Visão geral do estudo
A retatrutida voltou a chamar atenção no cenário da obesidade após a divulgação dos resultados topline do estudo TRIUMPH-1, um ensaio clínico de fase 3 que avaliou esse medicamento em adultos com obesidade ou sobrepeso associado a pelo menos uma comorbidade relacionada ao peso, mas sem diabetes. O ponto central do estudo é impressionante: em 80 semanas, os participantes que receberam a maior dose, de 12 mg, perderam em média 28,3% do peso corporal, o equivalente a aproximadamente 31,9 kg (70,3 lb)
Antes de interpretar esses números como uma “revolução definitiva”, é importante destacar um ponto metodológico essencial: o documento analisado é apenas um comunicado de imprensa da Eli Lilly, com resultados topline. Ou seja, ainda não temos aqui o artigo completo revisado por pares, com todos os detalhes estatísticos, subgrupos, dados individuais, curvas de segurança e discussão metodológica aprofundada. Mesmo assim, os resultados divulgados são relevantes porque vêm de um estudo fase 3, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, com grande número de participantes.

O que é a retatrutida?
A Retatrutida é uma molécula experimental, ainda não aprovada para uso comercial que atua como agonista triplo dos receptores de GIP, GLP-1 e glucagon. Essa é justamente a característica que a diferencia de medicamentos já conhecidos no tratamento da obesidade, como agonistas de GLP-1 (Semaglutida, Liraglutida,…) e agonistas duais GLP-1/GIP (Tirzepatida).
Em termos simples, a proposta da retatrutida é atuar sobre múltiplas vias envolvidas no controle do peso corporal. O receptor de GLP-1 participa da regulação da saciedade, do esvaziamento gástrico e do controle glicêmico. O GIP também se relaciona com metabolismo energético e função incretínica. Já o componente glucagonérgico adiciona uma camada interessante, pois pode influenciar no gasto energético e metabolismo hepático, embora essa via também exige atenção quanto à segurança e tolerabilidade.
Na prática, a retatrutida tenta abordar a obesidade como uma doença crônica, multifatorial e neuroendócrina, e não apenas como um problema de “força de vontade”. Essa mudança de perspectiva é fundamental: quanto mais compreendemos a biologia da obesidade, mais fica claro que o tratamento efetivo tende a exigir intervenções capazes de modular apetite, metabolismo, composição corporal, comportamento alimentar e risco cardiometabólico.
Desenho do estudo TRIUMPH-1
O TRIUMPH-1 foi descrito como um estudo de fase 3, com duração principal de 80 semanas, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Foram incluídos 2.339 participantes, distribuídos em proporção 1:1:1:1 para receber retatrutida nas doses de 4 mg, 9 mg, 12 mg ou placebo.
Os participantes iniciavam com 2 mg uma vez por semana e passavam por escalonamento progressivo de dose a cada quatro semanas até atingir a dose-alvo. O grupo de 4 mg chegava à dose final com apenas uma etapa de escalonamento, enquanto os grupos de 9 mg e 12 mg passavam por aumentos graduais adicionais. Esse detalhe é clinicamente relevante, porque a tolerabilidade gastrointestinal costuma ser um dos principais limitadores do uso de terapias incretínicas.

Além da fase principal de 80 semanas, o estudo incluiu uma extensão pré-especificada de até 104 semanas, envolvendo 532 participantes com IMC basal ≥35 que completaram a fase principal e toleraram a medicação. Nessa extensão, os pacientes receberam retatrutida por mais 24 semanas, com escalonamento para a maior dose tolerada, de 9 mg ou 12 mg.
Principais resultados de perda de peso
O principal achado do TRIUMPH-1 foi a magnitude da redução ponderal. Em 80 semanas, a perda média de peso foi de:
- 19,0% no grupo retatrutida 4 mg,
- 25,9% no grupo 9 mg
- 28,3% no grupo 12 mg. Em comparação, o grupo placebo perdeu apenas 2,2% do peso corporal.
Traduzindo para valores absolutos, os participantes tinham peso médio inicial de aproximadamente 112,7 kg e IMC médio de 40 kg/m². A perda média foi de cerca de:
- 21,4 kg com 4 mg
- 29,2 kg com 9 mg
- 31,9 kg com 12 mg
Esses números são clinicamente expressivos porque ultrapassam, com folga, o patamar clássico de 5% a 10% de perda de peso considerado metabolicamente relevante em muitos estudos de obesidade.
