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O que é overtraining?
Na prática da medicina do esporte, é comum receber atletas com queixa de queda de rendimento. Nem sempre isso representa falha de treinamento! Em muitos casos, trata-se de uma resposta fisiológica esperada ao aumento de carga.
No entanto, um artigo publicado na Revista de Educação Física do Exército Brasileiro reforça um ponto crítico:
▸ Há um limiar em que a carga deixa de promover adaptação e passa a induzir disfunção.
Nesse contexto, surge a síndrome do overtraining (OTS), condição ainda desafiadora do ponto de vista diagnóstico e manejo clínico.
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Antes do problema: existe um “caminho até o overtraining”
O artigo deixa bem claro que o overtraining não surge do nada. Existe um contínuo:
- Treino → adaptação → melhora
- Treino excessivo → fadiga
- Fadiga persistente → queda de performance
- E, por fim → overtraining
Ou seja: o problema não é treinar muito…
▸ É não respeitar a recuperação
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Objetivo do estudo
Revisar os principais mecanismos fisiopatológicos, manifestações clínicas e estratégias de monitoramento do overtraining, com foco na dificuldade diagnóstica e na ausência de marcadores isolados confiáveis.
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Metodologia
Trata-se de uma revisão de literatura, integrando estudos sobre desempenho esportivo, fisiologia do exercício e biomarcadores associados à fadiga crônica em atletas.
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Resultados: o que deve chamar atenção na prática clínica
O principal achado do artigo é direto:
▸ Não existe um marcador único capaz de diagnosticar overtraining com precisão.
Diversos parâmetros já foram estudados:
- Variáveis cardiovasculares (frequência cardíaca, recuperação)
- Marcadores metabólicos (lactato)
- Eixo hormonal (testosterona, cortisol)
- Biomarcadores inflamatórios
Contudo, nenhum demonstrou consistência suficiente para uso isolado na prática clínica.
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Sinais clínicos relevantes
O diagnóstico, portanto, deve ser centrado na avaliação clínica integrada.
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🔴 Manifestações físicas:
- Fadiga persistente desproporcional à carga
- Queda de performance sustentada
- Recuperação prolongada pós-treino
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🧠 Manifestações neuropsicológicas:
- Alterações de humor
- Irritabilidade
- Redução da motivação
- Distúrbios do sono
▸ Um ponto-chave: - alterações psicológicas frequentemente precedem os sinais físicos, podendo ser o primeiro indicativo clínico.
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Implicações para a abordagem médica
O artigo reforça que o overtraining deve ser compreendido como uma síndrome multifatorial, resultante da interação entre diferentes fontes de estresse:
- Carga de treinamento
- Privação de sono
- Estresse psicológico
- Déficit energético
- Demandas externas ao esporte
▸ Do ponto de vista clínico, isso implica que:
Não é possível avaliar o atleta apenas pelo treino.
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Erro comum na prática
Um comportamento recorrente é interpretar a queda de desempenho como necessidade de intensificação do treino.
O artigo alerta que:
▸ Em contexto de overtraining, essa conduta agrava o quadro fisiopatológico.
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Sobre o uso de biomarcadores
Apesar do interesse em marcadores como:
- Relação testosterona/cortisol
- Frequência cardíaca basal ou variabilidade
- Exames laboratoriais
▸A evidência mostra que eles devem ser utilizados apenas como ferramentas complementares, nunca como critério diagnóstico isolado.
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Implicações clínicas e manejo
A condução do atleta com suspeita de overtraining deve seguir alguns princípios:
✔️ Avaliação global do atleta
Incluindo aspectos físicos, psicológicos e comportamentais.
✔️ Monitoramento longitudinal
Mais relevante do que medidas pontuais.
✔️ Valorização de sinais subjetivos
Percepção de esforço, fadiga e humor têm alto valor clínico.
✔️ Ajuste de carga e recuperação
Intervenção central no manejo.
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Conduta prática
Diante da suspeita de overtraining:
- Redução ou suspensão temporária da carga
- Otimização do sono
- Correção de possíveis déficits nutricionais
- Avaliação de fatores psicossociais
- Reintrodução progressiva do treinamento
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▸ Não há intervenção farmacológica específica com evidência robusta.
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Limitações do estudo
- Heterogeneidade metodológica entre os estudos
- Ausência de critérios diagnósticos padronizados
- Variabilidade nos marcadores avaliados
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Conclusão
O overtraining permanece uma condição de diagnóstico essencialmente clínico.
▸ Não há exame único capaz de confirmá-lo.
▸ A avaliação deve ser multifatorial e longitudinal.
▸ O manejo é centrado na modulação da carga e na recuperação.
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Insight para prática clínica
Na prática, diante de um atleta com queda de performance:
▸ A pergunta central não deve ser
“ele está treinando pouco?”
Mas sim:
▸ “ele está conseguindo se recuperar adequadamente da carga que está recebendo?”
Em um cenário no qual a adesão ao treinamento, a recuperação adequada e o comportamento alimentar ao longo da semana exercem impacto muito maior do que ajustes pontuais no estado alimentar pré-exercício, a personalização passa a ser o verdadeiro diferencial.
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Referências
- KREHER, J. B.; SCHWARTZ, J. B. Overtraining syndrome: a practical guide. Revista de Educação Física, v. 87, n. 1, 2018. DOI: 10.37310/ref.v87i1.755.
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por Luiz Guilherme Assumpção | @luizassump.med
Corroborado por: Dr. João Diniz | CRM-SP 255.027