A promessa era elegante: o ganho do androgênio sem o preço. Os relatos de icterícia em jovens saudáveis contam outra história.
Um homem de 24 anos, sem doença prévia, chega ao consultório com dor abdominal, prurido e a esclera amarelada. Nenhum álcool relevante, nenhum medicamento de uso contínuo. Cinco semanas antes, começou a tomar um “suplemento” comprado pela internet para ganhar massa. A bilirrubina total dele estava em 38,5 mg/dL.
O suplemento era RAD-140, um SARM. E esse caso, publicado na literatura, não é isolado. Há relatos semelhantes com pacientes de 22, 29 e 43 anos, alguns chegando à avaliação para transplante hepático. Todos usavam substâncias que o mercado vende com o rótulo de “alternativa mais segura ao esteroide”.
Esse é o ponto de partida deste artigo, e a razão pela qual entender o SARM importa mais do que parece. Porque a confusão não é só terminológica. O paciente que trata SARM como se fosse peptídeo, ou como se fosse um anabolizante domesticado, subestima um risco que a literatura já documentou.
O nome já entrega a molécula
Antes de comparar qualquer coisa, vale abrir a sigla, porque ela é honesta.
SARM significa Modulador Seletivo do Receptor Androgênico. A palavra decisiva é a do meio: androgênico. O alvo do SARM é o receptor da testosterona, o mesmo dos anabolizantes. Não há ambiguidade aqui. Do ponto de vista farmacológico, o SARM nasceu na família dos androgênios.
“Modulador” diz como ele age: ativa o receptor, mas de forma ajustada, podendo funcionar como agonista total, parcial ou até antagonista, dependendo do tecido.
E “seletivo” é a promessa, a ideia que deu origem à classe inteira: ativar o receptor no músculo e no osso, poupando próstata, pele e cabelo. A aposta era engenhosa. Se a testosterona funciona mas cobra caro no resto do corpo, por que não desenhar uma molécula que só age onde interessa?
Foi essa a pergunta que a indústria tentou responder. E vale saber que ela tentou responder por motivos sérios.
Para que o SARM foi criado de verdade
Os SARMs não foram inventados para a academia. Foram desenvolvidos para tratar caquexia (a perda muscular devastadora do câncer e das doenças crônicas), osteoporose, sarcopenia do envelhecimento, e chegaram a ser estudados em câncer de mama e de próstata. São indicações de medicina de verdade, para pacientes que perdem massa e função.
E aqui vem o dado que o paciente precisa ouvir, e que muda a conversa no consultório: nenhum SARM foi aprovado para uso clínico. Nem pela FDA, nem pela ANVISA. Todos seguem em investigação, décadas depois do início do desenvolvimento. A seletividade tecidual, aquela promessa central, nunca foi demonstrada de forma robusta o suficiente em humanos para sustentar uma aprovação.
Ou seja, o que se vende na internet como suplemento não é um remédio que ainda não chegou ao mercado. É uma substância experimental que não conseguiu chegar.
Onde a promessa desmorona
A ideia de “anabolizante sem os efeitos do anabolizante” seduz porque é intuitiva. A realidade clínica é mais teimosa.
Os SARMs suprimem o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal. Os estudos mostram queda de testosterona endógena, de LH e de FSH. Faz sentido: se o composto ativa o receptor androgênico, o corpo entende que há androgênio de sobra e desliga a produção própria. É exatamente o mecanismo que o usuário acredita estar evitando ao trocar o esteroide pelo SARM.
Somam-se a isso a redução consistente do HDL e os relatos de hepatotoxicidade que abrem este texto. O padrão de lesão hepática descrito nesses casos é colestático, semelhante ao dos androgênios clássicos, o que reforça que a “não-esteroidalidade” da molécula não a livra do problema.
Há ainda um agravante que a maioria ignora. Numa análise química de 44 produtos vendidos como SARMs pela internet, apenas 52% continham de fato o SARM anunciado no rótulo. O resto trazia outras substâncias não aprovadas, doses diferentes das declaradas, ou nenhum princípio ativo. Quem compra SARM no mercado paralelo, na prática, não sabe o que está injetando ou ingerindo. Quando o paciente desenvolve uma lesão hepática, nem sempre é possível dizer se a culpa foi da molécula ou do que veio junto com ela.