O dado mais chamativo, porém, é a proporção de participantes que alcançaram perdas muito intensas. No grupo de 12 mg:
- 62,5% atingiram perda de pelo menos 25% do peso
- 45,3% perderam pelo menos 30%
- 27,2% alcançaram perda de 35% ou mais.
No placebo, esses valores foram muito baixos, com apenas 2,2%, 0,5% e 0,3%, respectivamente.
Esse nível de resposta aproxima a discussão farmacológica de um território que, por muito tempo, foi associado principalmente à cirurgia bariátrica. Isso não significa que a retatrutida substitua cirurgia, nem que as indicações sejam equivalentes. Mas significa que a farmacoterapia da obesidade está alcançando patamares de perda ponderal que, há poucos anos, pareciam improváveis para um tratamento medicamentoso.

O que aconteceu na extensão de 104 semanas?
Na extensão do estudo, os resultados sugerem que a perda de peso continuou progredindo após as 80 semanas. Entre os participantes com IMC basal ≥35 que entraram na extensão, aqueles originalmente alocados para retatrutida 12 mg e escalonados para a maior dose tolerada alcançaram perda média de 30,3% em 104 semanas, o equivalente a aproximadamente 38,5 kg (85lb).
Esse dado é importante porque toca em uma questão prática do tratamento da obesidade: a durabilidade da resposta. Muitos tratamentos induzem perda inicial de peso, mas enfrentam platô, reganho ou abandono por eventos adversos. A extensão sugere que, pelo menos no grupo selecionado que tolerou e completou a fase inicial, ainda havia perda ponderal adicional até dois anos.
No entanto, esse ponto precisa ser interpretado com cuidado. A extensão incluiu participantes que já haviam completado o estudo principal, estavam em uso da medicação e toleraram a dose. Portanto, trata-se de uma população enriquecida por aderência e tolerabilidade, o que pode superestimar a experiência esperada no “mundo real”.
Efeitos cardiometabólicos: além da balança
Embora a perda de peso seja o dado mais chamativo, o comunicado também relata melhora de marcadores cardiometabólicos, incluindo circunferência abdominal, colesterol não-HDL, triglicerídeos, pressão arterial sistólica e proteína C reativa ultrassensível.
A redução da circunferência abdominal foi particularmente relevante. Em 80 semanas, houve queda média de:
- 16,3 cm com 4 mg
- 21,8 cm com 9 mg
- 24,1 cm com 12 mg
contra apenas 3,6 cm no grupo placebo.
Esse tipo de achado é importante porque, na prática clínica, o objetivo do tratamento da obesidade não deve ser apenas “pesar menos”. A obesidade visceral se relaciona com resistência insulínica, inflamação crônica de baixo grau, dislipidemia aterogênica, hipertensão arterial, doença hepática esteatótica metabólica e maior risco cardiovascular. Portanto, reduções expressivas de cintura podem refletir uma melhora mais profunda do fenótipo metabólico.
Ainda assim, é necessário aguardar dados publicados para entender a magnitude real desses efeitos, sua consistência entre subgrupos e, principalmente, se eles se traduzem em redução de desfechos duros, como eventos cardiovasculares, progressão de doença renal, mortalidade ou hospitalizações.
Segurança e eventos adversos
O perfil de eventos adversos descrito foi semelhante ao observado com outras terapias baseadas em incretinas, especialmente no trato gastrointestinal. Náuseas, diarreia, constipação e vômitos foram os eventos mais comuns.
A náusea ocorreu em:
- 28,6% dos participantes no grupo 4 mg
- 38,4% no grupo 9 mg
- 42,4% no grupo 12 mg
contra 14,8% no placebo.
Diarreia, constipação e vômitos também foram mais frequentes nos grupos de retatrutida.
Um ponto que merece atenção é a taxa de descontinuação por eventos adversos. Ela foi de:
- 4,1% com 4 mg
- 6,9% com 9 mg
- 11,3% com 12 mg
em comparação com 4,9% no placebo.
Isso mostra uma relação importante entre dose, eficácia e tolerabilidade. A dose de 12 mg parece entregar maior perda de peso, mas também apresenta maior taxa de abandono por eventos adversos. Já a dose de 4 mg, embora produza menor perda ponderal relativa, ainda alcançou cerca de 19% de redução de peso, com menor descontinuação observada. Esse equilíbrio entre potência e tolerabilidade provavelmente será central na individualização terapêutica.
Também foram relatados episódios de disestesia e infecções urinárias em maior frequência nos grupos de retatrutida. A maioria desses eventos foi descrita como leve a moderada, com resolução durante o tratamento e manutenção da terapia pela maior parte dos participantes.
