Tirzepatida piora a performance? O que a evidência científica mostra:

A popularização dos agonistas do receptor de GLP-1 e GIP mudou completamente a forma como médicos encaram o tratamento da obesidade. Entre eles, a tirzepatida vem chamando atenção pelos resultados expressivos em perda de peso, melhora metabólica e recentemente analisado, a redução do risco cardiovascular.

Mas à medida que mais pacientes ativos, praticantes de atividade física e atletas passam a utilizar a medicação, surge uma dúvida importante:

A tirzepatida pode prejudicar a performance física?

A evidência científica atual não demonstra que a tirzepatida piora a performance física na maioria dos pacientes com obesidade. Embora exista perda de massa livre de gordura durante o emagrecimento, os estudos mostram melhora da capacidade funcional, mobilidade e parâmetros metabólicos. O impacto sobre atletas competitivos ainda exige avaliação individualizada. Explicaremos melhor nesse artigo.

Embora a perda ponderal geralmente esteja associada a melhora da capacidade funcional, existe uma preocupação legítima relacionada à perda de massa magra, ingestão energética reduzida e possíveis impactos sobre força e desempenho esportivo em atletas ou pessoas fisicamente ativas.

Para entender essa relação, precisamos entender e analisar a fisiologia, composição corporal e os estudos mais recentes publicados sobre o tema. Então, se você atua com pacientes fisicamente ativos, atletas amadores ou de alta performance que utilizam medicações para perda de peso, dominar esses conceitos tornou-se fundamental para a sua prática clínica.

No curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber, discutimos como interpretar alterações de composição corporal, adaptações ao exercício e impacto de intervenções farmacológicas sobre a performance esportiva:

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O que é a tirzepatida?

A tirzepatida é um agonista duplo dos receptores GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose) e GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon-1), aprovado para o tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade. É administrado como injeção subcutânea uma vez por semana.

Tem como ação:

  • Aumentar a secreção de insulina dependente de glicose
  • Inibir a liberação de glucagon de forma dependente de glicose
  • Retardar transitoriamente o esvaziamento gástrico
  • Aumentar a saciedade e plenitude, reduzindo a ingestão alimentar
  • Diminuir a intensidade dos desejos alimentares e preferências por alimentos hipercalóricos

Na prática clínica, os estudos demonstram perdas de peso superiores às observadas com diversos tratamentos farmacológicos previamente disponíveis.

Entretanto, perda de peso não significa necessariamente melhora da performance.

A composição desse peso perdido é o que importa.

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Por que existe preocupação com performance?

A principal preocupação surge porque qualquer intervenção que reduza rapidamente o peso corporal pode levar à perda simultânea de:

  • gordura corporal;
  • água corporal;
  • glicogênio;
  • massa muscular.

Historicamente, atletas e praticantes de atividade física apresentam receio de perder massa magra durante processos de emagrecimento.

Essa preocupação faz sentido, porque a massa muscular participa diretamente de produção de força, potência, velocidade, estabilidade articular e recuperação após treinos.

Portanto, se a tirzepatida promovesse perda significativa de tecido muscular funcional, seria plausível esperar algum prejuízo de desempenho.

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O que os estudos mostram sobre composição corporal?

A tirzepatida promove perda de peso composta por aproximadamente 75% de massa gorda e 25% de massa magra, proporção semelhante à observada com placebo e cirurgia bariátrica. Apesar da perda de massa magra em termos absolutos, a tirzepatida melhora bastante a composição corporal geral.

Dados do estudo SURMOUNT-1 com DXA

O subestudo SURMOUNT-1 com absorciometria de raios-X de dupla energia (DXA) fornece os dados mais detalhados sobre composição corporal com tirzepatida. 

A figura abaixo ilustra as mudanças observadas:

Figure 1. Change in body composition at Week 72.

Body composition changes during weight reduction with tirzepatide in the SURMOUNT ‐1 study of adults with obesity or overweight. Diabetes Obes Metab. 30 de abril de 2025.

