Retatrutida e perda de massa muscular: devemos nos preocupar?

A retatrutida pode levar à perda de massa muscular? Entenda o impacto da composição corporal, os grupos de risco e as estratégias para preservar massa magra durante o emagrecimento.
Retatrutida e perda de massa muscular

Os resultados dos estudos clínicos com retatrutida chamaram atenção por um motivo simples: a magnitude da perda de peso superou o que se observava com outras terapias disponíveis. Para quem trabalha com obesidade, isso é revolucionário.

Mas à medida que os números ficam mais expressivos, uma pergunta começa a aparecer com mais frequência nas discussões:

O que exatamente está sendo perdido durante esse emagrecimento?

A balança não sabe responder. Ela registra quilos, não diferencia gordura, músculo, água ou glicogênio. E uma perda de peso expressiva não é necessariamente sinônimo de melhora da composição corporal.

Essa distinção é o que vai orientar boa parte do que discutimos aqui.

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O que é a retatrutida?

A retatrutida é um agonista triplo, atua simultaneamente sobre os receptores de GLP-1, GIP e glucagon. Essa combinação parece potencializar mecanismos envolvidos no controle do peso corporal:

  • Redução do apetite
  • Aumento da saciedado
  • Menor ingestão energética
  • Alterações no metabolismo energético.

Os estudos clínicos publicados até o momento demonstraram reduções de peso considerável em indivíduos com obesidade, o que nos leva à questão central.

Toda perda de peso inclui perda de massa magra

Existe uma percepção de que o emagrecimento remove exclusivamente gordura corporal. Isso, quase nunca é o que acontece.

Independentemente da estratégia, dieta, exercício, cirurgia bariátrica ou tratamento farmacológico, parte do peso perdido geralmente corresponde à massa livre de gordura, que inclui músculo esquelético, água corporal, glicogênio e tecido conjuntivo.

Portanto, a pergunta certa não é se ocorre perda de massa magra. É qual o grau dessa perda, qual sua proporção em relação ao peso total perdido e qual seu impacto clínico para aquele paciente específico.

O que os dados sobre retatrutida mostram?

Um subestudo de fase 2, publicado em 2025, avaliou especificamente os efeitos da retatrutida sobre composição corporal em 189 participantes com diabetes tipo 2, usando DXA para medições objetivas. É a referência mais direta que temos hoje para responder essa pergunta com números.

Os resultados mostram uma relação consistente: quanto maior a dose, maior a perda de peso, e maior a redução tanto de massa gorda quanto de massa magra. Com a dose de 8 mg, a perda de massa magra chegou a 6,54 kg em 36 semanas. Um número que, fora de contexto, pode soar preocupante.

O contexto é justamente o que importa aqui.

A redução percentual de massa gorda foi substancialmente maior em todos os grupos, com a dose de 8 mg, a massa gorda reduziu 26,1% contra 12,5% de massa magra. E o índice de perda de gordura (a proporção de massa gorda perdida em relação ao peso total) foi consistente com a maioria dos outros tratamentos para perda de peso. Em outras palavras: a retatrutida não parece provocar perda desproporcional de massa magra quando comparada a outras terapias farmacológicas ou intervenções para obesidade.

Isso tranquiliza, mas não encerra a discussão.

A questão do glucagon e os aminoácidos

Havia uma preocupação teórica específica com a retatrutida que merece ser nomeada: a ativação crônica do receptor de glucagon poderia reduzir aminoácidos circulantes e, consequentemente, comprometer a síntese proteica muscular.

Os dados clínicos confirmaram que o tratamento com retatrutida de fato reduz concentrações de aminoácidos circulantes de forma dose-dependente, incluindo aminoácidos gliconeogênicos como alanina e arginina, alguns aminoácidos essenciais e aminoácidos de cadeia ramificada como leucina, isoleucina e valina.

Esse achado merece atenção, mas tem um lado interessante: a redução de aminoácidos de cadeia ramificada não é necessariamente negativa no contexto metabólico, já que esses aminoácidos têm sido associados à resistência insulínica e disfunção metabólica. Redução de BCAA circulantes em indivíduos com obesidade e diabetes tipo 2 pode, na verdade, refletir melhora metabólica.

Para interpretar melhor o significado clínico dessas variações de aminoácidos, especialmente no contexto de perda de peso substancial, estudos futuros avaliando força muscular e desempenho físico em conjunto com composição corporal seriam necessários. Infelizmente, não temos esses dados ainda.

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O que os dados atuais não respondem

O subestudo de composição corporal tem limitações relevantes que precisam ser consideradas na leitura dos resultados.

A DXA não distingue entre tipos de gordura (visceral, subcutânea, intramuscular), nem entre tipos de massa magra ( músculo e órgãos). O estudo avaliou composição apenas em dois momentos, o que limita a compreensão de como essas mudanças evoluem ao longo do tempo. Apenas 55% dos participantes completaram o estudo com ambas as medições. E os dados são restritos a adultos com diabetes tipo 2, ou seja, o comportamento em pessoas com obesidade sem diabetes pode ser diferente.

Mais importante: ainda não temos dados de força muscular, desempenho físico ou capacidade funcional com a retatrutida. Sabemos o que acontece com os números na DXA. Não sabemos, ainda, o que isso significa para a função do paciente.

Uma referência útil vem da comparação com a cirurgia bariátrica: reduções de massa magra e força de preensão após bypass gástrico foram acompanhadas, em algumas coortes, por melhora da força muscular relativa e da função física. O que sugere que perda absoluta de massa magra não traduz necessariamente perda funcional, mas isso precisa ser investigado especificamente para a retatrutida.

