Testosterona para Mulheres: Segurança, Eficácia e Evidências da Meta-análise do Lancet

O uso de testosterona em mulheres, historicamente controverso, carece de consenso internacional, embora seja prescrito há décadas para o tratamento da diminuição do bem-estar sexual.

Para clarificar o balanço entre riscos e benefícios, pesquisadores realizaram uma revisão sistemática e meta-análise abrangente, publicada no The Lancet Diabetes & Endocrinology. Este estudo é fundamental para médicos que buscam evidências de alta qualidade sobre a terapia androgênica feminina, focando em função sexual, saúde cardiometabólica e segurança a curto prazo.

Visão Geral do Estudo

Este estudo consiste em uma revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados (ECR). O objetivo foi avaliar os efeitos do tratamento com testosterona sistêmica comparado ao placebo ou comparador (estrogênio com ou sem progestinas).

  • População e Amostra: Foram incluídos 46 relatórios de 36 ensaios clínicos randomizados, totalizando 8.480 participantes.
  • Perfil das Pacientes: A maioria dos dados provém de mulheres na pós-menopausa (natural ou cirúrgica).
  • Fontes de Dados: A busca incluiu MEDLINE, Embase, Cochrane e Web of Science (1990–2018), além de dados não publicados submetidos à FDA e EMA, o que reduz o viés de publicação.

Metodologia

Os pesquisadores seguiram os critérios PRISMA e realizaram a seleção de estudos em duas etapas, com revisão independente.

  • Critérios de Inclusão: Ensaios clínicos randomizados, cegos (pelo menos simples-cego), com duração de tratamento de no mínimo 12 semanas.
  • Intervenções: Administração de testosterona por qualquer via (oral, adesivo transdérmico, creme, gel, spray, implante ou injeção).
  • Comparadores: Placebo ou terapia hormonal convencional (estrogênio +/- progestogênio).
  • Análise Estatística: Utilizou-se modelo de efeitos aleatórios. Para dados contínuos, calculou-se a diferença média (MD) ou diferença média padronizada (SMD); para dados dicotômicos, utilizou-se a razão de risco (RR) de Mantel-Haenszel.

Conheça o curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber.

Resultados Quantitativos

Os resultados demonstraram eficácia significativa na função sexual, mas destacaram diferenças cruciais de segurança dependendo da via de administração.

1. Função Sexual (Desfecho Primário)

A testosterona demonstrou benefícios consistentes em mulheres na pós-menopausa em comparação ao controle:

  • Frequência de eventos sexuais satisfatórios: Aumento significativo (Diferença Média: 0,85; IC 95% 0,52 a 1,18).
  • Desejo sexual: Aumento significativo (SMD 0,36; IC 95% 0,22 a 0,50).
  • Angústia/Sofrimento sexual: Redução significativa (SMD -0,27; IC 95% -0,36 a -0,17).
  • Outros parâmetros: Melhora significativa no prazer, excitação, orgasmo, responsividade e autoimagem sexual.

2. Saúde Cardiometabólica e Perfil Lipídico

Houve uma distinção clara baseada na via de administração:

  • Testosterona Oral: Associada a um perfil lipídico adverso, com aumento do LDL-colesterol e redução do colesterol total, HDL e triglicerídeos.
  • Testosterona Não-Oral (Transdérmica): Não foi associada a efeitos adversos no perfil lipídico (efeito neutro).
  • Peso Corporal: Houve um aumento global de peso associado ao tratamento.
  • Glicose e Pressão Arterial: Sem efeitos significativos observados.

3. Eventos Adversos e Androgênicos

  • Acne: Aumento significativo da probabilidade (RR 1,46; IC 95% 1,11–1,92).
  • Crescimento de pelos (Hirsutismo): Aumento significativo da probabilidade (RR 1,69; IC 95% 1,33–2,14).
  • Eventos Adversos Graves: Não houve aumento na frequência de eventos graves, efeitos adversos endometriais ou mamários.
  • Alopecia e Voz: Não foram registrados efeitos de alopecia, clitoromegalia ou mudança de voz em comparação ao placebo.

Conheça o curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber.

Conclusões

A meta-análise conclui que a testosterona é eficaz para mulheres na pós menopausa com baixo desejo sexual que causa angústia pessoal. E como dizia minha professora de GO: “talvez a queda do desejo seja culpa do parceiro e não sua”. A administração por vias não-orais (ex: adesivos ou cremes transdérmicos) é preferível devido à neutralidade no perfil lipídico, diferentemente da via oral que piora o LDL-colesterol.

