Musculação realmente atrapalha o crescimento?

criança segurando halter para fazer musculação e um chart de crescimento atrás dela

A ideia de que a musculação prejudica o crescimento de crianças e adolescentes ainda é um dos mitos mais difundidos na medicina esportiva. Entretanto, as evidências científicas acumuladas nas últimas décadas mostram exatamente o contrário: quando bem prescrito e supervisionado, o treinamento de força é uma estratégia segura e capaz de promover benefícios importantes para a saúde, desempenho físico e prevenção de lesões, sem comprometer o crescimento linear ou a saúde das placas epifisárias.

Compreender essas adaptações fisiológicas é essencial para orientar pacientes e familiares com base na ciência, e não em crenças populares. Esse é um dos temas abordados no curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber, que reúne os principais conceitos da prescrição de exercícios baseada em evidências.

De onde surgiu o mito de que musculação atrapalha o crescimento?

Durante muitos anos acreditou-se que o treinamento com pesos poderia lesionar as placas epifisárias (placas de crescimento), levando à interrupção do crescimento longitudinal dos ossos. Essa hipótese veio a partir de relatos de lesões traumáticas isoladas e não de estudos que avaliavam o treinamento resistido de forma estruturada. 

Hoje,  a Academia Americana de Pediatria afirma que programas de treinamento de resistência adequadamente planejados não apresentam efeito negativo sobre o crescimento linear, a integridade das placas epifisárias ou o sistema cardiovascular.

O crescimento da criança depende principalmente da interação entre fatores genéticos, estado nutricional, qualidade do sono, hormônio do crescimento (GH), IGF-1, hormônios tireoidianos, esteroides sexuais e condições gerais de saúde. Até o momento, não existem evidências de que programas supervisionados de treinamento de força alterem negativamente qualquer um desses mecanismos fisiológicos.

imagem ilustrativa em fundo branco que mostra fatores que influenciam no crescimento e o que não tem relação

O que dizem as evidências científicas?

A perspectiva científica mudou significativamente nas últimas décadas. A pergunta deixou de ser “o que acontece se uma criança levantar pesos?” para se tornar “quais são as consequências de não desenvolver força muscular durante a infância?”

Atualmente, o treinamento de força é reconhecido como uma ferramenta importante para:

  • aumentar a força muscular;
  • melhorar potência e coordenação motora;
  • reduzir o risco de lesões;
  • favorecer o desempenho esportivo;
  • estimular hábitos permanentes de atividade física.

Como ocorre o ganho de força em crianças?

Um dos principais receios dos pais é imaginar que a musculação fará a criança desenvolver musculatura excessiva ou comprometer seu desenvolvimento.

Na realidade, durante a infância, os ganhos de força ocorrem predominantemente por adaptações neuromusculares. Ou seja, há melhora do recrutamento de unidades motoras, aumento da sincronização entre os músculos envolvidos no movimento e maior eficiência do sistema nervoso em produzir força.

Embora algum aumento de massa muscular possa ocorrer, especialmente durante a puberdade, a hipertrofia costuma ser limitada na fase pré-púbere devido ao ambiente hormonal característico dessa etapa do desenvolvimento.

Em outras palavras, crianças tornam-se mais fortes principalmente porque aprendem a utilizar melhor sua musculatura, e não porque desenvolvem músculos volumosos.

Quais são os benefícios da musculação para crianças e adolescentes?

Os benefícios do treinamento resistido supervisionado vão muito além do aumento da força muscular.

Diversos estudos demonstram melhora em diferentes desfechos relacionados à saúde e ao desempenho físico, incluindo:

  • aumento da força, potência e resistência muscular;
  • melhora da aptidão cardiorrespiratória;
  • melhora da composição corporal;
  • aumento da densidade mineral óssea;
  • melhora do perfil lipídico;
  • aumento da sensibilidade à insulina em crianças com sobrepeso;
  • redução do risco de lesões esportivas;
  • melhora da autoestima e da saúde mental.

Uma revisão de meta-análises demonstrou efeitos médios a grandes sobre força muscular, potência, velocidade de sprint, agilidade e desempenho em diferentes modalidades esportivas.

Esses benefícios tornam o treinamento de força uma ferramenta importante não apenas para atletas jovens, mas também para crianças fisicamente inativas ou com excesso de peso.

A musculação é realmente segura?

Sim, desde que seja corretamente supervisionada.