Perda de massa magra é sempre um problema?

Não necessariamente, e essa talvez seja a interpretação mais importante para a prática clínica.

Um indivíduo com obesidade grave que reduz substancialmente sua gordura corporal pode apresentar melhora global da saúde metabólica mesmo que ocorra alguma redução de massa magra ao longo do processo. O contexto clínico define o peso dessa perda.

A preocupação tende a ser maior em grupos específicos:

Idosos: o envelhecimento já está associado à perda progressiva de massa muscular. Uma redução adicional durante o emagrecimento pode aumentar o risco de fragilidade, perda funcional, quedas e dependência física.

Pacientes com sarcopenia pré-existente: quando a reserva muscular já é baixa, o objetivo do tratamento não é apenas perder gordura, é preservar a capacidade funcional.

Indivíduos sedentários: sem estímulo mecânico adequado, a tendência de perda muscular durante o déficit energético é maior.

Pacientes com baixa ingestão proteica: a disponibilidade de aminoácidos influencia diretamente a manutenção da massa magra em períodos de restrição calórica.

Perdas muito aceleradas: quanto mais rápida a redução ponderal, maior tende a ser a preocupação com a preservação da massa magra.

[EXEMPLO SUGERIDO: Paciente de 67 anos, IMC 38, com força de preensão palmar reduzida e velocidade de marcha limítrofe. Candidato à retatrutida — mas com monitoramento de composição corporal e função física desde o início do tratamento, não apenas acompanhamento de peso.

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O erro de avaliar apenas o peso

A balança é uma ferramenta útil, mas conta apenas parte da história.

Do ponto de vista clínico, duas pessoas podem perder exatamente o mesmo número de quilos e apresentar resultados completamente diferentes: uma perde predominantemente gordura, a outra perde massa muscular de forma proporcionalmente maior.

Perder 15 kg não é necessariamente melhor do que perder 10 kg. A qualidade do peso perdido importa tanto quanto a quantidade.

Essa perspectiva é central para quem trabalha com composição corporal e saúde metabólica, e é justamente o que o acompanhamento baseado apenas em pesagem não consegue capturar.

Como minimizar a perda muscular durante o tratamento?

Nenhuma estratégia elimina completamente esse risco, mas algumas têm suporte suficiente para orientar a prática.

Treinamento resistido continua sendo a principal ferramenta para preservar massa muscular durante o emagrecimento. A musculatura responde ao estímulo mecânico. Sem ele, a tendência de perda é maior independentemente de qualquer fármaco.

Ingestão proteica adequada auxilia na manutenção da massa magra durante períodos de déficit energético. A necessidade individual deve ser avaliada de forma personalizada, considerando peso, composição corporal e nível de atividade física, e especialmente em pacientes usando retatrutida, onde a redução de aminoácidos circulantes é um achado documentado.

Monitoramento da composição corporal oferece informações mais úteis do que o peso isolado para a tomada de decisão clínica. Sempre que possível, vale incluir essa avaliação no acompanhamento, e não apenas nos momentos em que o paciente reclama.

Avaliação funcional regular deve considerar força muscular e desempenho físico, não apenas parâmetros metabólicos ou de peso. É exatamente esse dado que ainda falta na literatura sobre retatrutida e que fará diferença para populações de maior risco.

O que podemos afirmar

O que os dados atuais permitem dizer:

A retatrutida promove perda de peso significativa, com redução predominante de gordura corporal
A proporção de perda de massa magra em relação ao peso total é semelhante à de outros tratamentos para obesidade.
A molécula reduz aminoácidos circulantes de forma dose-dependente, o que é biologicamente relevante mas ainda carece de interpretação funcional clara.
A preservação muscular deve ser considerada desde o início do tratamento, especialmente em populações de risco

O que ainda não podemos afirmar:

O impacto da retatrutida sobre força muscular e desempenho físico, já que esses dados ainda não existem.
O comportamento da composição corporal após muitos anos de tratamento ou após a interrupção.
Como a molécula se comporta em pessoas com obesidade sem diabetes, em idosos frágeis e em atletas.
A cinética das mudanças de composição corporal ao longo do tempo.

Emagrecer não significa apenas perder peso. Significa melhorar a composição corporal, preservar função física e reduzir risco cardiometabólico. Entender essa diferença na prática clínica é o que separa um tratamento da obesidade bem conduzido de um número na balança.

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Referências

JASTREBOFF, Ania M. et al. Triple-Hormone-Receptor Agonist Retatrutide for Obesity — A Phase 2 Trial. New England Journal of Medicine, v. 389, n. 6, p. 514–526, 2023.

RUBINO, D. et al. Advances in incretin-based therapies for obesity and metabolic disease. Nature Reviews Endocrinology, v. 20, p. 1–17, 2024.

MÜLLER, M. J.; BRAUN, W.; ENDERLE, J.; BOSY-WESTPHAL, A. Beyond BMI: conceptual issues related to overweight and obese patients. Obesity Facts, v. 9, n. 3, p. 193–205, 2016.

WOLFE, R. R. The underappreciated role of muscle in health and disease. American Journal of Clinical Nutrition, v. 84, n. 3, p. 475–482, 2006.

CRUZ-JENTOFT, Alfonso J. et al. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis. Age and Ageing, v. 48, n. 1, p. 16–31, 2019.

Autor

  • Caio César Demore

    Médico pela Universidade da Região de Joinville - UNIVILLE.
    Residente em Medicina do Esporte pela UCS

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