O dilema do homem moderno: salvar o cabelo ou ficar no shape? O que a ciência diz sobre Dutasterida e o ganho de massa muscular.

Introdução ao tema

A testosterona é o principal hormônio sexual masculino, tendo inúmeras funções androgênicas associadas a ela, assim como a  5-dihidrotestosterona (DHT) um potente metabólito da testosterona, obtido a partir da redução da testosterona pela enzima 5α-redutase e suas variações de vias alternativas (5α-redutase tipo 1 e 2). Ao avançar da idade a exposição prolongada ao DHT associada a uma predisposição genética pode cursar com distúrbios característicos de homens de meia-idade e idosos, como hiperplasia prostática beligna e a alopecia androgenética.

 Assim foram criados os inibidores farmacológicos das 5α-redutases, usados para tratar tais condições clínicas, porém seu uso está associado a efeitos colaterais como o risco de redução da massa muscular e de disfunção sexual.

Visto isso se observou uma lacuna no conhecimento médico, os efeitos colaterais provenientes da Dutasterida (duplo inibidor da 5α-redutase) poderiam reduzir o efeito anabólico muscular causado pela reposição de testosterona? Este artigo (Bhasin et al., 2012) surge para preencher essa lacuna.

Objetivo do estudo 

O objetivo principal foi determinar se a redução da testosterona em DHT é obrigatória para mediar seus efeitos sobre a massa livre de gordura. 

O objetivo secundário foi determinar se a redução da testosterona é necessária para a manutenção dos efeitos androgênicos sobre a função sexual, hematócrito, produção de sebo, marcadores ósseos e níveis lipídicos em homens.

Metodologia 

  • Tipo de estudo: Ensaio clínico randomizado, duplo-cego, controlado por placebo.
  • População: Foram incluídos apenas homens saudáveis, (18–50 anos), eugonadais, com testosterona basal 300–1200 ng/dL. (N=139 randomizados; N=102 completaram o estudo).
  • Intervenção: O Estudo durou 20 semanas, na qual todos os indivíduos tiveram sua produção endógena de testosterona suprimida (leuprolida).

• Receberam enantato de testosterona em doses semanais de 50, 125, 300 ou 600 mg, combinadas a:

• Placebo, ou

• Dutasterida 2,5 mg/dia (inibidor duplo da 5α-redutase tipo 1 e 2).

Leuprolida 7,5 mg mensal para suprimir produção interna de testosterona.

  • Objetivo primário: Determinar se bloquear a conversão de testosterona em DHT reduz o efeito da testosterona sobre a massa magra.
  • Objetivos secundários:

Avaliar alterações na Função sexual, força muscular, massa gorda, PSA, volume prostático, sebo, hemograma e perfil lipídico.

  • Ferramentas estatísticas: ANOVA e regressão linear ajustada para dose de testosterona.

• Modelos aditivos generalizados para curvas dose–resposta.

• Sensibilidades: análise não paramétrica e imputação múltipla.

  • Limitações metodológicas: Não houve medida direta de DHT intratissular (inferido por dados prévios). Não avaliou espermatogênese, onde DHT pode ter papel essencial. Taxa de desistência relativamente alta (≈27%).

Resultados 

Este presente estudo revela que bloquear DHT não reduz o ganho de massa magra.

DHT: Pela sua dosagem foi encontrando um aumento conforme dose de testosterona semanal no grupo placebo, em contrapartida ficou suprimida em todos os níveis no grupo dutasterida. 

Massa magra: na qual foi medida por DXA observou um ganho médio de massa magra em 20 semanas:

Evidenciando assim que nenhuma diferença significativa foi encontrada entre grupos após ajuste por dose (P=0,18).

Massa gorda: na qual foi medida por DXA observou uma redução dependente da dose de testosterona. Em contrapartida se manteve inalterada no grupo placebo + dutasterida (P=0,41).  

Força muscular: avaliados pelo desempenho nos exercícios leg press e supino medidos pelo método de 1 repetição máxima, na qual se observou aumento significativo dependente da dose de testosterona em ambos os exercícios, sem diferenças entre grupos (leg press P=0,28; supino P=0,36).  