Após décadas de pesquisa, existe consenso de que crianças e adolescentes apresentam baixas taxas de lesão quando o treinamento é conduzido por profissionais qualificados, respeitando técnica, progressão de cargas e estágio de maturação biológica.

A segurança depende muito mais da qualidade da prescrição do que da modalidade em si.

Entre as principais recomendações estão:

  • supervisão constante;
  • ensino adequado da técnica;
  • progressão gradual da carga;
  • ambiente seguro;
  • aquecimento dinâmico antes da sessão;
  • variação periódica dos exercícios;
  • proporção adequada entre instrutor e participantes.

Quais são os erros que realmente aumentam o risco de lesões?

Ao contrário do mito de que a musculação prejudica o crescimento, os fatores associados ao aumento do risco de lesões são bem conhecidos.

Os principais erros incluem:

  • ausência de supervisão profissional;
  • progressão acelerada da carga;
  • técnica inadequada;
  • copiar programas de treinamento para adultos;
  • excesso de volume ou frequência;
  • desconsiderar o estágio de maturação biológica da criança;
  • negligenciar aquecimento e recuperação.

Ou seja, o problema não é a musculação, mas uma prescrição inadequada.

Aplicação prática para o médico

Na prática clínica, o treinamento de força pode ser recomendado para praticamente todas as crianças e adolescentes saudáveis, desde que os exercícios sejam compatíveis com sua idade, maturidade biológica, experiência motora e objetivos individuais.

Além do desenvolvimento da aptidão física, programas de treinamento resistido representam uma excelente estratégia para crianças com sobrepeso ou obesidade, que frequentemente apresentam menor tolerância ao exercício aeróbico e maior dificuldade de aderir a programas tradicionais de atividade física.

Evidências também sugerem que a participação em programas de treinamento de força pode aumentar os níveis de atividade física espontânea ao longo do dia, favorecendo mudanças sustentáveis no estilo de vida.

Resumindo:

As evidências científicas atuais demonstram de forma consistente que o treinamento de força supervisionado:

  • não prejudica o crescimento linear;
  • não acelera o fechamento das placas epifisárias;
  • melhora força, potência e coordenação motora;
  • reduz o risco de lesões;
  • melhora composição corporal e saúde óssea;
  • favorece saúde cardiometabólica;
  • contribui para maior adesão à prática regular de atividade física.
 

O verdadeiro fator de risco não é a musculação, mas a ausência de supervisão qualificada, a técnica inadequada e a prescrição incompatível com o estágio de desenvolvimento da criança.

Conclusão

O mito de que musculação atrapalha o crescimento já foi amplamente refutado pela literatura científica. Hoje, as principais sociedades médicas reconhecem que programas de treinamento resistido, quando individualizados e supervisionados, representam uma estratégia segura e eficaz para promover saúde, desempenho físico e prevenção de lesões durante a infância e adolescência.

Mais do que perguntar se crianças podem fazer musculação, a questão mais relevante passa a ser: como oferecer um treinamento seguro, progressivo e baseado em evidências para essa população?

Se você deseja aprofundar seus conhecimentos em fisiologia do exercício, treinamento resistido e prescrição baseada em evidências, conheça o curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber.

Referências

  1. STRICKER, P. R.; FAIGENBAUM, A. D.; MCCAMBRIDGE, T. M. Resistance training for children and adolescents. Pediatrics, v. 145, n. 6, 2020.
  2. MALINA, R. M. Weight training in youth-growth, maturation, and safety: an evidence-based review. Clinical Journal of Sport Medicine, v. 16, n. 6, p. 478-487, 2006.
  3. BLIMKIE, C. J. Resistance training during preadolescence: issues and controversies. Sports Medicine, v. 15, n. 6, p. 389-405, 1993.
  4. The team physician and strength and conditioning of athletes for sports: a consensus statement. Medicine & Science in Sports & Exercise, 2015.

Autor

  • Karin Coca Aguilar

    Médica ortopedista pela Santa Casa de São Paulo, especialista em doenças neuromusculares e pós-graduada em Medicina Esportiva - CRM SP 214165 | RQE 125200 | TEOT 19613 | SBOP 1056

    Atuo na ortopedia pediátrica, medicina esportiva e prevenção de lesões, com foco na saúde e no movimento em todas as fases da vida. Acredito na medicina baseada em evidências associada a um olhar individualizado, especialmente no cuidado de crianças e adolescentes em fase de crescimento, prática esportiva e reabilitação.

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