A corrida de rua tornou-se a modalidade esportiva mais praticada no Brasil e no mundo. O aumento no número de provas de rua, grupos de treinamento e corredores recreacionais trouxe inúmeros benefícios para a saúde da população, mas também fez crescer a frequência de lesões por sobrecarga observadas no consultório. E se você atende esse público, sabe bem: a canelite — ou síndrome do estresse tibial medial — lidera o ranking de queixas.
O problema é que ainda tem muito profissional tratando essa condição com conceitos da década passada, afirmando que se trata “só de uma inflamação do periósteo”. O buraco é mais embaixo. A fisiopatologia é complexa e hoje em dia, sabemos que o foco está na resposta do tecido ósseo ao estresse mecânico repetitivo. Mudar essa chave vira o jogo na forma como você diagnostica, trata e planeja o retorno desse atleta às pistas ou às ruas.
Para o médico que atende corredores, compreender a síndrome do estresse tibial medial é importantíssimo para evitar tratamentos ultrapassados e construir estratégias eficazes de retorno ao esporte.
Se você quer dominar o raciocínio clínico baseado em evidências para lesões da corrida e outras demandas do atleta, o caminho está aqui. Conheça A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber e atualize sua conduta prática de verdade.
O que é a canelite?
A síndrome do estresse tibial medial caracteriza-se por dor difusa ao longo da borda posteromedial da tíbia, desencadeada pela corrida ou atividades de impacto repetitivo e que pode persistir por horas a dias após o exercício.
Sua incidência varia entre 4% e 35% dos corredores, dependendo da população estudada, sendo particularmente frequente em iniciantes, militares e atletas submetidos a aumentos rápidos da carga de treinamento.
O diagnóstico continua sendo predominantemente clínico.
Fisiopatologia: por que a canelite acontece?
A causa exata da canelite ainda é incerta, mas durante anos acreditou-se que a dor fosse consequência de uma periostite provocada pela tração muscular. Entretanto, estudos mais recentes sugerem que o principal mecanismo fisiopatológico seja uma resposta de remodelação óssea insuficiente diante do aumento repetitivo da carga mecânica.
Quando o processo de microlesão supera a capacidade de remodelação do tecido ósseo, ocorre um continuum de lesão por estresse que pode evoluir desde a canelite até uma fratura por estresse.
Esse conceito possui implicações importantes: o tratamento não deve focar apenas em “desinflamar”, mas principalmente em controlar carga, otimizar a biomecânica e permitir adequada adaptação óssea.
Quadro clínico
O que os pacientes relatam: | Dor difusa ao longo da borda medial da tíbia
| Início durante a corrida | Persistência da dor por horas ou dias após o exercício | Sensibilidade dolorosa à palpação em uma área superior a 5 cm |
|---|
Essa característica ajuda a diferenciar a MTSS da fratura por estresse, que costuma apresentar dor mais focal.
Diagnóstico diferencial
Entre as principais condições que devem ser excluídas estão:
- fratura por estresse da tíbia;
- síndrome compartimental crônica por esforço;
- tendinopatias;
- radiculopatias lombares com dor referida;
- lesões vasculares.
Radiografias costumam ser suficientes para afastar fraturas mais evidentes. Quando permanecem dúvidas diagnósticas ou existe suspeita de lesão óssea mais significativa, a ressonância magnética representa o exame de maior sensibilidade.
Fatores de risco
Diversos fatores apresentam associação comprovada com a síndrome do estresse tibial medial:
- hiperpronação do pé;
- aumento do navicular drop;
- sexo feminino;
- história prévia da lesão;
- IMC elevado;
- maior amplitude de flexão plantar do tornozelo;
- maior amplitude de rotação externa do quadril.
Nenhum fator isolado explica o desenvolvimento da doença. A interação entre carga de treinamento, biomecânica e capacidade de adaptação dos tecidos parece ter um papel muito mais relevante.
Tratamento baseado em evidências
O tratamento permanece predominantemente conservador.
As principais medidas incluem:
- redução temporária da carga (repouso relativo);
- retorno gradual à corrida;
- fortalecimento progressivo;
- correção de fatores biomecânicos quando identificados.
Entre as modalidades estudadas, a terapia por ondas de choque extracorpóreas (ESWT) apresenta os resultados mais promissores para acelerar a recuperação, embora ainda existam limitações nos estudos.
Órteses com suporte do arco plantar medial podem beneficiar corredores com hiperpronação importante, mas esses casos devem ser avaliados e conduzidos de forma individual.
Outras modalidades como ultrassom terapêutico, fonoforese, iontoforese e massagem com gelo apresentam evidência limitada e não devem constituir o foco principal do tratamento.
A cirurgia permanece reservada para casos extremamente refratários.
Como prevenir a canelite?
As evidências mais recentes modificaram algumas recomendações tradicionais.
Um estudo publicado no Gait & Posture em outubro de 2025, em que foi realizada uma revisão sistemática e metanálise demonstrou que:
- treinamento neuromuscular reduz o risco de MTSS (alta certeza);
- palmilhas para hiperpronação apresentam benefício preventivo (certeza moderada);
- palmilhas absorvedoras de impacto não reduzem a incidência;
- não existe evidência robusta para programas de alongamento estático isolado ou meias compressivas como estratégia preventiva.