Função sexual: foi utilizado os questionários de Índice Internacional de Função Erétil (IIEF) e Male Sexual Health Questionnaire, na qual ambos não variaram de forma significativa com a dose de testosterona e nem obteve diferenças entre os grupos.

Volume prostastico e PSA: Não houve diferenças entre grupos em volume prostático avaliado por ressonância magnética(diferença média 0,91 cm³; P=0,19), nem na dosagem sérica de PSA (diferença média 0,13 ng/mL; P=0,15).  

Sebo e acne:O sebo foi mensurado pop sebutapes aplicados na testa, nariz e costas por 12 horas, no qual evidenciou aumento em região frontal dependente da dose, semelhante entre grupos. Já a acne foi avaliada pela escala Palatzi e ocorreu em 25 participantes de cada grupo.  

Hemograma e lipidograma: Hemoglobina e hematócrito obtiveram alterações proporcionais a dose. Os lipídios por sua vez variaram proporcionalmente a dose de testosterona, mas sem efeito da dutasterida.

Interpretação dos Resultados

A conversão de testosterona em DHT não é necessária para os efeitos anabólicos sobre:

  • massa magra,
  • força muscular,
  • composição corporal,
  • função sexual,
  • PSA e volume prostático,
  • produção de sebo,
  • hematócrito ou lipídios.

Ou seja, mesmo com DHT quase zerado, a testosterona supriu eficientemente todas as funções androgênio-dependentes avaliadas pelo o estudo.

Aplicação prática para médicos e Atletas 

A tradução destes achados para a prática clínica e desportiva é direta:

  • Dutasterida não reduz os efeitos anabólicos da testosterona relevante para terapia combinada em homens tratados para alopecia ou hiperplasia prostática.
  • SARMs e testosterona sem conversão a DHT provavelmente mantêm eficácia anabólica.
  • Inibidores da 5α-redutase não devem comprometer massa muscular em adultos.
  • Prostata: em homens jovens com testosterona normal ou supra, bloquear DHT não reduz volume prostático sugerindo segurança relativa.

Conclusão 

Este presente estudo solidifica a evidência de que a conversão de testosterona em DHT não é essencial para hipertrofia muscular, evidenciado pelo fato da Dutasterida não alterar o ganho de massa magra induzido por testosterona.

O efeito androgênico não é alterado pelo bloqueio da enzima 5α-redutase e que a testosterona sozinha por sua vez consegue de maneira plena manter os efeitos androgênicos mesmo com DHT suprimida.

Referências:

  1. BHASIN, Shalender; TRAVISON, Thomas G.; STORER, Thomas W.; et al. Effect of testosterone supplementation with and without a dual 5α-reductase inhibitor on fat-free mass in men with suppressed testosterone production: a randomized controlled trial. JAMA, v. 307, n. 9, p. 931-939, 2012. DOI: 10.1001/jama.2012.227.
  2. TRAISH, Abdulmaged M.; KRAKOWSKY, Yonah; DOROS, Gheorghe; MORGENTALER, Abraham. Do 5α-Reductase inhibitors raise circulating serum testosterone levels? A comprehensive review and meta-analysis to explaining paradoxical results. Sexual Medicine Reviews, v. 7, n. 1, p. 95-114, 2019.
  3. ENATSU, N.; MIYAKE, H.; HARAGUCHI, T.; CHIBA, K.; FUJISAWA, M. Effects of dutasteride on serum free-testosterone and clinical significance of testosterone changes. Andrologia, v. 48, n. 10, p. 1195-1201, 2016. DOI: 10.1111/and.12560.
  4. KACKER, R.; HARISARAN, V.; GIVEN, L.; MINER, M.; RITTMASTER, R.; MORGENTALER, A. Dutasteride in men receiving testosterone therapy: a randomised, double-blind study. Andrologia, v. 47, n. 2, p. 148-152, 2015. DOI: 10.1111/and.12237.

Autor

  • João Vitor Gabrine

    Interno de medicina pela UNIVAG. Praticante de musculação. Pesquisador na área endocrinologia e medicina esportiva.

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