Descontinuando GLP-1: O que realmente acontece com o peso após o uso? Evidências da primeira meta-análise sobre o tema

Suspensão de agonistas GLP-1 leva a reganho significativo de peso. Entenda os efeitos, dados quantitativos e implicações clínicas.

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Introdução

Que os agonistas do receptor de GLP-1 (GLP-1RAs) revolucionaram o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2 nós já sabemos. No entanto, pouco se sabe sobre o que acontece após a interrupção da terapia. Um estudo foi o primeiro a quantificar de forma robusta o reganho de peso, cintura e IMC após parar liraglutida, semaglutida ou tirzepatida — um tema crucial para manejo clínico de longo prazo.

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Visão geral do estudo

O estudo consiste em uma revisão sistemática com meta-análise, incluindo 8 ensaios clínicos randomizados (N = 2.372 participantes) avaliando o impacto da descontinuação de GLP-1RAs sobre:

  • Peso corporal
  • Circunferência da cintura
  • IMC

Todos os participantes tinham IMC ≥ 27 kg/m². Foram incluídos estudos com liraglutida (3,0 mg), semaglutida (2,4 mg) e tirzepatida (10–15 mg). O acompanhamento após suspensão variou de 12 a 52 semanas.

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Métodos

Desenho

Revisão sistemática + meta-análise seguindo método PRISMA, registrada em INPLASY.

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Fontes de dados

EBSCOhost, Cochrane, MEDLINE, PubMed (2015–2024). Pesquisas adicionais incluíram clinicaltrials.gov e Google Scholar.

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Critérios de inclusão

  • Ensaios clínicos randomizados
  • Estudos em humanos
  • Participantes tratados previamente com GLP-1RAs
  • Resultados: peso, IMC ou circunferência da cintura

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Exclusões

  • Estudos com gliptinas (DPP-4)
  • População pós-bariátrica
  • Estudos sem desfechos de peso

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Protocolos dos estudos incluídos

  • Fase de tratamento: 20–160 semanas
  • Fase pós-descontinuação: 12–52 semanas
  • Intervenções sempre associadas a mudanças de estilo de vida (dietas hipocalóricas e atividade física)
  • Análise estatística: modelo DerSimonian-Laird, random effects

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Variáveis analisadas

Desfechos primários:

  • Mudança no peso após suspensão
  • Mudança na circunferência da cintura
  • Mudança no IMC

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Desfechos secundários (variável entre estudos):

  • PA, perfil lipídico, HbA1c, CRP
  • Qualidade de vida
  • Função hepática (NAFLD)

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Resultados

Peso corporal

Semaglutida + Tirzepatida (N = 800)
  • Reganho médio: +9,69 kg
  • IC 95%: 5,78 a 13,60
  • Heterogeneidade alta (I² = 97%)
  • Peso inicialmente perdido: 11,1 a 21,1 kg
  • Interpretação prática:
    • Os pacientes recuperaram aproximadamente metade a dois terços do peso perdido.
    • Isso significa que a perda substancial induzida por semaglutida/tirzepatida não se mantém sem o fármaco, mesmo mantendo dieta e exercícios.
    • O alto reganho reflete o quanto esses medicamentos modulam o apetite e o gasto energético — processos que “voltariam ao normal” ao suspender a medicação.

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Liraglutida (N = 1.572)
  • Reganho médio: +2,20 kg
  • IC 95%: 1,69 a 2,70
  • Heterogeneidade mínima (I² = 0%)
  • Peso inicial perdido: 2,7 a 9,34 kg
  • Interpretação prática:
    • Reganho foi menor pois a perda inicial também costuma ser menor.
    • Em ensaios de curto prazo, o reganho representou 25–30% da perda inicial.
    • Em estudos de longo prazo, chegou a 60–163%, indicando que alguns participantes recuperaram mais peso do que haviam perdido.
       
    • Mostra que interrupções prolongadas tornam difícil sustentar a perda.

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Circunferência da cintura

Semaglutida/Tirzepatida (N = 603)
  • Reganho: +5,78 cm
  • IC 95%: 0,88 a 10,68
  • Perda inicial: 10,1 a 17,4 cm
  • Interpretação prática:
    • Apesar do reganho expressivo, ele foi proporcionalmente menor do que o reganho de peso.
    • Isso sugere que a gordura pode ter sido redistribuída — possivelmente maior recuperação de gordura visceral do que subcutânea.
    • Isso é clinicamente relevante porque gordura visceral aumenta risco de cardiopatia, DM2 e inflamação crônicaㅤㅤ

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Liraglutida (N = 1.473)
  • Reganho: +1,37 cm
  • IC 95%: 0,83 a 1,90
  • Perda inicial: 5,6 a 9,4 cm
  • Interpretação prática:
    • O reganho foi modesto, mas sempre presente.
    • Mesmo mantendo dieta e exercício, os participantes voltaram a acumular gordura abdominal.
    • Clinicamente, isso indica maior dificuldade em manter melhora metabólica após suspensão.

