
Com o aumento das prescrições de tirzepatida, surgiu também um fenômeno esperado: pacientes chegando ao consultório com listas de efeitos colaterais copiadas de bulas e vídeos do YouTube e Instagram, e uma ansiedade proporcional ao tamanho da lista.
Do outro lado, existe o risco oposto: o médico que, empolgado com os resultados expressivos, minimiza qualquer sintoma como “normal do início do tratamento” sem investigar adequadamente.
Os dois extremos são problemáticos.
Quais sintomas são esperados, quais costumam melhorar com o tempo e quais exigem investigação adicional?
Essa é a pergunta que organiza a discussão clínica e é muito mais útil do que simplesmente reproduzir a tabela de eventos adversos do estudo.
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Por que a tirzepatida causa efeitos colaterais gastrointestinais?
Antes de listar sintomas, vale entender de onde eles vêm.
A tirzepatida atua como agonista duplo dos receptores de GIP e GLP-1. Entre seus efeitos fisiológicos estão aumento de saciedade, redução da ingestão alimentar, melhora do controle glicêmico e retardo do esvaziamento gástrico.
Esse último mecanismo é especialmente relevante: grande parte dos efeitos adversos gastrointestinais decorre diretamente da forma como o medicamento produz seus benefícios. Em outras palavras, o mesmo mecanismo que faz o paciente comer menos é o que causa náusea. Explicar isso ao paciente antes do início do tratamento muda como ele interpreta os sintomas nas primeiras semanas e entendendo o mecanismo do efeito colateral, o paciente tende a suportar tais efeitos e aderir melhor ao tratamento.
Os efeitos colaterais mais comuns
Os dados do SURMOUNT-1 permitem sair do vago e colocar incidências na conversa clínica. No total, eventos gastrointestinais ocorreram em 78,9 a 81,8% dos pacientes em uso de tirzepatida, o que soa alto, mas vamos deixar claro que boa parte desses eventos foi leve, transitória e concentrada na fase de escalonamento de dose.
Os sintomas mais frequentes e suas incidências aproximadas em comparação ao placebo:
- Náusea: 24,6 a 33,3% vs. 9,5% no placebo
- Diarreia: 18,7 a 23,0% vs. 7,3%
- Constipação: 11,7 a 17,1% vs. 5,8%
- Vômitos: 8,3 a 12,2% vs. 1,7%
- Dispepsia: 8,9 a 11,3% vs. 4,2%
- Diminuição do apetite: 8,6 a 11,5% vs. 3,3%
- Dor abdominal: 4,9 a 5,3% vs. 3,3%
Um ponto importante para a conversa com o paciente: náusea e diarreia são tipicamente transitórias, com incidência de novos eventos diminuindo ao longo do tempo. No período de manutenção do SURMOUNT-4, as taxas caíram substancialmente, náusea em 8,1%, diarreia em 10,7% e vômitos em 5,7%, muito próximas das taxas do placebo nessa fase.
A alopecia merece menção separada por ser frequentemente subestimada na conversa pré-tratamento: ocorreu em 4,9 a 5,7% dos pacientes versus 0,9% no placebo. Não é rara o suficiente para ser ignorada, e alertar o paciente antes evita surpresas que podem comprometer a adesão.
Reações no local de injeção foram relatadas em 2,9 a 5,7% dos casos, sem nenhum evento grave ou sério registrado.
Descontinuação por efeitos adversos
Esse é um dado que ajuda na conversa sobre tolerabilidade e adesão.
As taxas de descontinuação por eventos adversos variaram entre os estudos do programa SURMOUNT: 4,3 a 7,1% no SURMOUNT-1 e até 10,5% no SURMOUNT-3, comparados a 2,1 a 2,6% nos grupos placebo. No período de manutenção do SURMOUNT-4, a taxa caiu para 1,8%, evidenciando que a fase mais crítica é justamente o escalonamento inicial.
As principais causas de descontinuação foram náusea (1,0 a 1,9%), diarreia (0,3 a 0,8%) e vômitos (0 a 0,6%). Ou seja: a maioria dos pacientes que apresentam esses sintomas não descontinua, e identificar precocemente quem tem maior risco de intolerância é parte do acompanhamento clínico.
Eventos adversos sérios: o que os dados mostram
A incidência geral de eventos adversos sérios com tirzepatida foi de 5,1 a 6,9%, similar ao placebo, que ficou em 6,8%. Esse dado é relevante para contextualizar o perfil de segurança da molécula: ela causa mais sintomas gastrointestinais do que o placebo, mas não aumenta substancialmente o risco de eventos graves.
Uma metanálise comparou tirzepatida à insulina chegou a uma conclusão paradoxal: embora a tirzepatida apresente cerca de 2,5 vezes mais chances de qualquer evento adverso comparado à insulina diária, as doses mais altas foram associadas a menores chances de eventos adversos sérios. O que reforça que volume de sintomas e gravidade de eventos são dimensões diferentes do perfil de segurança.
Pancreatite: risco real ou alarme desproporcional?
Esse tema acompanha praticamente toda discussão sobre terapias incretínicas, e às vezes com mais alarme do que evidência.
