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Introdução
Você já se perguntou quanto “vale” energeticamente uma caminhada, uma faxina ou até um videogame ativo? Durante décadas, pesquisadores e profissionais de saúde tentaram responder essa pergunta, mas cada estudo usava critérios diferentes, o que dificultava comparações e recomendações confiáveis.
Foi para resolver esse problema que surgiu o Compendium of Physical Activities, uma grande tabela científica que organiza centenas de atividades físicas e atribui a elas um valor chamado MET (equivalente metabólico), que representa o custo energético daquela atividade. Em 2024, esse Compendium recebeu sua atualização mais completa, focada especificamente em adultos de 19 a 59 anos, corrigindo limitações fisiológicas associadas ao uso indiscriminado de METs ao longo do ciclo vital e alinhando o instrumento às evidências contemporâneas da fisiologia do exercício.
Este artigo apresenta essa nova versão, explicando como os valores foram atualizados, o que mudou em relação às versões anteriores e por que isso é tão relevante para a saúde, o exercício físico e a prática clínica.
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O que é o MET e por que ele é importante?
O MET (equivalente metabólico) é uma forma simples de comparar atividades diferentes.
- 1 MET corresponde ao gasto energético do corpo em repouso
- Uma atividade com 4 METs, por exemplo, gasta quatro vezes mais energia do que ficar parado
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Essa métrica permite classificar atividades como:
- Leves
- Moderadas
- Vigorosas
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E é justamente com base nesses valores que surgem recomendações como:
“Praticar pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada.”
Sem METs confiáveis, essas recomendações perdem precisão.
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Por que uma nova atualização era necessária?
Desde a última grande atualização, em 2011, o mundo mudou:
- Surgiram novas tecnologias, como videogames ativos e realidade virtual
- O uso de bicicletas elétricas se popularizou
- Novos esportes e formas de exercício se tornaram comuns
- A ciência avançou na medição direta do gasto energético
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Além disso, hoje sabemos melhor que idade influencia o metabolismo. Usar os mesmos valores para jovens, adultos e idosos pode gerar erros. Por isso, a versão 2024 é exclusiva para adultos entre 19 e 59 anos, enquanto idosos e crianças passaram a ter Compendiums próprios.
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Métodos
Estratégia de busca e seleção dos estudos
Foi conduzida uma revisão sistemática extensiva da literatura publicada entre janeiro de 2011 e março de 2023, utilizando quatro bases de dados principais (PubMed, Embase, SPORTDiscus e Scopus). A busca combinou termos relacionados a atividades físicas específicas com medidas de gasto energético (VO₂, MET, consumo de oxigênio).
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Foram inicialmente identificados 32.173 resumos, dos quais 701 estudos preencheram todos os critérios de elegibilidade após triagem e leitura completa.
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Critérios de elegibilidade
Foram incluídos apenas estudos que:
- Avaliaram adultos entre 19 e 59 anos
- Mensuraram gasto energético por calorimetria indireta ou direta
- Relataram valores absolutos ou relativos de VO₂ convertíveis em MET padrão
Foram excluídos estudos baseados em equações preditivas, dispositivos vestíveis isolados ou populações com condições clínicas que alteram significativamente o metabolismo basal.
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Cálculo e padronização dos METs
Todos os valores foram convertidos para o MET padrão, assumindo 1 MET = 3,5 mL/kg/min. Os autores mantiveram a classificação clássica:
- Sedentário: 1,0–1,5 METs
- Leve: 1,6–2,9 METs
- Moderado: 3,0–5,9 METs – Começa a ser considerado fisicamente ativo
- Vigoroso: ≥6,0 METs
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Resultados
Expansão e refinamento do Compendium
O Compendium of Physical Activities 2024 passa a incluir:
- 1114 atividades específicas, distribuídas em 22 grandes categorias
- 912 atividades com METs medidos (82%)
- Apenas 202 atividades com METs estimados, reduzindo significativamente a dependência de extrapolações
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Foram:
- 303 novas atividades adicionadas
- 176 atividades revisadas, com ajuste de valores ou descrições
- Criada uma nova categoria principal: Video Games
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Inclusão de novas tecnologias e padrões modernos
Destaca-se a incorporação de:
- Exercícios em realidade virtual
- Exergames com sensores de movimento
- Bicicletas elétricas (E-bikes)
- Modalidades esportivas contemporâneas (futsal, frisbee golf, race walking)
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Discussão
Avanços conceituais relevantes
A principal inovação do Compendium 2024 é a separação etária explícita, reconhecendo que o metabolismo de repouso varia significativamente com a idade. Essa decisão aumenta a validade fisiológica do uso de METs em adultos jovens e de meia-idade, ao mesmo tempo em que protege contra erros sistemáticos quando aplicados em idosos.
A criação da categoria Video Games reflete uma mudança profunda no comportamento motor moderno, reconhecendo que jogos ativos podem atingir intensidades comparáveis a exercícios tradicionais, inclusive em faixa vigorosa (>8 METs).
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Limitações inerentes
Apesar do avanço metodológico, os autores reforçam que:
- O Compendium não substitui avaliação metabólica individual
- Diferenças de sexo, composição corporal e nível de treinamento influenciam o gasto energético real
- O uso clínico deve ser interpretado como estimativa populacional, não valor absoluto individual
Implicações para a prática clínica na Medicina do Esporte
Este artigo agrega valor direto à prática clínica ao:
- Melhorar a prescrição de exercício baseada em MET-minutos semanais
- Apoiar decisões em reabilitação, controle de carga e prevenção de lesões
- Facilitar o diálogo entre dispositivos vestíveis, questionários e prescrição médica
- Servir como base para educação do paciente, especialmente em estratégias de adesão ao exercício
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Na medicina do esporte, o Compendium 2024 permite uma abordagem mais precisa na quantificação da carga externa, especialmente em pacientes fisicamente ativos, atletas recreacionais e indivíduos em programas de condicionamento físico.
Conclusão
O Compendium of Physical Activities 2024 consolida-se como a principal referência global para classificação do gasto energético em adultos, integrando evidências contemporâneas, novas tecnologias e maior rigor metodológico. Seu uso adequado fortalece tanto a pesquisa quanto a prática clínica em medicina do esporte, saúde pública e prescrição do exercício baseada em evidências.
👉 nem toda atividade precisa ser “exercício formal” para contar, e agora temos uma base científica mais sólida para entender isso.
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Referências
- Stephen D. Herrmann, et al. 2024 Adult Compendium of Physical Activities: A third update of the energy costs of human activities, Journal of Sport and Health Science, Volume 13, Issue 1, 2024, Pages 6-12, ISSN 2095-2546,
https://doi.org/10.1016/j.jshs.2023.10.010.
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por Luiz Guilherme Assumpção | @luizassump.med
Corroborado por Dr. Joao Diniz | @docdiniz