário, é apenas um custo a mais, com riscos de efeitos colaterais (gastrointestinais) e acúmulo. A suplementação deve ser um tratamento para uma carência, não uma dose diária de “energia preventiva”.
2. “Todos os atletas de endurance deveriam tomar ferro para prevenir a anemia induzida pelo exercício.” (Meio Mito) É verdade que atletas de endurance (corredores de longa distância, triatletas) e mulheres (devido à menstruação) estão em maior risco, seja por perdas via suor e gastrointestinais, ou por maior demanda. Por isso, a recomendação é a triagem regular (semestral ou trimestral) com exames como a ferritina sérica (o “cofre”). No entanto, a suplementação rotineira sem deficiência documentada não é recomendada. A evidência mostra que o benefício de performance (melhora de VO₂máx e economia de corrida) só ocorre em atletas com estoques realmente baixos, como ferritina ≤12μg/L. Se o “cofre” já estiver cheio, você não ganha performance, mas pode ganhar problemas.
3. “A deficiência de ferro só é um problema quando evolui para anemia.” (Mito) Não! A ciência é clara: a deficiência de ferro sem anemia (Iron Deficiency without Anemia – IDWA) já afeta negativamente o desempenho esportivo, a função muscular, a cognição e a qualidade de vida (fadiga, depressão). O diagnóstico precoce com a ferritina sérica (ponto de corte de <30 ng/mL em muitos consensos) permite a intervenção antes que a deficiência afete a hemoglobina. Repor o estoque de ferro nessa fase inicial é o que traz os benefícios de melhora da fadiga e da capacidade de trabalho, sem a necessidade de esperar a doença se instalar.
Resumo da ópera
O ferro é um mineral essencial com benefícios comprovados para a performance, cognição e qualidade de vida, mas apenas para o grupo que realmente precisa: aqueles com deficiência.
- Ferro é Remédio, Não Multivitamínico: A suplementação de ferro deve ser vista como um tratamento e indicada apenas após a confirmação laboratorial da deficiência (via Hemograma e, crucialmente, Ferritina Sérica).
- Atenção aos Riscos: Não há benefício e há riscos (gastrointestinais e estresse oxidativo) em suplementar ferro com estoques normais. Mais não é melhor.
- Triagem e Monitore: Atletas de risco (mulheres, vegetarianos, endurance) devem fazer a triagem periódica com um profissional, que irá monitorar o sucesso da reposição e ajustar a dose (geralmente 16−100 mg/dia de ferro elementar, por via oral).
Não se guie pela fadiga generalizada. Guie-se pela ciência do seu corpo. Seu desempenho agradece a precisão.
Um forte abraço!
Referências Bibliográficas
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- Clénin GE. The Treatment of Iron Deficiency Without Anaemia (In Otherwise Healthy Persons). Swiss Med Wkly. 2017;147:w14434.
- Badenhorst CE, Goto K, O’Brien WJ, Sims S. Iron Status in Athletic Females, a Shift in Perspective on an Old Paradigm. J Sports Sci. 2021;39(14):1565-1575.
- Girelli D, Marchi G, Busti F, Chesini F, Castagna A. Diagnostics: Markers of Body Iron Status. Adv Exp Med Biol. 2025;1480:387-398.
- Auerbach M, DeLoughery TG, Tirnauer JS. Iron Deficiency in Adults: A Review. JAMA. 2025;333(20):1813-1823.
- Cappellini MD, Musallam KM, Taher AT. Iron deficiency anaemia revisited. J Intern Med. 2020;287(2):153-70.
CRM-SP 255.027