A farmacologia que separa o rótulo da realidade
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Então por que confundem SARM com peptídeo?
A confusão é de prateleira, não de ciência. SARM e peptídeo são vendidos nos mesmos sites, usados pelo mesmo público, frequentemente no mesmo protocolo. Por circularem juntos, viram sinônimos na cabeça de quem usa.
Mas biologicamente eles não se encontram em lugar nenhum. O SARM entra na célula e se liga ao receptor androgênico, mexendo com transcrição gênica. O peptídeo, cadeia de aminoácidos, sequer entra: liga-se a receptores na superfície da membrana e dispara uma cascata de sinalização. Um secretagogo de GH, por exemplo, pede à hipófise que libere hormônio de crescimento próprio.
A consequência prática dessa diferença é grande. O SARM suprime o eixo gonadal; o peptídeo de sinalização trabalha dentro das alças de feedback e não produz a mesma supressão androgênica. São perfis de disrupção hormonal distintos, que exigem monitorização distinta.
E as finalidades também divergem. O SARM é buscado como atalho para hipertrofia. O peptídeo, na maioria dos usos de performance, mira recuperação, reparo tecidual, suporte de GH. Trocar um pelo outro esperando o mesmo resultado é usar a ferramenta errada.
O que fazer no consultório
Diante do paciente que usa SARM, três condutas mudam o desfecho.
Monitore o fígado, mesmo no assintomático. Os relatos de lesão hepática surgiram em jovens saudáveis, entre 5 e 16 semanas de uso, e o quadro se instalou sem aviso. Transaminases e bilirrubinas devem entrar na rotina de quem usa esses compostos, junto com perfil lipídico e avaliação do eixo gonadal.
Pergunte o protocolo inteiro, não a classe. É comum SARM, peptídeo e anabolizante no mesmo pacote. Avaliar um isolado é perder o quadro e errar a atribuição do efeito adverso.
E não trate a questão antidoping como detalhe. Os SARMs estão proibidos pela WADA e são causa recorrente de resultado positivo, inclusive por contaminação de suplemento. Para o atleta, “não é esteroide” nunca significou “é permitido”.
O que fica
O SARM não é um esteroide domesticado nem um primo distante do peptídeo. É uma molécula androgênica experimental, que prometeu seletividade, não a comprovou o suficiente para ser aprovada em lugar nenhum, e cujos relatos de dano hepático em jovens saudáveis já povoam a literatura.
O paciente que chega dizendo que usa “só um SARM, que é mais leve” precisa ouvir isso de você antes de ouvir de um plantonista, com a esclera amarela.
Perguntas frequentes
O que significa SARM?
Modulador Seletivo do Receptor Androgênico. Age no mesmo receptor da testosterona, tentando ativar músculo e osso poupando próstata e pele.
SARM é aprovado como medicamento?
Não. Nenhum SARM tem aprovação da FDA ou da ANVISA. Todos seguem em investigação, e o que se vende online é substância experimental sem controle.
SARM é a mesma coisa que peptídeo?
Não. O SARM é androgênico e entra na célula. O peptídeo é cadeia de aminoácidos que age por sinalização na superfície. Sistemas biológicos diferentes.
SARM faz mal ao fígado?
Há relatos publicados de lesão hepática colestática em usuários jovens e saudáveis, com resolução após a suspensão. O risco é real e exige monitorização.
Referências
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- Fosgerau K, Hoffmann T. Peptide therapeutics: current status and future directions. Drug Discov Today. 2015;20(1):122-128. PMID: 25450771
- Flores JE, Chitturi S, Walker S. Drug-Induced Liver Injury by Selective Androgenic Receptor Modulators. Hepatol Commun. 2020;4(3):450-452. PMID: 32140661
Autor
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CRM-SP 260331
Médico com atuação voltada para performance, composição corporal e saúde metabólica. Atendo atletas e pacientes que buscam melhorar sua saúde, emagrecer, ganhar massa muscular e alcançar alta performance de forma segura e sustentável.
Acredito que os melhores resultados acontecem quando ciência e prática caminham juntas. Por isso, meu trabalho é baseado em evidências científicas, aliado a uma abordagem individualizada e focada nos objetivos de cada paciente.
Meu propósito é ajudar pessoas a construírem uma melhor versão de si mesmas através da medicina, do exercício físico e de hábitos que gerem resultados duradouros.
