DEA em eventos esportivos: por que ele deve ser obrigatório?

DEA em eventos esportivos

A prática regular de exercícios reduz o risco cardiovascular e está associada a inúmeros benefícios para a saúde. Ainda assim, a realização de uma competição esportiva não elimina a possibilidade de uma emergência cardíaca. Embora rara, a parada cardiorrespiratória durante o exercício exige reconhecimento imediato e uma resposta coordenada. Dessa forma a presença de DEA em eventos esportivos é um dos pilares do atendimento de intercorrências.

Nesse cenário, a disponibilidade de um Desfibrilador Externo Automático (DEA) não deve ser tratada apenas como um recurso adicional. O equipamento é parte essencial do plano de atendimento a emergências, especialmente porque, nos ritmos cardíacos chocáveis, cada minuto de atraso na desfibrilação reduz a possibilidade de sobrevivência.

Para médicos envolvidos na organização de competições, na cobertura assistencial ou na gestão de instalações esportivas, é fundamental compreender não apenas como o DEA funciona, mas também onde deve estar, quem deve utilizá-lo e como incorporá-lo a um protocolo efetivo.

Esses temas fazem parte da formação abordada no curso A Medicina do Esporte que Todo Médico deve saber, da MedEsporte Papers.

O que é um DEA?

DEA em eventos esportivos

O Desfibrilador Externo Automático é um equipamento portátil capaz de analisar o ritmo cardíaco e identificar quando a desfibrilação está indicada.

O choque pode ser recomendado em ritmos como:

  • fibrilação ventricular;
  • taquicardia ventricular sem pulso.

Após a colocação das pás adesivas no tórax, o aparelho fornece comandos visuais e sonoros ao socorrista. Se identificar um ritmo chocável, orienta ou realiza a desfibrilação, dependendo do modelo utilizado.

O DEA não administra choques indiscriminadamente. Antes de liberar a descarga elétrica, o equipamento analisa o ritmo e determina se a intervenção está indicada. Por isso, pode ser utilizado com segurança por profissionais de saúde e por pessoas leigas que sigam suas instruções — embora o treinamento prévio em Suporte Básico de Vida torne a resposta mais rápida e organizada.

As diretrizes de 2025 do European Resuscitation Council reforçam que qualquer pessoa pode utilizar um DEA e que o equipamento deve ser conectado assim que estiver disponível. (ERC, 2025)

Por que o DEA em eventos esportivos é tão importante?

O exercício pode atuar como gatilho de uma arritmia ventricular em pessoas suscetíveis, inclusive naquelas sem diagnóstico cardiovascular prévio. Isso não significa que o esporte seja perigoso. Significa apenas que ambientes esportivos precisam estar preparados para eventos raros, mas potencialmente fatais.

Quando ocorre uma parada cardíaca súbita de origem arrítmica, o ritmo inicial pode ser fibrilação ventricular ou taquicardia ventricular sem pulso. Nesses casos, a desfibrilação precoce é uma das intervenções com maior impacto sobre a sobrevivência.

A RCP mantém algum fluxo sanguíneo para o cérebro e para o próprio coração, mas não costuma reverter sozinha a fibrilação ventricular. Para interromper esse ritmo, é necessário aplicar o choque.

Quanto mais tempo a desfibrilação demora, menor é a probabilidade de reversão da arritmia. Por isso, não basta haver um DEA no estádio, clube ou complexo esportivo: ele precisa chegar ao local do colapso em poucos minutos.

Uma metanálise sobre paradas cardíacas relacionadas ao esporte encontrou associação entre intervenções precoces — especialmente RCP realizada por testemunhas e uso do DEA — e maior sobrevivência. (European Heart Journal)

Pérola clínica: diante de um atleta que apresenta colapso súbito, permanece inconsciente e não respira normalmente, deve-se presumir parada cardiorrespiratória. Movimentos semelhantes a convulsões e respiração agônica não afastam o diagnóstico.

O que acontece durante a desfibrilação?

Coração na desfibrilação ventricular e a necessidade de DEA em eventos esportivos

Na fibrilação ventricular, a atividade elétrica do coração torna-se desorganizada. O miocárdio deixa de produzir uma contração coordenada e, consequentemente, não há débito cardíaco efetivo.

A desfibrilação fornece uma corrente elétrica capaz de despolarizar simultaneamente uma massa crítica de células miocárdicas. O objetivo não é “reiniciar” um coração parado, como frequentemente se vê em filmes, mas interromper a atividade elétrica caótica e permitir que o sistema de condução cardíaco reassuma o controle do ritmo.

Enquanto a circulação permanece ausente:

  • diminui a oferta de oxigênio ao cérebro e ao miocárdio;
  • desenvolvem-se acidose e alterações metabólicas;
  • reduz-se a chance de sucesso da desfibrilação;
  • aumenta a possibilidade de deterioração para assistolia;
  • cresce o risco de morte ou de sequelas neurológicas.

A lógica é simples: reconhecer cedo, iniciar a RCP imediatamente e desfibrilar o quanto antes.