Após 72 semanas, a tirzepatida (doses combinadas de 5, 10 e 15 mg) produziu: [1]

  • Redução de massa gorda: 33,9% vs 8,2% com placebo (diferença: -25,7%)
  • Redução de massa magra: 10,9% vs 2,6% com placebo (diferença: -8,3%)
  • Redução de gordura visceral: 42,4% vs 10,3% com placebo
  • Redução de circunferência abdominal: 12,9 cm vs 3,2 cm com placebo

Proporção consistente independente da magnitude da perda de peso

Um achado crítico é que a proporção de 75% gordura/25% massa magra permaneceu consistente mesmo em participantes que perderam mais de 25 kg.

Comparação com semaglutida

Algumas análises sugerem uma menor proporção de perda de massa livre de gordura com a tirzepatida em comparação aos valores observados em estudos separados com semaglutida. Porém, é importante ressaltar que essas comparações são indiretas e devem ser interpretadas com cautela:

  • Tirzepatida: 25,7% da perda de peso como massa magra (SURMOUNT-1)
  • Semaglutida: 40-45% da perda de peso como massa magra (STEP-1 e outros estudos)
  • Liraglutida: até 60% da perda de peso como massa magra

Em um estudo comparativo direto, a tirzepatida 15 mg produziu maior perda de peso total (20,2%) que a semaglutida 2,4 mg (13,7%), embora dados detalhados de composição corporal dessa comparação direta ainda sejam limitados (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41547366).

Uma análise publicada em 2025 avaliou especificamente a relação entre tirzepatida, composição corporal e função física.

Os autores observaram que a perda de massa magra ocorreu em proporção esperada para a magnitude da perda de peso total.

Entretanto, os indicadores funcionais não sugeriram deterioração muscular clinicamente relevante.

Pelo contrário, houve melhora de parâmetros relacionados à funcionalidade física e mobilidade.

Isso sugere que a simples redução da massa livre de gordura não deve ser interpretada automaticamente como perda de capacidade funcional.

O conceito de “qualidade muscular” parece ser mais importante do que a quantidade absoluta de massa muscular em muitos pacientes com obesidade.

Menos peso pode significar melhor desempenho?

Menos peso pode melhorar o desempenho em certas situações, mas a relação depende do contexto clínico, do método de perda de peso e do tipo de atividade física.

Em indivíduos com sobrepeso ou obesidade:

A redução de peso gradual melhora significativamente a capacidade física e o desempenho em pessoas com sobrepeso ou obesidade. Em um estudo com adultos obesos mais velhos, a perda de peso de aproximadamente 10% combinada com exercício produziu melhorias superiores na função física comparada à dieta ou exercício isolados. Especificamente:

  • VO₂ pico (capacidade aeróbica): aumentou 3,1 ml/kg/min com dieta+exercício vs -0,9 ml/kg/min no grupo controle
  • Velocidade de marcha: aumentou 16,9 m/min com dieta+exercício vs 1,1 m/min no controle
  • Força muscular total: aumentou 164 lb com dieta+exercício

O excesso de gordura corporal interfere com a aclimatação ao calor e afeta negativamente velocidade, resistência e eficiência do trabalho. A perda de peso em pessoas com obesidade melhora a capacidade de exercício, com estudos mostrando que a redução de 12 kg de peso corporal desloca os parâmetros de exercício da zona aeróbica-anaeróbica mista para a zona aeróbica, com melhorias mais pronunciadas na mecânica respiratória (12-28%) e função cardiovascular (6-7%).

E atletas competitivos?

Nesse caso, o cenário é diferente, porque a relação depende criticamente de:

1. Método de perda de peso:

  • Perda gradual (0,5-1 kg/semana): pode melhorar ou manter o desempenho, especialmente quando combinada com treinamento de força. Em atletas de elite, perda de 0,7% do peso corporal por semana resultou em aumento de 2,1% na massa magra e melhoria na força, enquanto perda de 1,4%/semana não alterou a massa magra.
  • Perda rápida (desidratação em 12-96h): diminui capacidade aeróbica, desempenho anaeróbico e força muscular, especialmente se o tempo entre pesagem e competição for <5 horas.