No SURMOUNT-1, a incidência de pancreatite foi de 0,2% em cada grupo de dose, idêntica ao placebo. No SURMOUNT-2, foram confirmados três casos, sendo dois no grupo de 15 mg e um no placebo, nenhum classificado como grave.
Os dados disponíveis, portanto, não demonstram aumento substancial do risco de pancreatite com tirzepatida em comparação com outras estratégias terapêuticas. Isso não significa ignorar o tema.
Pacientes com dor abdominal intensa e persistente devem ser avaliados adequadamente, independentemente do risco absoluto observado nos estudos.
A interpretação precisa permanecer individualizada e ancorada no contexto clínico, não em listas de contraindicações aplicadas de forma automática.
Vesícula biliar: medicamento vs perda de peso?
Os eventos biliares merecem atenção diferenciada porque envolvem uma questão de causalidade que nem sempre é simples de resolver na prática.
No SURMOUNT-1, colelitíase ocorreu em 0,6 a 1,4% dos pacientes em uso de tirzepatida versus 0,9% no placebo, incidências similares. Colecistite foi relatada em 0,5 a 0,6% versus 0% no placebo. No estudo de prevenção de diabetes, as taxas foram um pouco mais elevadas: 2,1 a 3,6% versus 1,9% no placebo.
O que temos que tem em mente é que a perda de peso rápida, independentemente da estratégia utilizada, aumenta o risco de colelitíase e complicações biliares. Isso cria um problema diagnóstico prático: quando um paciente em uso de tirzepatida desenvolve sintomas biliares, nem sempre é possível atribuir com clareza ao medicamento ou à velocidade do emagrecimento.
Contraindicações que precisam estar na cabeça, não só na bula
Dois pontos de contraindicação absoluta que merecem destaque por sua importância clínica:
Carcinoma medular de tireoide (CMT) e Síndrome de Neoplasia Endócrina Múltipla tipo 2 (NEM 2). A tirzepatida é contraindicada em pacientes com história pessoal ou familiar dessas condições. A advertência de caixa preta sobre tumores de células C da tireoide, observados em ratos, tem significância incerta para humanos, mas a contraindicação permanece.
Duas precauções adicionais que frequentemente não recebem a atenção que merecem:
Anticoncepcionais orais: o retardo do esvaziamento gástrico pode alterar a absorção de medicações orais. Pacientes em uso de anticoncepcionais orais devem trocar para método não oral ou usar método de barreira por quatro semanas após o início da tirzepatida e por quatro semanas após cada escalonamento de dose. Esse ponto costuma ser esquecido na consulta e é relevante.
Ideação suicida: existe advertência sobre aumento de comportamento e ideação suicida, baseada em experiência com outras medicações para perda de peso. Pacientes devem ser monitorados para o surgimento de sintomas, e a tirzepatida não deve ser prescrita para pacientes com história de tentativas de suicídio ou ideação ativa. No SURMOUNT-1, transtorno depressivo maior ou ideação suicida foram relatados em 0,2 a 0,3% versus 0% no placebo, incidência baixa, mas não zero.
Outros pontos: não é necessário ajuste de dose para insuficiência renal ou hepática. Lesão renal aguda foi relatada raramente em contexto pós-comercialização, principalmente em pacientes com desidratação secundária a eventos gastrointestinais.
Gravidez é contraindicação para continuidade do tratamento, com dados insuficientes para determinar risco fetal, e dados sobre lactação são inexistentes.
O erro de atribuir todo sintoma à tirzepatida
Esse talvez seja o equívoco mais comum na prática, e o mais silencioso, porque raramente é percebido como erro.
Pacientes em uso de tirzepatida podem apresentar simultaneamente doença do refluxo gastroesofágico, gastrite, colelitíase, síndrome do intestino irritável ou outras condições gastrointestinais que existiam antes do início do tratamento ou que se desenvolveram de forma independente.
A relação temporal entre sintoma e medicamento é importante, mas não substitui o raciocínio clínico.
Como reduzir os efeitos colaterais na prática
Escalonamento adequado de dose é provavelmente a intervenção mais eficaz. Os dados dos estudos mostram que a maior parte dos eventos gastrointestinais se concentra nas fases de aumento de dose, e o aceleramento desse processo é uma das causas mais comuns de intolerância desnecessária.
Ajuste do volume das refeições ajuda a reduzir náusea e distensão. Pacientes que continuam comendo as mesmas porções de antes frequentemente têm mais desconforto do que aqueles que adaptam o volume desde o início.
Hidratação adequada é especialmente importante em pacientes com vômitos ou diarreia, onde o risco de depleção hídrica é real, e onde, em casos mais graves, existe risco de lesão renal aguda que não deve ser subestimado.
Acompanhamento regular permite identificar precocemente sintomas que fogem do padrão esperado, ajustar doses quando necessário e manter a adesão, que é, no final, o fator mais determinante para o resultado clínico.
Interpretar adequadamente os efeitos adversos de uma terapia exige conhecimento de fisiologia, senso crítico sobre a evidência disponível e a disposição de não atribuir automaticamente ao medicamento tudo o que acontece depois que ele é iniciado. Esse raciocínio é o que separa o manejo clínico criterioso da prescrição por protocolo.
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Referências
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