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Por que circunferência da cintura importa mais que peso?
  • Ela reflete gordura visceral, a mais perigosa metabolicamente.
  • Pequenas variações (2–5 cm) podem significar mudanças grandes na inflamação sistêmica e na sensibilidade à insulina.
  • A recuperação dessa medida após parar GLP-1 reforça a necessidade de tratamento contínuo.

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Índice de Massa Corporal (IMC)

Semaglutida/Tirzepatida (N = 800)
  • Reganho: +3,59 kg/m²
  • IC 95%: 2,04 a 5,14
  • Perda inicial: 4–7,9 kg/m²
  • Interpretação prática:
    • Ganhos de >3 kg/m² são clinicamente significativos e podem mudar a categoria de IMC do paciente.
    • Representam praticamente metade da perda inicial.

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Liraglutida (N = 438)
  • Reganho: +0,73 kg/m²
  • IC 95%: 0,44 a 1,02
  • Perda inicial: 1–2,5 kg/m²
  • Interpretação prática:
    • O reganho foi proporcionalmente menor, mas estatisticamente significativo.
    • Em estudos de longo prazo, o reganho foi suficiente para reduzir substancialmente os benefícios metabólicos adquiridos durante a terapia.

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Proporção de peso recuperado (insight crucial)

  • Liraglutida – curto prazo: 25–30% do peso perdido
  • Liraglutida – longo prazo: 60–163%
  • Semaglutida/Tirzepatida: 52–64%

Ou seja, quanto maior a perda inicial, maior o reganho absoluto após parar.

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O que as três variáveis juntas mostram?

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1. O reganho é inevitável sem o medicamento.

Mesmo com dieta, atividade física e acompanhamento nutricional, os participantes voltaram a ganhar peso.

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2. Quanto maior a eficácia do GLP-1, maior o rebote.

Semaglutida e tirzepatida geram grandes perdas e, portanto, grandes reganhos.

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3. A gordura visceral retorna — mesmo que o peso total não volte totalmente ao baseline.

Isso tem implicações importantes para risco cardiovascular.

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4. GLP-1 não deve ser encarado como tratamento temporário.

Os dados apontam claramente para necessidade de tratamento crônico, similar ao manejo de hipertensão ou DM2.

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Conclusões

  • A descontinuação de GLP-1RAs leva a reganho significativo de peso, cintura e IMC, mesmo com manutenção de dieta e exercícios.
  • O reganho é proporcional à perda inicial, especialmente em semaglutida e tirzepatida.
  • GLP-1RAs devem ser considerados terapias crônicas, não intervenções temporárias para perda de peso.
  • Manter apenas dieta e exercícios não é suficiente para impedir o reganho após suspensão.

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Aplicações práticas

  • GLP-1RA deve ser prescrito com expectativa de uso prolongado.
  • Estratégias de suspensão lenta (“tapering”) ainda não foram estudadas, mas podem ser exploradas futuramente.
  • Exercício supervisionado pode ajudar a reduzir o reganho, segundo estudos externos citados.
  • Pacientes devem ser educados sobre:
    • risco aumentado de recidiva
    • necessidade de plano de manutenção
    • importância da adesão

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Limitações e vieses

  • Alta heterogeneidade nos estudos com semaglutida/tirzepatida.
  • Pouca disponibilidade de dados sobre aderência às mudanças de estilo de vida.
  • Apenas dois estudos avaliaram circunferência da cintura em semaglutida/tirzepatida.
  • Diferenças no tempo de acompanhamento influenciam a magnitude do reganho.
  • A meta-análise tem poucas publicações para algumas classes terapêuticas, reduzindo consistência estatística.

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Principais insights

  • Interromper GLP-1 leva a reganho rápido e significativo de peso.
  • Semaglutida/tirzepatida apresentam reganho muito maior que liraglutida.
  • Mesmo mantendo dieta/exercício, pacientes não sustentam a perda.
  • Isso confirma que obesidade é uma condição crônica, beneficiando-se de terapias contínuas.
  • O reganho pode envolver aumento de gordura visceral, com implicações cardiometabólicas.
  • Custo e acesso permanecem grandes barreiras à terapia prolongada.

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Referências

  1. Berg S, Stickle H, Rose SJ, Nemec EC. Discontinuing glucagon-like peptide-1 receptor agonists and body habitus: A systematic review and meta-analysis. Obesity Reviews. 2025; 26(8):e13929. doi:10.1111/obr.13929

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por Luiz Guilherme Assumpção | @luizassump.med

Autor

  • Luiz Guilherme Assumpção

    Acadêmico de medicina na Universidade Iguaçu
    Secretário acadêmico da Liga Acadêmica de Medicina do Esporte e do Exercício (LMEEX-UNIG)
    Filiado Comitê Acadêmico da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (CASBMEE)
    Embaixador oficial MedEsporte Papers

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