Interpretação clínica
O TRIUMPH-1 reforça uma tendência clara: o tratamento farmacológico da obesidade está entrando em uma fase de alta eficácia. A retatrutida não representa apenas “mais um remédio para emagrecer”; ela simboliza uma mudança na forma como a obesidade está sendo tratada dentro da medicina metabólica.
A perda de 25% a 30% do peso corporal, quando sustentada, pode modificar profundamente o risco cardiometabólico de muitos pacientes. Em indivíduos com obesidade grave, isso pode significar melhora de hipertensão, dislipidemia, apneia obstrutiva do sono, dor osteoarticular, capacidade funcional e qualidade de vida. Em medicina do esporte, esse tipo de intervenção também pode ter impacto relevante em pacientes com limitação funcional, dor crônica, osteoartrite, baixa aptidão cardiorrespiratória e dificuldade de aderir ao exercício por excesso de peso.
Mas existe um risco de interpretação simplista. Medicamentos como a retatrutida não anulam a importância de exercício, nutrição, sono, manejo comportamental e acompanhamento longitudinal. Pelo contrário: quanto maior a potência farmacológica, maior deve ser a responsabilidade clínica em preservar massa magra, ajustar ingestão proteica, estimular treinamento resistido, monitorar sintomas gastrointestinais, acompanhar composição corporal e evitar a ideia perigosa de que “emagrecer rápido” é automaticamente sinônimo de saúde.
Na prática, uma perda de peso tão expressiva precisa ser acompanhada por avaliação de força, funcionalidade, ingestão alimentar, micronutrientes, risco de sarcopenia, sinais de intolerância e impacto psicológico. Para o médico do esporte, esse cenário abre uma discussão muito interessante: o futuro da obesidade provavelmente não será apenas farmacológico, mas sim uma combinação entre fármacos altamente eficazes e prescrição de exercício cada vez mais precisa.
Limitações importantes
A principal limitação deste material é que os dados vêm de um comunicado de imprensa, e não de uma publicação científica completa revisada por pares. O próprio documento informa que resultados detalhados serão apresentados em congressos e publicados posteriormente em periódicos revisados por pares.
Isso limita a análise crítica em vários pontos. Ainda não temos, por exemplo, detalhes completos sobre critérios de inclusão e exclusão, características basais por grupo, perdas de seguimento, análise por subgrupos, impacto em composição corporal, massa magra, eventos raros, alterações laboratoriais completas e comparação indireta robusta com outras terapias.
Outro ponto importante é que o estudo avaliou adultos com obesidade ou sobrepeso com comorbidade, mas sem diabetes. Portanto, os resultados não devem ser automaticamente extrapolados para pacientes com diabetes tipo 2, idosos frágeis, adolescentes, gestantes, pacientes com múltiplas comorbidades graves ou populações fora dos critérios do ensaio.
Além disso, a extensão de 104 semanas incluiu apenas participantes que completaram a fase principal e toleraram a medicação, o que pode favorecer resultados melhores do que aqueles observados em uma população clínica mais heterogênea.
Síntese final
A retatrutida apresentou resultados extremamente expressivos no estudo TRIUMPH-1, com perda média de até 28,3% do peso corporal em 80 semanas e até 30,3% em 104 semanas em uma extensão pré-especificada. Esses números posicionam a molécula como uma das terapias farmacológicas mais promissoras já estudadas para obesidade.
O estudo também sugere melhora de marcadores cardiometabólicos e redução importante da circunferência abdominal, o que reforça que o benefício potencial pode ir além da balança. Por outro lado, os eventos adversos gastrointestinais foram frequentes, e a maior dose apresentou maior taxa de descontinuação.
O ponto mais importante, no momento, é manter equilíbrio: os dados são muito promissores, mas ainda são resultados topline divulgados pela empresa. Para uma conclusão clínica definitiva, será necessário aguardar a publicação completa, com revisão por pares e análise detalhada de segurança, eficácia sustentada, composição corporal e desfechos clínicos de longo prazo.
A retatrutida pode representar uma nova fronteira no tratamento da obesidade. Mas, como toda fronteira promissora, precisa ser atravessada com ciência, cautela e responsabilidade clínica.
Referência
- Eli Lilly and Company. Lilly’s triple agonist, retatrutide, delivered powerful weight loss in pivotal Phase 3 obesity trial. PRNewswire.
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por Luiz Guilherme Assumpção | @luizassump.med