O DEA é legalmente obrigatório em todos os eventos esportivos?

Não necessariamente.

No Brasil, não existe uma regra federal única que torne o DEA obrigatório, indistintamente, em todo evento esportivo. Há leis estaduais e municipais que estabelecem essa exigência de acordo com critérios como:

  • número de pessoas presentes;
  • tipo de estabelecimento;
  • capacidade do local;
  • natureza do evento;
  • existência de instalações esportivas permanentes.

Também existem projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional que buscam ampliar a obrigatoriedade, mas um projeto de lei não deve ser apresentado como norma já vigente. O Projeto de Lei nº 2.305/2025, por exemplo, propõe tornar o DEA obrigatório em academias, centros de treinamento e clubes esportivos, mas sua apresentação não equivale à aprovação de uma lei federal. (Câmara dos Deputados)

Portanto, o organizador deve consultar previamente:

  • a legislação do estado e do município;
  • as exigências do Corpo de Bombeiros;
  • os regulamentos da federação ou confederação esportiva;
  • as condições estabelecidas no licenciamento do evento;
  • as normas sanitárias e de segurança aplicáveis.

Mesmo quando não houver uma obrigação legal expressa, a presença do DEA pode ser considerada uma medida assistencial indispensável conforme o porte, o perfil dos participantes, a distância do serviço de emergência e o tempo estimado até a chegada de suporte avançado.

Pérola clínica: “não ser obrigatório por uma lei federal” não significa que o evento esteja dispensado de oferecer uma estrutura médica compatível com seus riscos previsíveis.

O DEA sozinho resolve o problema?

Não.

O DEA é um elo da cadeia de sobrevivência. Seu benefício depende da integração com outras medidas:

  1. reconhecimento rápido da parada cardiorrespiratória;
  2. acionamento imediato do serviço de emergência;
  3. início da RCP de alta qualidade;
  4. chegada e utilização precoce do DEA;
  5. suporte avançado de vida;
  6. cuidados pós-parada.
DEA em eventos esportivos

Um equipamento guardado em uma sala trancada, sem sinalização ou a vários minutos da competição oferece uma falsa sensação de segurança.

Da mesma forma, não basta informar à equipe que “há um DEA no local”. É preciso definir quem buscará o aparelho, quem iniciará as compressões, quem acionará o serviço de emergência e quem orientará a entrada da ambulância.

Em quanto tempo o DEA precisa chegar?

O tempo deve ser calculado a partir do colapso até a aplicação do primeiro choque — e não apenas pelo tempo necessário para localizar o equipamento.

O percurso precisa considerar:

  • reconhecimento da emergência;
  • comunicação entre os profissionais;
  • deslocamento até o DEA;
  • retorno ao local da vítima;
  • exposição e preparo do tórax;
  • colocação das pás;
  • análise do ritmo;
  • aplicação do choque.

Em instalações extensas, um único DEA pode não ser suficiente. O planejamento deve levar em conta os pontos mais distantes, as barreiras físicas, a presença de arquibancadas, portões, escadas, áreas aquáticas e eventuais aglomerações.

A American Heart Association disponibiliza um modelo específico de plano de resposta a emergências cardíacas em instalações esportivas, destacando acesso rápido ao DEA, definição de responsabilidades e treinamento da equipe. (AHA — Cardiac Emergency Response Plan)

Como estruturar a resposta à parada cardíaca no evento?

Antes da abertura da competição, médicos e organizadores devem confirmar:

  • quantidade de DEAs disponíveis;
  • localização e sinalização dos equipamentos;
  • validade e integridade das pás;
  • condição da bateria;
  • presença de pás pediátricas, quando aplicável;
  • disponibilidade de kit para preparo do tórax;
  • profissionais treinados em RCP e uso do DEA;
  • número do serviço de emergência;
  • forma de comunicação interna;
  • rotas de entrada e saída da ambulância;
  • hospital de referência;
  • registro e documentação do atendimento.

O plano deve ser escrito e compartilhado com todas as pessoas envolvidas na resposta. Também precisa ser adaptado ao local: o protocolo de uma corrida de rua é diferente daquele utilizado em um estádio, uma prova de triatlo ou uma competição realizada em área remota.

Em corridas de rua

É necessário considerar a extensão do percurso e distribuir recursos em pontos estratégicos. Motolâncias, bicicletas de atendimento e equipes móveis podem reduzir o tempo até a vítima.

Em provas de triatlo

O plano precisa contemplar o resgate na água, o reconhecimento da parada após a retirada do atleta e o acesso rápido ao DEA nas áreas de transição e chegada.

Em estádios e ginásios

A lotação, as arquibancadas e as barreiras de circulação tornam necessário planejar não apenas o atendimento aos atletas, mas também a possíveis emergências entre espectadores, árbitros, profissionais e membros das equipes.

A elaboração de um plano de resposta às emergências cardiovasculares exige conhecimento técnico e adaptação às características de cada modalidade. Para aprofundar esse tema, conheça o curso A Medicina do Esporte que Todo Médico deve saber, da MedEsporte Papers.