Os dados atuais são insuficientes para tirar conclusões sobre segurança a longo prazo, efeitos na cognição, saúde musculoesquelética ou uso em mulheres na pré-menopausa.

Aplicações Práticas

Para a prática clínica médica, este estudo sugere as seguintes diretrizes baseadas em evidência:

  1. Indicação Precisa: A terapia é justificada para o transtorno do desejo sexual hipoativo (HSDD) em mulheres pós-menopausadas.
  2. Via de Escolha: Deve-se prescrever exclusivamente fórmulas não-orais (transdérmicas) para evitar riscos cardiovasculares associados à dislipidemia induzida pela via oral.
  3. Contraindicações de Uso: A testosterona não deve ser usada para tratar depressão, perda óssea ou para prevenir declínio cognitivo, pois não houve benefício comprovado nesses desfechos.
  4. Aconselhamento: Pacientes devem ser alertadas sobre efeitos colaterais androgênicos leves, como acne e aumento de pelos, além de ganho de peso.
  5. Lacuna Farmacológica: A ausência de formulações aprovadas especificamente para mulheres força o uso off-label de produtos masculinos ou manipulados, o que exige cautela extrema na dosagem para evitar níveis suprafisiológicos.

Limitações e Vieses

  • Viés de Atrito: Houve alto risco de viés de atrito (desistência) em muitos estudos incluídos.
  • Heterogeneidade: Observou-se heterogeneidade moderadamente alta para desfechos de eventos sexuais satisfatórios e desejo sexual.
  • Dados Limitados: Escassez de dados para mulheres na pré-menopausa e falta de estudos robustos sobre cognição e saúde musculoesquelética.
  • Segurança a Longo Prazo: A maioria dos estudos teve duração limitada, deixando lacunas sobre a segurança (ex: risco de câncer de mama ou eventos cardiovasculares) em tratamentos prolongados.

Principais Insights

  • Eficácia Comprovada: Aumento real na frequência e satisfação sexual em pós-menopausadas.
  • Segurança Cardiovascular: A via transdérmica é segura para o perfil lipídico; a via oral não é.
  • Estética: Acne e crescimento de pelos são os efeitos colaterais mais comuns.
  • Não é “Anti-Aging”: Não há evidências de que melhore cognição ou força muscular nesta população.
  • Peso: O tratamento está associado a um leve ganho de peso.

Mensagem Final

A meta-análise publicada no The Lancet estabelece um divisor de águas na prática clínica: a testosterona é uma ferramenta terapêutica válida, mas deve ser utilizada com precisão cirúrgica.

A evidência sustenta o uso exclusivo para mulheres na pós-menopausa com disfunção sexual (especificamente baixo desejo causando angústia), onde demonstrou eficácia real em aumentar a frequência e a satisfação sexual.

No entanto, a segurança depende estritamente da via de administração. A via transdérmica (adesivos, géis, cremes) é a única recomendada, pois contorna o metabolismo hepático de primeira passagem e mantém o perfil lipídico neutro, ao contrário da via oral, que eleva o LDL e reduz o HDL significativamente.

É crucial desmistificar o uso “estético” ou “anti-aging”: o estudo não encontrou benefícios para cognição, densidade óssea, força muscular ou humor depressivo. Portanto, a prescrição deve focar na queixa sexual, alertando a paciente sobre efeitos androgênicos leves (acne e aumento de pelos) e a necessidade de monitoramento contínuo, dada a ausência de dados de segurança a longo prazo.

Quer aprofundar de verdade nesses e outros temas? Conheça o curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber.

Referencia Bibliográfica:

ISLAM, Rakibul M. et al. Safety and efficacy of testosterone for women: a systematic review and meta-analysis of randomised controlled trial data. The Lancet Diabetes & Endocrinology, [S. l.], 25 jul. 2019. DOI 10.1016/S2213-8587(19)30189-5. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1016/S2213-8587(19)30189-5. Acesso em: 21 dez. 2025.

Autor

  • Lucas Reis

    Me chamo Lucas, tenho 25 anos e sou acadêmico de medicina no 8° período.
    Entusiasta de fisiculturismo e alta performance esportiva.
    Pesquisa cientifica e produção de conteúdo como hobby.

Compartilhe esse post