
Na última semana, o meio-campista Oscar chamou a atenção do público ao apresentar uma síncope durante uma avaliação pré-participação, permanecendo aproximadamente 2 minutos inconsciente. Embora o diagnóstico inicial divulgado tenha sido síncope vasovagal, o contexto do episódio — ocorrendo durante o esforço — reacendeu uma discussão essencial na Medicina do Esporte:
como diferenciar uma síncope benigna de uma síncope maligna em atletas?
Neste post, vamos revisar os critérios que ajudam clínicos, cardiologistas, médicos do esporte e profissionais da saúde a identificar quando estamos diante de um evento de baixo risco ou de uma situação potencialmente fatal que exige investigação imediata.
Por que o caso Oscar importa?
Síncope em atletas não é um achado trivial.
Quando ocorre em repouso ou ao final do exercício, normalmente está associada a causas benignas, como vasodilatação periférica ou reflexo vasovagal.
Porém, quando acontece durante o esforço, a abordagem muda completamente, pois essa apresentação pode estar vinculada a cardiopatias de alto risco.
O caso do Oscar, apesar de inicialmente tratado como vasovagal, exige uma análise cuidadosa pelo contexto e pela gravidade potencial das causas malignas.
O que é uma síncope benigna?

A síncope benigna é geralmente causada por mecanismos reflexos ou pela queda do retorno venoso. No contexto esportivo, é mais comum após o término do exercício, com o atleta ainda em pé, em ambiente quente ou desidratado.
Características da síncope benigna:
- Etiologias mais comuns: vasovagal ou ortostática
- Pródromos presentes: tontura, náusea, sudorese, escurecimento visual
- Recuperação rápida e completa
- Ocorre com mais frequência em situações de:
- calor excessivo
- desidratação
- jejum prolongado
- parada súbita após esforço
Esses elementos indicam um mecanismo fisiológico previsível e, na maioria das vezes, sem risco aumentado de morte súbita.
O que caracteriza uma síncope maligna? (cardiogênica)

A síncope maligna é aquela associada a condições cardíacas estruturais ou elétricas capazes de gerar arritmias potencialmente fatais.
É aqui que a atenção precisa ser redobrada — e é justamente o cenário que preocupa quando a síncope ocorre durante o exercício.
Características da síncope maligna:
- Ocorre em pleno esforço ou em pico de intensidade
- Ausência de pródromos → perda súbita da consciência
- Pode acompanhar:
- Palpitações
- Dor torácica
- Dispneia
- História familiar de morte súbita
- Levanta suspeita para:
- Cardiopatia hipertrófica
- Anomalias coronarianas congênitas
- Síndrome do QT longo
- Síndrome de Brugada
- Displasia arritmogênica do ventrículo direito
- Taquicardias ventriculares induzidas por exercício
Esse é o perfil de síncope que realmente preocupa — e que requer investigação imediata.
Como conduzir a investigação?

Diante de uma síncope de esforço, principalmente sem pródromos, a avaliação deve ser rápida, sistemática e completa.
Exames recomendados:
- Eletrocardiograma de repouso
- Ecocardiograma transtorácico
- Teste ergométrico supervisionado
- Holter 24h, se houver suspeita de arritmia intermitente
- Estudo eletrofisiológico, para investigação de arritmias malignas ou substratos elétricos anormais
Esses exames ajudam a identificar desde disfunções estruturais até canalopatias genéticas que podem predispor a morte súbita relacionada ao esporte.
Voltemos ao Oscar: e agora?
Apesar do diagnóstico inicial de síncope vasovagal, o fato de Oscar ter perdido a consciência durante o esforço justifica totalmente a investigação mais profunda à qual está sendo submetido.
Ele já passou por um estudo eletrofisiológico, justamente para descartar arritmias malignas — algo essencial para atletas de alto rendimento, cuja carga cardiovascular é muito elevada.
A pergunta que fica é:
foi realmente apenas uma síncope vasovagal, ou estamos diante de algo mais?
O desfecho depende da conclusão dos exames e dos achados cardiológicos que virão nas próximas semanas. Esse acompanhamento é indispensável para tomada de decisão sobre retorno ao esporte e risco a longo prazo.
📌 Conclusão
A síncope no atleta nunca deve ser tratada como um evento simples.
A distinção entre benigno e maligno é fundamental para segurança do paciente e muitas vezes é a diferença entre vida e morte.
➡ Síncope com pródromos, após o exercício → geralmente benigna
➡ Síncope durante o esforço, sem pródromos → assume-se maligna até que se prove o contrário
O caso do Oscar reforça a importância de avaliações pré-participação de qualidade e investigação rigorosa de eventos agudos.
📚 Referências
- Lampert R, Chung EH, Ackerman MJ, et al.
Declaração de consenso de especialistas da HRS de 2024 sobre arritmias em atletas: avaliação, tratamento e retorno ao esporte.
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Diretriz ACC/AHA/HRS de 2017 para a avaliação e o tratamento de pacientes com síncope: relatório da Força-Tarefa do Colégio Americano de Cardiologia / Associação Americana do Coração / Sociedade de Ritmo Cardíaco.
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Considerações clínicas para a participação em esportes competitivos de atletas com anormalidades cardiovasculares: declaração científica da American Heart Association e do American College of Cardiology.
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Diretrizes de Prática