Erros comuns na cobertura de eventos esportivos

Algumas falhas comprometem a resposta mesmo quando existe estrutura médica no local:

  • acreditar que a presença de uma ambulância substitui o DEA próximo à competição;
  • deixar o equipamento distante ou em local trancado;
  • desconhecer o estado da bateria e a validade das pás;
  • não definir previamente as funções de cada integrante;
  • deixar de simular o atendimento;
  • não prever falhas na comunicação;
  • dificultar o acesso da ambulância;
  • confiar exclusivamente na avaliação pré-participação.

A avaliação cardiovascular pode identificar fatores de risco e algumas doenças associadas à morte súbita, mas não consegue prevenir ou antecipar todos os eventos. Mesmo atletas adequadamente avaliados podem apresentar uma parada cardíaca inesperada.

Por que as simulações são necessárias?

Simulado do uso de DEA em eventos esportivos

O treinamento teórico não reproduz todas as dificuldades de uma emergência real. Durante uma simulação, podem surgir problemas que passariam despercebidos em um planejamento feito apenas no papel:

  • o rádio não funciona em determinada área;
  • o DEA demora mais do que o previsto para chegar;
  • a entrada da ambulância está bloqueada;
  • ninguém sabe quem deve telefonar para o serviço de emergência;
  • o kit de atendimento está incompleto;
  • a equipe não consegue localizar rapidamente o atleta.

As simulações permitem corrigir essas falhas antes que uma emergência real aconteça. O plano deve ser revisado sempre que houver mudança no percurso, no local, na estrutura assistencial ou nos integrantes da equipe.

Limitações das evidências

A parada cardíaca súbita relacionada ao esporte apresenta baixa incidência absoluta. Por razões éticas e logísticas, não seria viável realizar ensaios randomizados comparando eventos com e sem acesso à desfibrilação.

Grande parte das recomendações deriva, portanto, de registros populacionais, estudos observacionais, revisões sistemáticas e consensos de especialistas.

Essa limitação não diminui a importância da intervenção. Os resultados são consistentes ao demonstrar que o reconhecimento rápido, a RCP realizada por equipe treinada e o acesso precoce ao DEA estão associados a melhores desfechos.

Resumo prático

O DEA é parte fundamental da segurança em eventos esportivos, mas seu benefício depende de acesso rápido, manutenção adequada, equipe preparada e integração a um plano de emergência.

No Brasil, a obrigatoriedade legal varia conforme o estado, o município, o porte do evento e as normas da modalidade. Por isso, cada organizador deve verificar a legislação aplicável.

Independentemente da exigência formal, eventos esportivos organizados devem avaliar seriamente a disponibilidade do equipamento. Diante de uma parada cardíaca por ritmo chocável, reduzir o tempo até a desfibrilação pode representar a diferença entre morte, sequela neurológica grave e recuperação com bom prognóstico.

O atendimento às emergências cardiovasculares no esporte exige mais do que conhecer o algoritmo de ressuscitação. É necessário planejar, treinar e adaptar a estrutura à realidade de cada modalidade.

Para aprofundar a avaliação cardiovascular, a prevenção da morte súbita e o atendimento às emergências esportivas, conheça o curso A Medicina do Esporte que Todo Médico deve saber, da MedEsporte Papers.

Leia também

Referências

AMERICAN HEART ASSOCIATION. 2025 American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Circulation, v. 152, supl. 2, 2025. Disponível em: https://cpr.heart.org/en/resuscitation-science/cpr-and-ecc-guidelines.

SCARNEO-MILLER, S. E. et al. National Athletic Trainers’ Association position statement: emergency action plan development and implementation in sport. Journal of Athletic Training, v. 59, n. 6, p. 570–583, 2024. DOI: 10.4085/1062-6050-0521.23.

SMYTH, M. A. et al. European Resuscitation Council Guidelines 2025: Adult Basic Life Support. Resuscitation, v. 215, art. 110771, 2025. DOI: 10.1016/j.resuscitation.2025.110771.

HARMON, K. G. et al. Incidence of sudden cardiac death in athletes: a state-of-the-art review. British Journal of Sports Medicine, v. 48, n. 15, p. 1185–1192, 2014.

TAN, H. L. et al. Association between basic life support and survival in sports-related sudden cardiac arrest: a meta-analysis. European Heart Journal, v. 44, n. 3, p. 180–192, 2023.

Autor

  • Melo Carla

    Médica do Esporte formada pela Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro, em 2007, com especialização em Nutrologia pela ABRAN e título de especialista em Medicina do Exercício e do Esporte pela SBMEE.
    Atua na avaliação, acompanhamento e cuidado de atletas e praticantes de atividade física, com experiência em maratonas e eventos esportivos. É sócia da clínica IEMEX Performance, em Curitiba, e também realiza atendimentos em consultório particular na Clinica CMI em Mafra/SC.
    Sua prática integra medicina do esporte, nutrologia e promoção da saúde, com foco em performance, prevenção de lesões, qualidade de vida e longevidade ativa.
    Instagram: @dracarla.melo

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