
A prática esportiva regular faz bem ao coração, isso todo mundo já sabe. Mas existe uma minoria de atletas jovens que carrega uma doença cardíaca estrutural ou elétrica silenciosa, e o primeiro sintoma dela pode ser a morte súbita cardíaca (MSC). A incidência estimada varia de 1:5.200 a 1:200.000 atletas/ano, dependendo da população estudada, uma variação grande o suficiente para lembrar que “raro” não é sinônimo de “irrelevante”, principalmente com esse desfecho.
Reconhecer as red flags cardiovasculares não é apenas de curiosidade acadêmica, é competência clínica obrigatória para quem avalia atletas e praticantes de atividade física.
Se você quer estruturar melhor esse raciocínio clínico, da anamnese à decisão de investigar ou liberar, vale conhecer o curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber.
O que são red flags cardiovasculares?
Red flags são sinais, sintomas ou achados clínicos que aumentam a probabilidade de uma doença cardiovascular estrutural ou elétrica estar presente.
Fisiopatologicamente, a maioria das MSC em atletas jovens decorre de fibrilação ventricular desencadeada pelo exercício de alta intensidade em indivíduos com cardiopatia subjacente não diagnosticada. Mas quero deixar algo bem claro aqui, o exercício funciona como gatilho arritmogênico em quem já carrega o substrato, não como causa isolada.
O objetivo aqui não é vetar esporte por excesso de zelo. É identificar quem realmente precisa de investigação adicional antes de voltar para o campo.
Principais red flags durante a anamnese
Antes de pedir qualquer exame, vale lembrar: a anamnese continua sendo a ferramenta de maior valor na triagem cardiovascular.
Entre os principais sinais de alerta:
- Síncope ou pré-síncope relacionada ao exercício;
- Dor torácica desencadeada pelo esforço;
- Dispneia desproporcional ao nível de treinamento;
- Palpitações associadas ao exercício;
- Episódios de parada cardíaca recuperada;
- História prévia de miocardite;
- Uso confirmado ou suspeito de esteroides anabolizantes ou estimulantes, visto as alterações estruturais que esses fármacos podem fazer.
Qualquer um desses achados justifica investigação adicional obrigatória antes da liberação esportiva.
História familiar merece atenção especial
Devemos sempre lembrar da família. Por mais que a anamnese do paciente não nos traga informações relevantes, as vezes a história familiar traz.
Sinais de alerta na história familiar:
- Morte súbita antes dos 50 anos;
- Cardiomiopatia hipertrófica;
- Cardiomiopatia arritmogênica;
- Síndrome do QT longo;
- Síndrome de Brugada;
- Taquicardia ventricular catecolaminérgica polimórfica;
- Necessidade de desfibrilador implantável em familiares jovens.
A presença de qualquer um desses fatores muda significativamente a probabilidade pré-teste de doença hereditária.
A frase “meu pai morreu dormindo, ninguém sabe bem por quê” é uma frase que merece ser investigada, não anotada e esquecida.
E no exame físico
Muitas dessas doenças são silenciosas ao exame, mas nem sempre. Devemos ficar atento para:
- Sopros cardíacos sugestivos de cardiopatia estrutural;
- Pulsos anormais;
- Diferenças importantes de pressão arterial entre membros;
- Estigmas de doenças genéticas;
- Sinais de insuficiência cardíaca.
O exame físico isolado raramente fecha diagnóstico, mas ele entra na equação junto com a história.
Eletrocardiograma é importante?
O eletrocardiograma (ECG) de repouso de 12 derivações ocupa um espaço central, porém não isento de controvérsias. Enquanto entidades como a AHA/ACC/ACSM não o incluem rotineiramente na triagem, a Sociedade Brasileira de Cardiologia, ESC e diversas federações esportivas internacionais (FIFA, NBA, entre outras) o recomendam por sua capacidade comprovada de reduzir a incidência de morte súbita cardíaca na população atlética, sendo obrigatório nos atletas máster (>35 anos), grupo em que a doença arterial coronariana se torna a principal etiologia de risco.
O treinamento físico regular e intenso induz um espectro amplo de adaptações cardíacas estruturais, funcionais e elétricas, presentes em mais de 80% dos atletas de alto rendimento, o que exige do examinador conhecimento aprofundado das particularidades do “coração de atleta” para diferenciar alterações eletrocardiográficas fisiológicas daquelas sugestivas de cardiopatia estrutural ou elétrica subjacente. Essa distinção é crítica: interpretações excessivamente conservadoras podem levar a desqualificações desnecessárias e exames complementares onerosos, enquanto a subestimação de achados verdadeiramente patológicos pode expor o atleta a risco real de eventos arrítmicos fatais.
Para aprofundar essa diferenciação, vale revisitar o conteúdo sobre Coração de Atleta ou Doença Cardíaca.
Erros comuns e que não podem acontecer na avaliação
Alguns tropeços continuam frequentes e cabe a nós não deixar que isso continue acontecendo:
- Rotular qualquer síncope como vasovagal sem investigar a relação com o exercício;
- Liberar atleta só porque “hoje ele está assintomático”;
- Ignorar a história familiar;
- Interpretar ECG com critérios pensados para a população geral;
- Pedir exames em cascata sem probabilidade clínica que justifique;
- Assumir que o risco só se manifesta durante esforço intenso. Cerca de 60% das MSC em pacientes com CMH ocorrem em repouso ou atividade leve, o que derruba a lógica de “só preciso me preocupar se o sintoma aparece correndo”.
A avaliação cardiovascular exige método
A avaliação cardiovascular do atleta exige conhecimento específico sobre fisiologia do exercício, interpretação de ECG e critérios atuais de elegibilidade esportiva, coisa que não se resolve só com “bom senso clínico”, por mais que a gente confie nele.
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Referências
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- MacLachlan H, Bhatia R, Raju H, et al. Cardiac Screening for Conditions Associated With Sudden Cardiac Death. JACC. 2026.
- Finocchiaro G, Westaby J, Sheppard MN, Papadakis M, Sharma S. Sudden Cardiac Death in Young Athletes: JACC State-of-the-Art Review. 2024.
- Kim JH, Baggish AL, Levine BD, et al. Clinical Considerations for Competitive Sports Participation for Athletes With Cardiovascular Abnormalities. Circulation. 2025.
- Tseng ZH, Nakasuka K. Out-of-Hospital Cardiac Arrest in Apparently Healthy, Young Adults. JAMA. 2025.
- Maron BJ, Zipes DP, Kovacs RJ. Eligibility and Disqualification Recommendations for Competitive Athletes With Cardiovascular Abnormalities. JACC. 2015.
- Lampert R, Harmon KG. Sudden Cardiac Arrest in Athletes. NEJM. 2026.
- Maron BJ, Desai MY, Nishimura RA, et al. Diagnosis and Evaluation of Hypertrophic Cardiomyopathy: JACC State-of-the-Art Review. 2022.
- Norrish G, Cleary A, Field E, et al. Clinical Features and Natural History of Preadolescent Nonsyndromic Hypertrophic Cardiomyopathy. JACC. 2022.