2. Disponibilidade energética:

Disponibilidade energética severa (<30 kcal/kg de massa livre de gordura/dia), mesmo por curtos períodos, prejudica diretamente o desempenho em potência, sprint e resistência, apesar da redução de peso. 

Figure 2. Changes in exercise performance and potential underlying physiological mechanisms associated with short‐term severe low energy availability (LEA) and subsequent short‐term refueling following periods

Além disso, também depende do tipo de atividade, porque em esportes com sustentação de peso (corrida, ciclismo, esqui cross-country) maior relação potência-massa pode melhorar desempenho, mas apenas se a perda de peso preservar massa magra e função muscular; já em esportes de força/potência a perda de peso pode ser prejudicial se resultar em perda de massa muscular, o que costuma acontecer na maioria dos casos.

A importância do treinamento de força

A literatura atual sugere que a preservação muscular durante o uso de agonistas de GLP-1 depende fortemente de fatores comportamentais.

Aqui os principais são:

Ingestão adequada de proteínas

Pacientes utilizando tirzepatida frequentemente relatam redução importante do apetite.

Isso pode dificultar atingir metas proteicas adequadas.

Treinamento resistido

O estímulo mecânico continua sendo um dos principais mecanismos de preservação de massa muscular.

Sono e recuperação

Processos adaptativos musculares dependem diretamente da recuperação adequada.

Quando esses pilares são mantidos, o risco de perda funcional relevante parece diminuir substancialmente.

O que importa:

Na prática da medicina esportiva, compreender fisiologia do exercício, adaptações musculares e impacto dos tratamentos farmacológicos é essencial para evitar conclusões equivocadas.

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Erros comuns ao interpretar os dados

Erro 1: assumir que toda perda de massa magra é perda muscular funcional

Massa livre de gordura não corresponde exclusivamente a músculo esquelético.

Erro 2: analisar apenas valores absolutos

A funcionalidade frequentemente possui maior relevância clínica do que a quantidade absoluta de tecido.

Erro 3: ignorar o contexto do paciente

Um paciente com obesidade grave possui objetivos completamente diferentes de um atleta competitivo.

Erro 4: focar apenas no peso

A resposta clínica deve considerar:

  • composição corporal;
  • desempenho físico;
  • qualidade de vida;
  • capacidade funcional;
  • risco cardiovascular.

Resumo:

A evidência atual não sustenta a ideia de que a tirzepatida necessariamente piora a performance.

Na maioria dos indivíduos com obesidade ou excesso de peso, a redução da massa corporal tende a melhorar capacidade funcional, mobilidade e tolerância ao exercício.

Existe perda de massa livre de gordura durante o tratamento, mas isso não significa automaticamente perda de função muscular.

O risco de prejuízo de desempenho parece estar mais relacionado a:

  • déficit energético excessivo;
  • baixa ingestão proteica;
  • ausência de treinamento resistido;
  • estratégias inadequadas de acompanhamento.

Para atletas competitivos, a individualização continua sendo indispensável.

Conclusão

A pergunta correta talvez não seja se a tirzepatida piora a performance.

A pergunta correta é:

em qual paciente, em qual contexto e com qual estratégia de acompanhamento?

Nos indivíduos com obesidade, os dados atuais apontam para melhora funcional global apesar da redução de massa livre de gordura.

Já em atletas ou indivíduos muito magros, o monitoramento nutricional, treinamento resistido e avaliação periódica da composição corporal tornam-se fundamentais para minimizar potenciais impactos negativos.

Como acontece frequentemente na medicina esportiva, o contexto clínico vale mais do que interpretações simplistas baseadas em um único número.

A tirzepatida não deve ser analisada apenas pelo peso perdido. O verdadeiro desafio clínico está em compreender como composição corporal, função muscular, disponibilidade energética e treinamento interagem durante o tratamento. Se você deseja dominar esses conceitos e aplicá-los com segurança em pacientes fisicamente ativos, atletas e indivíduos com obesidade, conheça o curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber.

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