Na prática, a prevenção deve priorizar:
- progressão adequada da carga de treinamento;
- fortalecimento e controle neuromuscular;
- identificação de alterações biomecânicas relevantes;
- recuperação adequada entre sessões.
Erros comuns na prática clínica
Alguns equívocos ainda são frequentes:
- tratar toda dor tibial como periostite;
- solicitar exames de imagem antes de realizar um exame físico adequado;
- indicar repouso absoluto prolongado;
- utilizar exclusivamente recursos passivos;
- negligenciar o controle da carga de treinamento durante o retorno à corrida.
Limitações da evidência
Embora existam revisões sistemáticas de boa qualidade, muitos estudos apresentam amostras pequenas, protocolos heterogêneos e diferentes critérios diagnósticos, ou seja ainda há escassez de ensaios clínicos robustos comparando protocolos específicos de reabilitação.
Assim, a individualização do tratamento continua sendo fundamental.
Pontos importantes
- A canelite é uma lesão por sobrecarga extremamente comum em corredores.
- O diagnóstico é predominantemente clínico.
- O mecanismo fisiopatológico mais aceito envolve reação óssea ao estresse repetitivo.
- O tratamento deve priorizar controle da carga e retorno progressivo ao esporte.
- Ondas de choque apresentam resultados promissores, mas não substituem um programa estruturado de reabilitação.
- Treinamento neuromuscular e correção da hiperpronação, quando indicada, representam as estratégias preventivas com melhor suporte científico.
Conclusão
A síndrome do estresse tibial medial ilustra como a medicina esportiva evolui à medida que novas evidências substituem conceitos tradicionais. Compreender a fisiopatologia atual permite prescrever tratamentos melhores e mais seguros, diminuindo o risco de recorrência e melhorando o retorno seguro do corredor ao treinamento.
Quer aprofundar esse raciocínio e dominar o manejo das principais lesões do esporte com base em evidências? Conheça o curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber.
Canelite é a mesma coisa que fratura por estresse?
Não. A canelite (síndrome do estresse tibial medial) causa dor difusa ao longo da borda interna da tíbia, geralmente em uma área maior que 5 cm.
Já a fratura por estresse costuma provocar dor bem localizada, que piora progressivamente e pode persistir até em repouso. Em caso de dúvida, pode ser necessário realizar exames de imagem.
Gelo resolve a canelite?
O gelo pode ajudar a aliviar a dor no curto prazo, mas não trata a causa da lesão. O tratamento deve focar na redução temporária da carga, retorno gradual à corrida, fortalecimento, correção de fatores de risco e, em alguns casos, uso de órteses ou terapia por ondas de choque.
Trocar o tênis resolve a canelite?
Nem sempre. Embora um calçado adequado possa ajudar, ele raramente resolve o problema sozinho. As melhores evidências mostram que treinamento neuromuscular e, em pessoas com hiperpronação, palmilhas com suporte de arco são estratégias mais eficazes para prevenir a canelite do que simplesmente trocar o tênis.
Posso continuar correndo mesmo com canelite?
Não é recomendado continuar correndo com canelite.
A síndrome do estresse tibial medial requer repouso relativo e modificação de atividade guiada por sintomas.
Referências
- ARNOLD, M. J.; MOODY, A. L. Common Running Injuries: Evaluation and Management. American Family Physician, v. 97, n. 8, p. 510–516, 2018.
- BATEMAN, E. A.; FORTIN, C. D.; GUO, M. Musculoskeletal mimics of lumbosacral radiculopathy. Muscle & Nerve, v. 71, n. 5, p. 816–832, 2025.
- HAMSTRA-WRIGHT, K. L.; BLIVEN, K. C.; BAY, C. Risk Factors for Medial Tibial Stress Syndrome in Physically Active Individuals Such as Runners and Military Personnel. British Journal of Sports Medicine, v. 49, n. 6, p. 362–369, 2015.
- MARQUES, T. B. T. et al. Preventive Interventions for Medial Tibial Stress Syndrome: Systematic Review and Meta-Analysis. Gait & Posture, v. 122, p. 92–98, 2025.
- MENÉNDEZ, C. et al. Medial Tibial Stress Syndrome in Novice and Recreational Runners: A Systematic Review. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 17, n. 20, 2020.
- RESHEF, N.; GUELICH, D. R. Medial Tibial Stress Syndrome. Clinics in Sports Medicine, v. 31, n. 2, p. 273–290, 2012.
- WINTERS, M. et al. Treatment of Medial Tibial Stress Syndrome: A Systematic Review. Sports Medicine, v. 43, n. 12, p. 1315–1333, 2013.
Autor
-
Médica ortopedista pela Santa Casa de São Paulo, especialista em doenças neuromusculares e pós-graduada em Medicina Esportiva - CRM SP 214165 | RQE 125200 | TEOT 19613 | SBOP 1056
Atuo na ortopedia pediátrica, medicina esportiva e prevenção de lesões, com foco na saúde e no movimento em todas as fases da vida. Acredito na medicina baseada em evidências associada a um olhar individualizado, especialmente no cuidado de crianças e adolescentes em fase de crescimento, prática esportiva e reabilitação.