Quem precisa tomar suplemento de ferro? Essas são as modalidades (Vídeo completo)

Aquela sensação de “bateria arriada” no meio do treino, quando as pernas pesam e o pulmão parece não dar conta, é uma velha conhecida de qualquer atleta. A cultura da performance nos ensina a culpar o sono ruim, o estresse do trabalho ou um overtraining iminente. Mas e se o problema não for o seu plano de treino, e sim o seu “óleo de motor”?

Falamos do ferro. Esse mineral, muitas vezes negligenciado até que seja tarde demais, é o pilar silencioso do nosso desempenho aeróbio. Sem ele, nosso sistema de transporte de oxigênio entra em colapso.

O curioso é que, no mundo dos esportes, a deficiência de ferro não é democrática. Ela tem alvos muito específicos. A grande questão é: você faz parte do grupo de risco e nem sabe?

Os atletas que mais sofrem

Os grupos de atletas com maior risco de deficiência de ferro durante treinamentos intensos, segundo as recomendações mais recentes, são: mulheres (especialmente em idade reprodutiva), adolescentes, atletas de endurance (como corredores de longa distância), vegetarianos/veganos e doadores regulares de sangue.

Mulheres atletas apresentam risco elevado devido à perda menstrual, maior prevalência de dietas restritivas e maior demanda metabólica. Estudos recentes mostram prevalências de deficiência de ferro entre 15–35% em atletas do sexo feminino, com risco ainda maior durante a adolescência e início da vida adulta.

Para quem trabalha com pediatria esportiva, os adolescentes (de ambos os sexos) também são grupo de risco, devido ao crescimento acelerado, aumento da demanda de ferro e, frequentemente, ingestão dietética inadequada. A prevalência de deficiência de ferro em adolescentes atletas pode chegar a 35–54% em mulheres e 10–41% em homens, mesmo em esportes sem restrição calórica.

Atletas de endurance (corredores, triatletas, ciclistas) têm maior risco devido ao aumento das perdas de ferro pelo suor, urina, fezes, hemólise por impacto (foot-strike hemolysis) e maior demanda metabólica.

O problema é que atletas, especialmente os de endurance, perdem ferro de formas que pessoas sedentárias não perdem. Isso acontece por múltiplas vias:

  • Suor e Urina: Pequenas, mas constantes, perdas.
  • Trato Gastrointestinal: Micro-sangramentos podem ocorrer durante corridas longas.
  • Hemólise por Impacto (Foot-strike hemolysis): Isso é fascinante. O próprio ato de martelar os pés no chão, quilômetro após quilômetro, pode literalmente esmagar os glóbulos vermelhos, liberando o ferro, que acaba sendo excretado.

Mitos vs Fatos

O mundo da nutrição esportiva é cheio de “achismos”. Vamos separar o joio do trigo no que diz respeito ao ferro.

1. “Se meu hemograma está normal, não tenho anemia. Logo, meus níveis de ferro estão bons, certo?”

Errado. Esta é, talvez, a confusão mais comum e perigosa. A “anemia ferropriva” (quando o hemograma já acusa a falta de hemoglobina) é o último estágio da deficiência de ferro. Muito antes disso, o atleta entra na “deficiência de ferro não-anêmica”.

Pense nos seus estoques de ferro (medidos pela ferritina) como o dinheiro na sua conta poupança, e a hemoglobina como o dinheiro na sua conta corrente. Você primeiro esgota a poupança (ferritina baixa) antes que falte dinheiro para as contas do dia a dia (anemia). Atletas já sentem a queda de performance (fadiga, $VO_2$ max reduzido) quando a “poupança” está baixa, mesmo que a “conta corrente” ainda pareça normal.

2. “Deficiência de ferro é só um problema para mulheres atletas, não?”

Não. Embora mulheres em idade reprodutiva sejam, de fato, o grupo de maior risco (devido às perdas menstruais), elas não têm o monopólio do problema. O texto-base é claro:

  • Adolescentes (ambos os sexos): Estão em fase de crescimento acelerado. A “fábrica” está construindo mais tecido, mais sangue, e a demanda por matéria-prima (ferro) é imensa.
  • Atletas de Endurance (homens e mulheres): Como vimos, os “maratonistas da hemólise” (corredores, triatletas) têm perdas mecânicas e metabólicas que os colocam em risco, independentemente do sexo.

3. “Estou me sentindo cansado. Vou comprar um suplemento de ferro na farmácia e resolver isso.”

Absolutamente não. Se a falta de ferro é ruim, o excesso é tóxico. Ferro é um pró-oxidante potente. Suplementar sem necessidade (ou em excesso) pode gerar estresse oxidativo, sobrecarregar o fígado e, ironicamente, prejudicar sua saúde.

A suplementação de ferro não é como a de vitamina C, que você urina o excesso. O corpo tem dificuldade em excretar ferro, preferindo armazená-lo. O diagnóstico deve ser feito por exames de sangue (hemograma e ferritina), e a suplementação deve ser prescrita e monitorada por um profissional.

Para quem é (e para quem não é)?

A triagem de ferro não precisa ser uma obsessão para todos, mas é crucial para alguns.

✅ Quem deve ficar de olho e fazer exames regulares (semestral ou trimestral):

  • Mulheres Atletas: Especialmente em idade fértil, devido às perdas menstruais. A prevalência de deficiência nesse grupo pode chegar a 35%.
  • Atletas Adolescentes: A demanda do crescimento somada ao treino intenso é uma receita para a deficiência.
  • Atletas de Endurance: Corredores, triatletas, ciclistas. Quanto maior o volume, maior o risco de perdas.
  • Vegetarianos e Veganos: O ferro de origem vegetal (não-heme) tem uma absorção (biodisponibilidade) muito menor que o ferro de origem animal (heme).
  • Doadores de Sangue Regulares: Cada doação remove uma quantidade significativa de ferro dos estoques.

❌ Quem (provavelmente) não precisa se obcecar com isso:

  • Atletas de Força/Potência (sem dieta restritiva): O risco é significativamente menor, pois não há o fator da hemólise por impacto contínuo.
  • Homens adultos saudáveis: Com dieta onívora, que praticam esportes de intensidade moderada e não são atletas de ultra-endurance.
  • Pessoas com hemocromatose: Uma condição genética onde o corpo, na verdade, absorve ferro em excesso.

Conclusão e Recomendações Práticas

Antes de culpar seu tênis novo ou seu técnico pela sua fadiga, vale a pena checar o “nível do óleo”.

  1. Fadiga não é (só) “frescura”: Em atletas, a fadiga persistente apesar de um bom descanso é um sinal clínico que exige investigação.
  2. Existem estágios: A performance cai antes da anemia aparecer. A deficiência de ferro (ferritina baixa) é o primeiro sinal de alerta.
  3. Não é para todos, mas é vital para alguns: Mulheres, adolescentes e atletas de endurance são os grupos que precisam de monitoramento ativo.

A Lição Final: Não adivinhe. Teste. O seu VO2 max não se importa com “achismos”, ele se importa com oxigênio. E sem ferro, não há entrega.

Referências Bibliográficas

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CRM-SP 255.027

Autor

  • João Diniz

    Médico.
    Atleta Fisiculturismo Clássico.
    Tenente do Exército Brasileiro.
    Residente Medicina Esportiva USP.

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