O “Coração de Atleta” no Banco dos Réus: Entendendo a Fibrose Cardíaca e o Risco de Arritmia em Veteranos do Endurance

Passar décadas a treinar, competindo em maratonas, triatlos e ciclismo de longa distância, é frequentemente vendido como o auge da saúde cardiovascular. A sabedoria popular — e grande parte da ciência — concorda que o exercício regular é o melhor seguro contra doenças cardíacas. Mas e se o excesso, ao longo de muitos anos, deixar uma “cicatriz” invisível no músculo cardíaco? O coração do atleta veterano, hipertrofiado e eficiente, é imune a patologias? Ou ele desenvolve um paradoxo, onde o volume elevado de treino cria uma vulnerabilidade? Afinal, o que o endurance de longo prazo realmente faz ao nosso miocárdio, e até que ponto o risco de uma arritmia supera o benefício de anos de atividade física intensa?

O que a Ciência Diz: VENTOUX

O recente estudo VENTOUX (“Ventricular Arrhythmia and Cardiac Fibrosis in Endurance Experienced Athletes”) investigou 106 ciclistas/triatletas veteranos assintomáticos (idade ≥50 anos, ≥15 anos de treino intenso e volume semanal ≥10h) usando a Ressonância Magnética Cardiovascular (RMC).

O mecanismo central aqui é a fibrose miocárdica, detectada pela técnica de Realce Tardo de Gadolínio (LGELate Gadolinium Enhancement). Pense na fibrose como uma área de “cicatriz” no músculo cardíaco. Em vez de células musculares saudáveis (os cardiomiócitos), essa área é preenchida por colágeno, um tecido rígido e inelástico. Porquê isto é um problema?

  • O Mecanismo da Arritmia: Essa área fibrosa, ou “cicatriz”, não conduz eletricidade como o tecido saudável. Ela cria um obstáculo elétrico que pode levar à formação de um circuito de reentrada. Imagine uma autoestrada (o impulso elétrico) que, de repente, se depara com um pântano (a fibrose). O impulso é forçado a dar a volta lentamente, criando um caminho anormal que pode levar à desorganização total do ritmo cardíaco, culminando em taquicardia ventricular (TV) como visto na Figura 1 abaixo:
Fig. 1 – Início de arritmia ventricular em monitoramento por gravador de eventos implantável (ILR). Registros de ECG de atletas que desenvolveram arritmia ventricular durante o monitoramento com ILR. A, ciclista de 60 anos que apresentou taquicardia ventricular não sustentada (TVNS) em repouso. B, ciclista de 64 anos que desenvolveu TVNS assintomática em repouso.

O estudo encontrou uma alta prevalência: 47,2% dos atletas tinham fibrose focal, predominantemente na parte inferolateral basal do ventrículo esquerdo, numa distribuição não-isquêmica (ou seja, não causada por um bloqueio arterial clássico). O achado mais alarmante é que a presença de fibrose miocárdica foi associada a um risco 4,7 vezes maior de desenvolver arritmia ventricular no seguimento de longo prazo, independentemente da dilatação ventricular como visto na Figura 2 abaixo:

“Se o meu coração está dilatado (Coração de Atleta), já é um sinal de risco?”

Fato: A dilatação do Ventrículo Esquerdo (LVEDVI) é uma adaptação fisiológica comum no endurance e, por si só, é geralmente benigna. Contudo, o estudo VENTOUX mostrou que um LVEDVI mais elevado estava associado a um risco aumentado de arritmia (HR, 1.41 por 10 mL/m2 de aumento).

A Voz da Razão: Embora a dilatação seja comum, quando combinada com a fibrose, ela pode indicar uma sobrecarga mais significativa e, possivelmente, uma sobreposição fenotípica com cardiomiopatias. A fibrose, no entanto, foi um preditor de risco mais forte.

“A fibrose observada é o início de uma doença cardíaca grave (cardiomiopatia)?”

DOI: 10.29381/0103-8559/20172702131-42

  • Dúvida Comum: O estudo não pôde diferenciar. A fibrose pode ser arrítmogênica (causa direta) ou um marcador de um processo de cardiomiopatia subjacente e “mascarada” pelo treino.
  • O Ceticismo Saudável: A distribuição da fibrose (inferolateral) e a exclusão de outras patologias agudas (sem sinais de miocardite aguda) levantam a questão de se o stress mecânico e volêmico crónico, inerente ao endurance, é o mecanismo direto de lesão/reparação inadequada, ou se há uma predisposição genética. São necessárias mais pesquisas para dar a resposta definitiva.

“O Realce tardio do Gadolíneo (LGE) no ponto de inserção do ventrículo direito (RVIP LGE) tem importância?”

  • Não Tem: O RVIP LGE (a área onde os dois ventrículos se encontram) é um achado comum e, no estudo, não foi associado ao risco de arritmia ventricular.
  • Implicação Prática: Os autores sugerem que este achado é provavelmente benigno, relacionado ao alargamento fisiológico do ventrículo direito devido ao treino de endurance. A preocupação deve focar-se na fibrose do ventrículo esquerdo (LV).

Conclusão e Recomendações Práticas

  1. A Fibrose é um Sinal de Alerta: Em atletas masculinos veteranos de endurance, a fibrose miocárdica (LGE) é comum e confere um risco quase 5 vezes maior de arritmia ventricular. Não é benigna e exige vigilância.
  2. Rastreio Duplo: Sugere-se que atletas com fibrose identificada na RMC devam realizar um teste de esforço (TCPE) para avaliar a presença de PVCs sob esforço. A combinação de ambos pode otimizar a estratificação de risco.
  3. Priorize o LV e Ignore o RVIP: A fibrose no Ventrículo Esquerdo (LV) é a preocupação central. O achado de LGE no Ponto de Inserção do Ventrículo Direito (RVIP LGE) é um achado provavelmente fisiológico e não está associado a mau prognóstico arrítmico.

O objetivo não é assustar, mas refinar o entendimento: a dose faz o veneno. Se você se enquadra no perfil de atleta veterano de endurance, ter uma RMC ou teste de esforço como parte do check-up pode ser o “seguro de saúde” mais importante que você pode fazer. A performance é ótima, mas a longevidade, com um ritmo cardíaco constante, é a verdadeira vitória.

Um forte abraço!

Referências Bibliográficas

  1. Javed W, Botis I, Goh ZM, et al. Ventricular Arrhythmia and Cardiac Fibrosis in Endurance Experienced Athletes (VENTOUX). Circ Cardiovasc Imaging. 2025;18:e018470.
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  3. Zorzi A, Marra MP, Rigato L, et al. Nonischemic left ventricular scar as a substrate of life-threatening ventricular arrhythmias and sudden cardiac death in competitive athletes. Circ Arrhythm Electrophysiol. 2016;9:e004229.
  4. Finocchiaro G, Westaby J, Sheppard MN, et al. Sudden cardiac death in young athletes: JACC state-of-the-art review. J Am Coll Cardiol. 2024;83:350-370.
  5. Zeppenfeld K, Tfelt-Hansen J, de Riva M, et al. 2022 ESC Guidelines for the management of patients with ventricular arrhythmias and the prevention of sudden cardiac death. Eur Heart J. 2022;43:3997-4126.

CRM-SP 255.027

Autor

  • João Diniz

    Médico.
    Atleta Fisiculturismo Clássico.
    Tenente do Exército Brasileiro.
    Residente Medicina Esportiva USP.

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